Alimentos e passagens seguem pressionando medidas de inflação

IPCA-15 apresenta alta de 0,94% em outubro; pressão nos preços dos alimentos nos levou a revisar indicador de 2020 de 3,1 para 3,25%.

Opinião do Analista / 15:30 - 23 de out de 2020

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À luz do real desvalorizado e das anomalias geradas pela pandemia (estímulos fiscais elevados em diversos países, forte alta no preço das commodities, preços de passagens aéreas pressionados pela reabertura da economia etc.), os preços dos alimentos consumidos dentro e fora do domicílio continuam pressionando as medidas de inflação. O IPCA-15 apresentou alta de 0,94% em outubro, maior alta para o mês desde 1995. Arroz, carnes e passagens aéreas foram os principais destaques de alta e educação foi o único setor que apresentou descompressão no mês.

Mesmo com o resultado em linha com as nossas expectativas, a intensificação da pressão nos preços dos alimentos nos levou a revisar o IPCA de 2020 de 3,1 para 3,25%. Para 2021, o cenário é incerto e os aumentos persistentes dos preços das commodities e a incerteza com relação à saída da crise epidemiológica podem pressionar o IPCA para além dos 3,0% (a nossa projeção atual é de 2,6%). Mas considerando que as pressões nos preços estão sendo causadas fundamentalmente por movimentos muito peculiares da pandemia (que devem se dissipar ao longo de 2021 e 2022) e dada a ociosidade bastante elevada que esperamos para os próximos anos (projetamos taxa de desemprego de 15,5% em 2020 e 14,5% em 2021), a tendência subjacente de inflação deve seguir baixa.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) teve alta de 0,94% em outubro, em linha com a nossa expectativa (0,93%) e acima do consenso de mercado (0,83%). A alta apresentada para o mês de outubro foi a maior desde 1995 e, no acumulado de 12 meses, a inflação já apresenta variação de 3,52% (vs. 2,65% nos 12 meses imediatamente anteriores).

A maior variação e o maior impacto vieram do grupo de alimentação e bebidas (2,24%), mas com a reabertura gradual da economia, a alta dos preços foi generalizada. Das nove categorias analisadas pelo IBGE, a única que apresentou descompressão no mês foi educação, uma vez que muitas escolas e universidades concederam descontos nas mensalidades escolares ao migrarem para o ensino remoto durante a pandemia. A expectativa é de que o reajuste já comece a ser sentido em dezembro, quando o IBGE deve realizar uma coleta extra para coletar os preços das mensalidades. Até lá, a inflação de Educação deve continuar baixa.

Alimentos e bebidas apresentaram inflação levemente abaixo do que esperávamos, mas continuam em ritmo de expansão, principalmente devido ao real desvalorizado e à demanda internacional elevada por commodities brasileiras. As altas mais significativas foram apresentadas por alimentos consumidos no domicílio (principalmente arroz e carnes), mas o repasse para bares e restaurantes continuou causando aumento dos preços da alimentação fora do domicílio (principalmente de refeições e vinho).

Além da alimentação fora do domicílio, os transportes também ajudaram a elevar a inflação de serviços em outubro. O aumento em 39,90% dos preços de passagens aéreas e em 2,07% do transporte por aplicativo já ilustram os efeitos da reabertura das atividades econômicas. Os preços de transportes públicos, ao nosso ver, devem continuar baixos pelos próximos meses, porque as eleições municipais e a pandemia acabaram postergando a decisão das autoridades de reajustar as tarifas (o que deve acontecer apenas em 2021).

A alta dos preços de duráveis segue chamando a atenção. As principais justificativas são o incremento de renda gerado pelo pagamento do auxílio emergencial aos mais vulneráveis (que têm propensão maior ao consumo de bens) e a própria pandemia, que forçou as pessoas a passarem mais tempo em casa. A saída da questão pandêmica será fundamental para entendermos como se dará a inflação de duráveis no ano que vem.

Como consequência principalmente do aumento maciço dos preços dos alimentos e do repasse para a alimentação fora do domicílio, os núcleos (considerados medidas subjacentes de inflação) já começam a acelerar de forma gradual, mas seguem bem-comportados.

Mesmo com o resultado em linha com as nossas expectativas, a intensificação da pressão nos preços dos alimentos nos levou a revisar o IPCA de 2020 de 3,1 para 3,25%. Para 2021, o cenário é incerto e os aumentos persistentes dos preços das commodities e a incerteza com relação à saída da crise epidemiológica podem pressionar o IPCA para além dos 3,0% (a nossa projeção atual é de 2,6%). Mas considerando que as pressões estão sendo causadas fundamentalmente por movimentos muito peculiares da pandemia (que devem se dissipar ao longo de 2021 e 2022) e dada a ociosidade bastante elevada que esperamos para os próximos anos (projetamos taxa de desemprego de 15,5% em 2020 e 14,5% em 2021), a tendência subjacente de inflação deve seguir baixa.

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Lisandra Barbero

XP Investimento

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