Amnésia

A comoção causada na mídia daqui e de alhures com a reação defensiva e espalhafatosa do governo Lula à reportagem do The New York Times produziu momentos explícitos de amnésia, não alcóolica, e colonialismo. Ao listar países, que a seu critério e das fontes por ela selecionada, seriam autoritários, incluindo nessa caracterização, a expulsão de jornalistas, a mídia local e de alhures cometeu omissão capital: os Estados Unidos. Foi da terra do democrata George Bush que foi expulso o único jornalista iraquiano credenciado naquele país, que também proibiu a importante rede Al-Jazerah de operar em seu território.

Herança maldita
O Brasil foi o país com maior números filiados do Partido Nazista fora da Alemanha. Esse é um dos primeiros resultados da tese de doutorado da historiadora Ana Maria Dietrich, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, em parceria com o Centro de Estudos de Anti-Semitismo da Universidade Técnica de Berlim. Ela foi à Alemanha pesquisar nos arquivos daquele país.
Na sua pesquisa, Ana Maria detectou que o Landesgruppe Brasilien (o grupo do país Brasil) integrava uma rede mundial de filiais do partido nazista alemão (NSDAP), com tentáculos em 83 países, em todos os continentes, somando 29 mil integrantes: “As filiais estavam ligadas à Organização do Partido Nazista no Exterior (AO), um departamento do governo do Reich. Todas diretrizes, ordens e controles partiam desta central”, diz a historiadora.
O Landesgruppe Brasilien tinha o maior número de filiados do Partido Nazista fora da Alemanha: 2.903 integrantes, seguido por Holanda (1.925), Áustria (1.678) e Polônia (1.379). Dos filiados no Brasil, 92,7% eram alemães natos e apenas 2,45%, brasileiros. “Para o governo Vargas, o NSDAP era um pequeno partido voltado para uma minoria estrangeira (alemães). Mas para o governo de Hitler, a história era outra”, observa Ana Maria.
Pelas atrocidades posteriormente praticadas no país, as sementes nazistas no país deixaram frutos (amargos).

Verde falso
Em artigo no jornal Ombro a Ombro, o almirante Roberto Gama e Silva joga luz para acabar com a conveniente confusão entre a Amazônia, coberta por florestas tropicais, com cerca de 4 milhões de km², e a Amazônia Legal, com 1 milhão de km² a mais e engloba desde áreas de cerrado até transição para a caatinga, caso do Maranhão. A Amazônia – pela definição, digamos, botânica – conserva cerca de 90% de sua área intacta. As denúncias de queimadas e devastação das florestas, na realidade, se referem à Amazônia Legal, ampliada para distribuir benefícios fiscais a estados que ficariam de fora. Assim acontece com a expansão da área plantada de soja. Nas denúncias feitas pelas ONGs de plantão, parece que a soja está ocupando espaço da floresta tropical, quando, na verdade, ocupa área de cerrado.

Conselheiro Acácio
Considerado um dos oráculos do mercado financeiro, o ex-ministro Maílson da Nóbrega, também conhecido como Mister Inflação (84% em março/90) nos círculos menos ortodoxos, se esforça para mostrar também ser leitor de Machado de Assis. Veja como ele respondeu, em coletiva on line no Seminário Internacional de Economia, a uma pergunta sobre como avaliava “as restrições mercadológicas aos produtos alimentícios por parte dos Estados Unidos”: “Na verdade, as restrições refletem defesas protecionistas contra a maior competitividade dos produtos brasileiros. E são turbinadas pela força política do lobby agrícola americano.” Mais profundo, impossível.

Meirelles & Greenspan
O conselho é de um economista brasileiro radicado nos Estados Unidos aos seus confrades daqui: leiam as atas do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e as comparem com as do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC do Brasil. Enquanto o segundo se restringe ao controle da inflação, o primeiro prioriza a busca do que chama de “situação de emprego ideal”, o que aqui poderia ser traduzido por pleno emprego. Resultado: o BC de Henrique Meirelles mantém um dos maiores juros reais do mundo, mesmo com o Brasil em recessão, enquanto o Fed, de Alan Greenspan, sustenta a mais baixa taxa em seu país nos últimos 40 anos, fazendo sua parte para tirar a economia norte-americana da recessão em que entrou em março de 2001.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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