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quinta-feira, janeiro 21, 2021

Além de Keynes

Com ou sem confinamento, a recessão no Brasil é um dado concreto, assim como no resto do mundo. Sua magnitude, entretanto, é que vai ser definida pela postura do governo. Mas, enquanto as medidas dos ministros vão na direção certa, o presidente puxa a corda para o outro lado, ampliando as incertezas, o que piora o quadro. Para sorte do Brasil, Bolsonaro e o gabinete do ódio estão isolados e parecem mais ladrar que morder. Para azar, Bolsonaro foi eleito presidente da República.

Há duas correntes claras e opostas. A primeira, encabeçada pelo presidente, é de que a quarentena é desnecessária, de que o Brasil não pode parar. A Covid-19 é uma gripezinha, uma chuva que não afoga ninguém. Para Bolsonaro, os impactos econômicos negativos por si só são a justificativa para pôr fim à quarentena. Mas será que o país pode voltar a funcionar normalmente em meio ao risco de um colapso do sistema de saúde?

Cerca de 90% dos casos de infectados pela Covid-19 não exigem tratamento intensivo, mas a preocupação é com os 10% que requerem período de tratamento relativamente longo, necessitando de respirador e UTI. Como o contágio é rápido, o isolamento social serve justamente para que o sistema de saúde consiga atender todos casos em que a doença se agrava.

Se houver a interrupção da quarentena, como quer o presidente, o Brasil viverá uma realidade em que o número de pessoas que precisam do tratamento será maior que os leitos do sistema de saúde. Neste caso, o sistema entra em colapso. A mortalidade se multiplica e, para controlar o problema do contágio, o retorno de uma quarentena mais dura e longa será necessário.

O colapso da saúde é o colapso da economia. Ao tomar esta medida, a recessão tão temida pelo presidente será ainda maior e por mais tempo. Não é de se admirar o apelido que Bolsonaro recebeu da revista britânica The Economist, a qual chamou líder brasileiro de “Bolsonero” fazendo referência ao imperador Nero, que mandou incendiar Roma.

A outra corrente que deixa completamente a economia de lado também tem efeitos perversos. Ao permitir a economia afundar, outros tantos brasileiros vão sofrer seja por desnutrição, aumento da violência e criminalidade, falta de recursos etc. Mas esta não é o que o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, defende como querem nos fazer acreditar.

É possível buscar uma via mais equilibrada. E é aí que entra a importância de uma política fiscal e monetária eficientes. A melhor saída é a manter a quarentena e tomar medidas de ordem econômica e social para amenizar os efeitos do isolamento social nos negócios e na renda.

Neste sentido, o governo deve quebrar todos os protocolos e ir além de Keynes. Na visão do economista, o governo deveria fazer investimentos para salvar a economia da crise. No momento atual, entretanto, só isso não é suficiente. A questão agora é mais transferência de renda e crédito para a engrenagem continuar funcionando.

Questões como o crescimento da dívida pública e restrição orçamentária como o teto dos gastos e a regra de ouro deixam de ser prioridades neste momento para dar margem para que políticas públicas de ajuda e salvamento da economia sejam adotadas. Na situação de emergência não há limite de orçamento. A dívida pública vai crescer em relação ao PIB e, após o fim da pandemia, o Brasil sairá em condições piores. Mas só após o fim é que é hora de pensar nas reformas.

A necessidade é de coordenação entre Fazenda e Bacen para evitar que o capital organizacional da economia seja destruído, reduzindo ao máximo o fechamento de pequenas empresas. É preciso lembrar que há toda uma organização em torno da pequena empresa: clientes, funcionários fornecedores. Ora, se esta for à falência toda uma cadeia desaparece e sua reconstrução leva tempo.

Houve tropeços nas medidas econômicas adotadas no início, mas a despeito de Bolsonaro, o caminho certo começou a ser tomado com pacotes de ajuda tanto para as pequenas empresas quanto para garantir renda aos trabalhadores. Sabe-se que as perdas vão ocorrer, mas a busca é por minimizar os danos. Como dizia Keynes, no longo prazo todos estaremos mortos. Para Bolsonaro, no curto prazo, é melhor.

Ana Borges
Colunista.

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