Alto risco

As poderosas e caras agências classificatórias de risco de Wall Street, cujo trabalho consiste em medir os riscos de crédito em todo o mundo, tiveram papel decisivo na atual crise financeira – mas não para evitá-la. Para o diretor-executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial (associado à Faap), Norman Gall, as três maiores (Moody”s, Standard & Poor e Fitch) formam um oligopólio, “viciado de incentivos perversos, que exerce influência decisiva sobre quem pode emprestar a quem, e a que juros”.

Frouxos
Em estudo divulgado em setembro, Gall lembrava que as agências enfrentam problemas “devido aos critérios frouxos e aos conflitos de interesses envolvidos na concessão de classificação AAA a derivativos que empacotaram hipotecas de alto risco e outros ativos exóticos que causaram perdas pesadas aos bancos e outros investidores. O perfil moral das agências está comprometido pelo fato de elas cobrarem grandes taxas de emissores que buscam classificações “de grau de investimentos” para vender seus títulos e derivativos”.

Às cegas
Relata o diretor-executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial que o jornal The New York Times investigou o processo pelo qual a Moody”s, a mais antiga e prestigiosa das agências, classificava títulos de crédito e constatou que, num conjunto de 2.393 hipotecas, avaliado em US$ 430 milhões, “a Moody”s não tinha acesso aos arquivos individuais dos empréstimos, nem se comunicara com os tomadores deles – 43% dos quais não tinham apresentado comprovação de rendimentos – para averiguar a veracidade das informações constantes em seus pedidos de hipoteca, 27% das quais acabaram inadimplentes”. “Entre 2002 e 2006, os lucros da Moody”s quase triplicaram, graças às altas taxas cobradas para esse tipo de classificação”, alfineta Gall.

IMC
A relação entre o índice de massa corporal (IMC) e a obesidade e as complicações que dela podem advir não são universais como se divulga. Um artigo da pesquisadora Ana Carolina Vieira informa que o IMC não foi um bom indicador para predizer alterações da glicemia (açúcar) e dos lipídios (gordura) em adolescentes de escolas estaduais da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, comparado com as referências existentes na pesquisa internacional.
Segundo a Agência Notisa, Ana Carolina e colegas da Uerj, da UFRJ e da UFF analisaram 577 adolescentes entre 12 e 19 anos (210 meninos e 367 meninas) em 2003 para determinar em quais medidas de IMC haveria alterações no perfil de lipídios e da glicemia dos jovens. Em alguns casos, o índice teve relação com alterações, mas de modo geral o IMC não foi um bom índice para identificar estas anormalidades na amostra estudada.

Previdência&rentistas
Antes de emitirem os habituais e inconsistentes palpites sobre os efeitos da recomposição do poder aquisitivo de aposentados e pensionistas sobre a Previdência Social, o lobby da previdência privada deveria se debruçar sobre outros números. Enquanto a Previdência destina cerca de R$ 140 bilhões por ano para de 21 milhões de famílias de aposentados (cerca de R$ 6 mil por família ao ano), apenas em 2008, cerca de 1 milhão de investidores em fundos diversos receberão R$ 160 bilhões em pagamento de juros.

Concentração
Para quem alega que parte da classe média, ainda com sobra de caixa, também é credora dos juros, como investidores, não como rentistas e especuladores, é importante lembrar outro número mais revelador: daquele total, dois terços, ou cerca de R$ 100 bilhões, serão apropriados por apenas 15 mil clãs.

São os juros, Delcides!
Os números também deveriam ser considerados pelo relator do Orçamento, senador Delcides Amaral (PT-MS), que tem aproveitado o espraiamento da crise mundial para defender o desmonte do Estado brasileiro, com cortes no gasto público.

Desperdício
O relator alega que os cortes que defende no Orçamento não afetariam os investimentos, concentrando-se no custeio da máquina. Deveria explicar, então, de que serve o Estado investir, se depois a máquina deve ser impedida de funcionar?

Marcos de Oliveira e Sérgio Souto

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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