Ano novo, velhas apostas

Em 2017, mercado financeiro errou por 100%; em 2018, deve elevar margem de erro para 155%.

Falar que o brasileiro não tem memória é lugar-comum. Mais correto seria dizer que uma parte dos brasileiros tem memória seletiva. Relembrar os últimos três anos, em que as equipes econômicas fundamentalistas foram obrigadas a recorrer a um tipo envergonhado de keynesianismo para não ver o PIB naufragar, é importante para analisar melhor o momento da economia.

Em 2017, o Governo Temer liberou R$ 44 bilhões em saques do FGTS. O dinheiro foi liberado entre 10 de março e 14 de julho (o prazo acabou estendido até o fim do ano). O PIB, que vinha do fundo do poço no segundo semestre de 2016, mostrou alguma vida (outros fatores colaboraram, a começar pelo fim do processo do impeachment).

O fato é que o PIB crescia 0,4% no primeiro trimestre de 2017 (variação trimestral em relação ao mesmo período do ano anterior), passou para 0,9% no segundo trimestre, 1,6% no terceiro e 2,4% no quarto. Começou 2018, e a curva embicou para baixo: 1,5% e 1,1% nos dois primeiros trimestres. Em 18 de junho, começa o saque de R$ 39 bilhões em recursos do PIS, que vai até 28 de setembro. Leve melhorada do PIB, para 1,5% no terceiro trimestre e 1,2% no último de 2018. Vem 2019 e o tombo na virada de governo: alta de apenas 0,6% no primeiro trimestre, seguido pelo “novo normal”: variações na faixa de 1% (1,1% e 1,2% no segundo e no terceiro trimestres, respectivamente).

Os números parecem indicar fôlego curto para as políticas de liberação de dinheiro de fundos para o consumo. Mas são suficientes para turbinar as otimistas previsões do mercado financeiro. No Boletim Focus, do Banco Central, da última semana de dezembro de 2017, os analistas de mercado cravaram 2,7% na aposta para o PIB de 2018 (erraram por mais de 100%: deu 1,3%). Na mesma semana de 2018, marcaram 2,55% como expectativa para 2019 (deve ficar na casa de 1%, ou 155% de erro). Para conseguir a trinca, sapecam 2,24% na previsão para 2020.

Há fatores que permitem certo otimismo para o ano que vem, e o principal é a queda momentânea de juros. Porém, a redução só chega ao consumidor final nos empréstimos imobiliários. As demais linhas de crédito para pessoas físicas e jurídicas continuam distante da capacidade de pagamento de qualquer um. A construção civil é uma indústria que rapidamente responde à demanda e gera empregos, mas, ainda que com taxa de juros baixas, quem vai comprar se não tem renda? Há os interessados em investir, estimulados pela queda nos rendimentos dos investimentos financeiros, mas o retorno (aluguéis) está historicamente baixo. E há a concorrência dos fundos imobiliários, mais simples, com mais liquidez e com isenção de Imposto de Renda.

O fato é que a economia continua amarrada, e o recurso a expedientes heterodoxos não confere o fôlego necessário. Com o agravante de que a crise internacional parece amadurecer a cada instante.

 

Clima

A Petrobras, que enviou cerca de 2 mil cartas se desculpando com empregados que participaram de procedimentos investigatórios internos desde 2015, nos quais não foram constatadas irregularidades, corre o risco de sofrer processos trabalhistas, com pedido de danos morais.

O presidente da estatal, Roberto Castello Branco, reconheceu que muitos empregados sofreram discriminação por conta da atuação corrupta de uma minoria, mas acredita que está superada a crise moral. O estrago na unidade interna da empresa, porém, está longe de ser superado.

O clima ruim pode ser notado em atitudes simples. No estacionamento do prédio da estatal, no Centro do Rio, funcionários foram deslocados para fiscalizar e advertir empregados que estacionam os carros fora das faixas delimitadoras. Quem sabe o próximo passo não será um fiscal de banheiro?

 

Em casa

Na caça aos incentivos fiscais, o Ministério da Economia vai mirar nos benefícios oferecidos às locadoras de automóveis, que compram carros diretamente das montadoras com desconto nos impostos? Ou será que o fato de Salim Mattar, secretário de Desestatização do Ministério, ser dono da Localiza influenciará a ação?

 

Rápidas

Nesta quinta-feira, a 13º edição da Feira Rio Artes Manuais, realizada pelas lojas Caçula, recebeu o prêmio “Envolvimento e Desenvolvimento Comunitário”, na categoria Empresas de Grande Porte, do Prêmio Visão Consciente, da Fecomercio RJ *** O Passeio Shopping apresenta dia 20 espetáculo natalino com a Banda MadeirAffina, às 14h.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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