Quem for jogar xadrez e, para decidir uma jogada, só conseguir visualizar os três próximos movimentos no tabuleiro é um jogador medíocre. Causa espécie ver técnicos brilhantes do setor elétrico discutindo sobre o término da construção de Angra 3 com dados parciais, sem definição dos critérios de julgamento das opções e sem análises abrangentes.
Como toda fonte geradora de eletricidade tem seus prós e contras, é sempre possível fazer um artigo favorável a qualquer opção tecnológica. O Brasil carece de um projeto nacional planejado e debatido com a sociedade que mostraria os projetos de interesse para o país. Nos dias atuais, não há mais planejamento, pois o mercado é quem tudo decide. Em vista dessa carência, fica fácil para os grupos de interesses elegerem qualquer opção apregoando sua excelência.
O que está sendo decidido é o suprimento de energia elétrica ao acréscimo da demanda do país em um prazo de, no mínimo, 15 anos, pois nesse setor, como muitas das alternativas têm longos prazos de maturação dos projetos, os horizontes de planejamento devem ser maiores ou iguais a este. Os impactos acarretados em todo período devem ser considerados ao se julgar as alternativas.
Os possíveis critérios de julgamento das opções de suprimento da demanda são: garantir a energia ao mercado a preços mínimos, permitir a universalização do consumo de eletricidade, contribuir para geração de empregos, minimizar o impacto ao meio ambiente, priorizar a geração a partir de fontes renováveis e de não renováveis abundantes, utilizar também fontes na fronteira da tecnologia, visando dotar o país de opções para o futuro, maximizar as compras locais e proteger os interesses do consumidor de energia elétrica.
A análise das possíveis opções tecnológicas de geração através destes critérios de julgamento não é tarefa fácil. As três opções com possibilidade de geração de grandes blocos de energia nos próximos 20 anos – a saber: a hidráulica, a nuclear e a térmica a gás natural – têm diferenças substanciais quanto ao prazo de construção das unidades, custo da energia gerada, expectativa de preço do combustível, disponibilidade de financiamento, tamanho das unidades, fluxo dos investimentos, possibilidade de compras no país e impactos ambientais e sociais. Neste planejamento proposto, Angra 3 não se posiciona mal.
As térmicas a óleo combustível e a óleo diesel não foram levadas em conta porque, com a perspectiva de escassez de petróleo, existem fins mais nobres para os derivados. Também, não se pode contar com as térmicas a carvão para a geração de grandes blocos de energia devido aos problemas ambientais que elas causam.
Existe o fato de a Marinha estar desenvolvendo um reator nuclear de pequeno porte para a propulsão do submarino nuclear nacional que poderia ser expandido até 300 MW e utilizado no suprimento elétrico. Mas, o desenvolvimento do reator de 300 MW não poderá estar concluído antes de 2010, significando que ele não compete com Angra 3.
A verba para o desenvolvimento do reator de pequeno porte da Marinha é prioritária, levando-se em conta a importância do projeto do submarino nuclear para a defesa nacional. Da mesma forma, a hidrelétrica de Belo Monte e a usina de Angra 3 não competem entre si, como querem nos fazer crer. Os investimentos de ambas unidades competem com o pagamento extorsivo dos juros da dívida brasileira. As suas energias são necessárias para o desenvolvimento nacional.
Apesar de toda apologia do planejamento feita, existe um atalho de análise que poupa a discussão. Olhando com a visão de grande mestre, daqui a 20 anos, o preço do barril estará muito caro e as nossas reservas de petróleo e gás natural, se ainda existirem, serão bem limitadas, não podendo ser destinadas para a geração elétrica, pois existirão usos prioritários as demandando. No entanto, o Brasil estará em situação privilegiada, pois teremos três dádivas da natureza à disposição para a geração: o potencial hidráulico, as reservas de urânio e a biomassa.
As economias de países com abundância de recursos naturais geradores de eletricidade, desde que não possam ser usados diretamente para fornecimento de calor ou impulsionar meios de transporte, deverão se transformar em elétrica intensivas. Resta a nós preservarmos, até então, a tecnologia que permite extrair energia elétrica do urânio. Angra 3 representa esta ponte para o futuro. Não se pode destinar a sexta maior reserva do mundo de urânio, que pode passar a ser a terceira com algum esforço de prospecção, para a exportação do minério in natura.
Paulo Metri
Ex-diretor das Indústrias Nucleares do Brasil.















