Ainda há honra no Planalto! Ou havia

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No ano de 2009, em plena crise financeira mundial, o Governo Obama recomendou a todos os países do G-20 que enfiassem os pés no acelerador em busca de políticas expansivas da economia. Era preciso ampliar a demanda através de aumento dos gastos públicos deficitários e da redução da taxa de juros. Os Estados Unidos saíram na frente. Fizeram um déficit fiscal de US$ 1,5 trilhão em 2009, acumulando US$ 7,5 trilhões nos anos seguintes, até 2014. A economia norte-americana, e principalmente o emprego, se recuperaram.

Na volta da reunião do G-20 em Washington, Luciano Coutinho, um dos mais competentes e íntegros presidentes do BNDES de todos os tempos, encontrou-se comigo num dos corredores do banco e me confidenciou: “Os Estados Unidos vão dar uma porrada (na demanda) de um trilhão”. Estava exultante com a diretiva política. E não ficamos atrás. O Governo brasileiro determinou ao Tesouro que repassasse R$ 200 bilhões ao BNDES, para que, em dois anos, ele aumentasse os empréstimos baratos ao setor produtivo interno.

Foi um sucesso absoluto, o maior de política econômica no Governo Lula. Em 2010 a economia brasileira, que havia entrado em depressão no ano anterior, cresceu nada menos que 7,4%, em plena crise mundial. Veja: fui sempre um admirador das políticas sociais do Governo Lula. Mas critiquei fortemente as políticas econômicas restritivas conduzidas por Henrique Meirelles no Banco Central e Antônio Palotti na Fazenda. Entretanto, aplaudi entusiasticamente essa política vitoriosa de enfrentamento interno da crise mundial.

 

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Levy se recusou a cumprir ordem

para devolver ao Tesouro R$ 180 bilhões

 

Em 2015, como todos sabem, a presidenta Dilma Roussef chamou Joaquim Levy para chefiar a economia brasileira. Ela tinha tido várias más escolhas na economia, mas esta, a meu ver, seria a pior: um governo de conotação social havia trazido para o centro estratégico do poder econômico um neoliberal. E Levy não se fez de rogado: meteu logo, goela abaixo do povo, um ajuste fiscal que daria o tom ideológico neoliberal ao regime – depois copiado por Temer e Bolsonaro – na ilusão de que isso ajudaria a evitar o golpe do impeachment.

Quando Dilma se apercebeu de seu erro e demitiu Levy, abriu-se o caminho para o neoliberalismo radical na forma da infame Ponte para o Futuro de Temer. Isso, porém, não chegou aos pés da política que está sendo aplicada sob Jair Bolsonaro, que nem nome e nem diretiva tem: é a política de Paulo Guedes, um economista medíocre de uma nota só – a saber, a nota de acabar com o Estado produtivo e normativo, simplesmente ignorando a necessidade de retomar o desenvolvimento e o emprego. Nesse ínterim, Joaquim Levy assumiu o BNDES.

Mais um filiado à doutrina neoliberal exótica de Guedes, pensei eu. Mas quando Levy anunciou agora sua renúncia, depois de uma reprimenda pública hipócrita de Bolsonaro, achei que era apenas um homem honrado reagindo a uma impertinência no plano pessoal. Entretanto, fui informado de que a razão real da demissão não tem nada a ver com isso. Foi a recusa de cumprir a ordem do governo para o retorno ao Tesouro de R$ 180 bilhões relativos àqueles R$ 200 bi de 2009. O retorno tem o efeito inverso da medida original: é para contrair ainda mais a economia e fazer escalar o desemprego. Um crime econômico adicional aos muitos crimes econômicos de Guedes.

Levy teria se recusado também a fazer uma devassa no banco para acabar com o aparelhamento petista da instituição. Creio que não conseguiu identificar nenhum aparelhamento petista lá e por isso não agradou ao time de Bolsonaro. Pessoalmente, fui assessor da presidência no segundo Governo Lula e não sou do PT. Não só isso. Ataquei violentamente Meirelles, então presidente do Banco Central, inclusive na Procuradoria da República, e não fui demitido. O aparelhamento que Levy não viu simplesmente não existe.

Na verdade, aparelhamento mesmo é o que Bolsonaro está fazendo na Administração: mais de 300 cargos do primeiro e segundo escalão foram ocupados por oficiais militares da reserva. Alguns devem ser competentes. Mas é claro que a maioria deve estar lá para ter uma boquinha adicional à aposentadoria. Isto, sim, é um aparelhamento injustificável. Bolsonaro não é dono do governo para entupi-lo com amigos. E se o governo afundar, como está afundando, gostaria de ver se os militares que estão lá, inclusive o Heleno, terão honra para fazer o que fez Levy: pedir o boné e pular fora!

 

 

José Carlos de Assis

Economista e jornalista.

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