'Aguirre, a Cólera dos Deuses' e a política no Brasil

Por Wagner Victer.

Opinião / 16:45 - 22 de mai de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Um dos grandes prazeres que tenho exercido nesse período de isolamento social é ter a oportunidade de, junto com meu filho Francisco, me sentar na televisão e assistir aos grandes clássicos do cinema. O que me trouxe bastante surpresa é que, muitas vezes, alguns clássicos, no espírito de Júlio Verne nas Vinte Mil Léguas Submarinas, fazem de maneira visionária a projeção de uma narrativa que tem paralelos com fatos do cotidiano.

Neste conceito, uma das obras que mais me chamou atenção é o clássico criado pelo genial diretor alemão Werner Herzog com o nome original Aguirre, der Zorn Gottes, cujo título brasileiro é Aguirre, a Cólera dos Deuses, lançado em 1972.

O filme, com fotografias belíssimas, teve locações no Peru e no Rio Amazonas num processo bastante pesado, com mais de um mês de gravação, onde houve o início do histórico conflito entre o diretor Herzog e o principal ator de seus filmes, o austríaco Klaus Kinski, extremamente polêmico e conhecido especialmente no Brasil por sua imagem no filme Nosferatu, que quis abandonar as gravações desse clássico e foi ameaçado de morte pelo próprio Herzog, como registra a história do cinema.

O filme, que é inspirado em fatos e figuras históricas, conta a trajetória de uma expedição espanhola na América realizada em 1561 e comandada por Dom Pedro de Urzúa, tendo como protagonista o capitão Lope de Aguirre, encarnado por Klaus Kinski, e foi amparado em uma narrativa obtida no diário do Frei Gaspar de Carvajal, que participou de outra mítica expedição.

Mais que o lado histórico, o filme mostra os efeitos mentais e emocionais sofridos por homens que têm o poder e suas atitudes alteradas e exacerbadas, em situações limites, o que nos leva a paralelos com a situação que vivemos a política brasileira atualmente.

Na trajetória, a expedição armada espanhola atravessa os Andes e monta balsas a partir do Rio Orinoco, atravessando a Amazônia em busca pela lendária El Dorado, conhecida como a “Cidade de Ouro”. Enviada pelo governador Gonzalo Pizarro e chefiada posteriormente por Dom Pedro de Urzúa, acompanhado do seu “segundo em comando”, que é Lope de Aguirre. Este se autoproclama mandatário e se rebela contra toda a coroa em um ato de loucura crescente para buscar criar o seu próprio Império.

O filme é uma jornada dentro da insanidade que muitos homens desenvolvem quando recebem o poder e lá retratada na visão de Herzog, pois à medida que a expedição avança, o diretor retrata o capitão Lope de Aguirre em devaneios de grandeza, começando a brigar com todos os seus aliados e dizimando-os, um a um, na busca incessante do poder.

Sem considerar aqueles que o apoiaram, aqueles que seguem em sua jornada taxados de vilões e executados, ou morrem pelas próprias condições da louca jornada que ele insiste em seguir no seu universo paralelo de poder, enquanto Aguirre continua incólume, como se fosse um mandatário de Deus e o poder.

Em sua trajetória descendo um rio, em uma balsa adotando práticas totalmente esdrúxulas pelo seu comandante mor Aguirre, como a de utilizar um negro para correr nu com o objetivo de assustar as populações indígenas que moram nas áreas a serem conquistadas, numa postura totalmente heterodoxa e insana nas práticas de domínio, aliás uma heterodoxia que temos observado muito no Brasil atualmente.

Aos poucos, o Capitão Aguirre acirra seus trejeitos corporais de um militar soberano diante da sua tropa que se esvazia e se perde na sua própria loucura e ambição, derrubando seu próprio chefe que abandonou um cavalo que descia na balsa, matando seus aliados e terminando na célebre cena em que Aguirre, já sozinho na balsa que desce o rio, observa o poder e o território fictício sobre seu domínio vazio, enquanto só lhe sobram combates com os micos que invadem a sua balsa e que viram seus únicos e totais companheiros e inimigos.

A loucura e ambição em uma trajetória, eliminando parceiros e inimigos, numa mera ideologia de deter todo poder absoluto, ungida sabe lá de onde, é a tônica de Aguirre, a Cólera dos Deuses e precisa ser reconhecida.

Infelizmente, o Brasil de hoje lembra muito os devaneios da expedição filmada por Herzog e de seu Capitão Aguirre. Assim como na história, a tripulação da nossa balsa precisa agir antes que essa Cólera dos Deuses nos afunde.

Wagner Victer

Engenheiro, administrador e jornalista.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor