Agronegócio brasileiro ainda está amadurecendo tecnologicamente

Por Regina Teixeira – Especial para o Monitor Mercantil

O agronegócio é a menina dos olhos da pauta de exportação do Brasil. Em 2019, as exportações do setor somaram US$ 96,8 bilhões. Esse valor representa 23,2% do total exportado pelo país, segundo a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Mas, antes de chegar ao nível de exportação, as empresas do setor precisam atender a uma série de requisitos: primeiramente estarem tecnologicamente aptas para garantir financiamentos, e terem segurança jurídica e boa governança.

A fintech Bar Digital, com sede em Londrina (Paraná), atua com a emissão de e-CPR (Cédula de Produto Rural eletrônica). Fundada em 2016, a empresa é uma agtech que oferece soluções digitais voltadas ao financiamento agrícola. É dirigida por sua fundadora, a advogada Mariana Bonora, que também é membro da diretoria da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). A CEO explicou à reportagem do Monitor Mercantil como está o setor e sobre o grau de interesse do produtor pela digitalização dos recebíveis e financiamento agrícola (veja abaixo entrevista completa).

Qual o grau de amadurecimento tecnológico do agronegócio brasileiro?

– Hoje, o setor está amadurecendo tecnologicamente, acompanhando também os prazos da Lei do Agro e de decisões complementares. A necessária reclusão temporária por conta do coronavírus mobilizou boa parte do mercado brasileiro, e o agronegócio sentiu impactos diretamente, principalmente para dar continuidade às operações de financiamento e garantir que os insumos chegassem ao campo na época correta.

É importante dizer que estamos falando de um setor que movimenta valores muito altos, em que a segurança jurídica e boa governança são essenciais, portanto, a sua modernização não envolve apenas aparatos tecnológicos, mas educação e aplicação em todas as esferas, desde as grandes indústrias a cartórios e pequenos produtores rurais. Por isso, é um processo complexo, mas que vem ocorrendo de forma rápida e segura.

Em termos de investimentos, está havendo crescimento?

– Sim, também por consequência da Lei do Agro, que possibilitou com que novos ativos possam utilizar a CPR (Cédula de Produto Rural) no financiamento de suas culturas. Isso está fazendo com que mais valores sejam movimentados no setor.

Para se ter uma ideia, até 2019, o interesse pela digitalização dos recebíveis e financiamento agrícola era mais latente em culturas que já se financiavam no mercado de capitais, como soja, milho, cana, café e algodão. Com a popularização da tecnologia e diversificação dos instrumentos financeiros do agro, surgiram demandas de outros segmentos, como produtores de arroz, aveia, boi, carbono, eucalipto, feijão, gergelim, leite, madeira, entre outros.

Qual foi o impacto da pandemia no setor?

– Como explicado anteriormente, a pandemia impulsionou o processo de modernização do setor, que já estava ocorrendo, mas em menores passos. Porque além de existirem muitos processos analógicos, sua maioria era presencial também. O agro conseguiu olhar para a tecnologia com mais afinco e compreender que ela poderia facilitar esses processos.

O processo para se conseguir investimento ainda é muito difícil?

– Depende. O mercado certamente tem evoluído nos modelos de negócio e ferramentas tecnológicas para agilizar os financiamentos para o agro, mas ainda tem muito espaço pra melhorar. Há linhas com tempo de desembolso mais curto e análise de crédito simplificada. Muitas destas operações, no entanto, ocorrem quando o tomador já possui um limite de crédito previamente aprovado, ou seja, as partes não eliminaram a dificuldade do processo, apenas se organizaram para que a burocracia não fosse um gargalo no momento em que o capital se tornasse realmente necessário. Quando não ocorre esta aprovação prévia do crédito, ainda que haja automação em partes das análises, a diminuição da complexidade do processo geralmente é acompanhada de maiores taxas de juros ou menores valores emprestados.

Que perfil de empresas do agronegócio a fintech atende?

– Por consequência da expansão do mercado, o perfil de empresas que atendemos também expandiu, indo além dos produtores rurais. Hoje, atendemos outras startups, cooperativas, revendas, usinas, instituições financeiras, securitizadoras, confinamentos e indústrias.

Qual a participação das pequenas empresas do setor em termos tecnológicos? Tamanho tem a ver com consciência tecnológica?

– Não. A consciência tecnológica tem muito mais a ver com a cultura da empresa. Atendemos pequenas empresas que já entenderam que a digitalização é pressuposto para que elas consigam escalar seus negócios com eficiência operacional e na velocidade exigida pelo mercado.

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