Amazônia, retrato do Brasil

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Amazônia (foto de Marcelo Camargo, ABr)
Amazônia (foto de Marcelo Camargo, ABr)

O crime e a impunidade se espalham na Amazônia. Vemos isso por meio dos assassinatos de ativistas ambientais e líderes indígenas, pela proliferação do garimpo ilegal e conflitos agrários, pelo tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, pela grilagem de terras e avanço de ocupações em terras indígenas, pelo desmatamento ilegal e ateamento de fogo em áreas de floresta nativa sem o manejo adequado visando formação de pasto e plantio de grãos, pelo corte de árvores para o comércio ilegal de madeira, pela pesca e comércio clandestino de peixes em áreas indígenas e período de defeso, pelo derramamento de agrotóxicos, mercúrio e outras substâncias químicas em córregos e rios contaminando as águas e o ar, enfim tudo ocorre em uma velocidade maior do que a possibilidade de recuperação do meio ambiente e da proteção das vidas daqueles que se doam em proteção da floresta.

Além, as mudanças climáticas em nada favorecem o cenário de degradação da Amazônia. O calor vem aumentando, e a estação seca está cinco semanas mais longa se comparada à de 1979, diz o cientista Carlos Nobre em entrevista a O Globo. A contagem regressiva de resiliência da floresta começou, e diz Nobre que “estamos tão próximos do ponto de não retorno, que se não zerarmos logo o desmatamento, não deteremos o processo”.

A fim de minimizar esse risco de “savanização” da floresta o renomado cientista criou o projeto do arco da restauração, a ser apresentado na COP27, com o fim de replantar em regiões muito degradadas e desmatadas como no sul da Amazônia. Nobre atesta que o “arco da restauração” pode retirar 1 bilhão de toneladas de gás carbônico da atmosfera estimando que, até 2030, o preço da tonelada pode chegar a US$ 30 no mercado de carbono (O Globo, 28/8/2022, pg. 18/19).

Se o século passado foi marcado pelo auge das exportações de commodities como petróleo, minério de ferro e grãos, é necessário urgentemente virar a página para o aproveitamento sustentável das grandes riquezas que hoje ainda possuímos.

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O Brasil ainda detém enorme potencial para se destacar no desenvolvimento de produtos e processos inovadores a partir da diversidade genética e bioquímica existente no patrimônio natural. Há um vasto universo de possibilidades de inovações a partir do registro que temos de mais de 200 mil espécies de plantas, animais e microrganismos. Há também amplas possibilidades de desenvolvimento econômico por meio do mercado de carbono e de energias renováveis. Compreender esse novo paradigma econômico do planeta e desenvolver estratégias aptas a utilizar os recursos naturais disponíveis de forma sustentável é um dos caminhos para o Brasil ser um dos líderes da economia mundial.

A 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP27), a ser realizada em novembro, no Egito, sugere a adoção de metas mais ambiciosas para o cumprimento do Acordo de Paris visando à redução das mudanças climáticas e a estabelecer estratégias para uma nova forma de produção industrial, agrícola e tecnológica, criando novas oportunidades no mercado global. No entanto, o cenário atual do avanço do desmatamento e da degradação ambiental em nossos principais biomas em nada ajuda a darmos esse salto em direção a um futuro mais próspero, pelo contrário, estamos regredindo à medida que nossas matas e biodiversidade se esvaem. O “ponto de não retorno” a que se refere o cientista Carlos Nobre significa não apenas um desastre para a Amazônia, mas sobretudo para o desenvolvimento econômico do Brasil.

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