António Guterres: ‘Pilhamos descuidadamente os recursos da Terra’

A cada R$ 1 investido em redução de CO2, retornariam R$ 2.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu: “A redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) permitiria um ganho sobre os valores investidos neste objetivo correspondente a duas vezes o dispêndio realizado.”

Quer dizer, investe R$ 1; com o passar do tempo, retornam R$ 2.

Para emitir o relatório “Primeiro panorama global do progresso nas mudanças climáticas e a saúde”, divulgado na terça-feira, 3 de outubro, a OMS pesquisou em mais de 100 países listados no relatório da pesquisa “Saúde e Mudança Climática da Organização Mundial de Meteorologia”, de 2018, e concluiu que apenas a metade tem políticas para enfrentar problemas como hipertermia, ferimentos ou morte por exposição a temperaturas extremas, além de doenças como dengue, malária e cólera. A relação inclui o Brasil.

O lançamento foi realizado em Genebra (sede da OMS) e em Madri, onde ocorre a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a COP 25 (Conferência das partes da convenção sobre mudança climática/UNFCCC).

Conforme declaração da diretora do Departamento de Saúde Pública, Meio Ambiente e Determinantes Sociais da Saúde da OMS à ONU News, de Madri, “quando se atacam as causas do aquecimento global, também protege a saúde das pessoas, porque a cada ano, as mesmas causas responsáveis pela mudança climática, são também responsáveis pela poluição do ar”.

E a poluição do ar que estamos respirando está matando mais de 7 milhões de pessoas a cada ano. Os riscos mais comuns à saúde sensíveis ao clima foram identificados pelos países como estresse térmico, lesões ou morte provocadas por eventos climáticos extremos, alimentos, água e doenças transmitidas por vetores como cólera, dengue ou malária.

Pelo relatório, em 60% dos países pesquisados, as ameaças à saúde tiveram pouca ou nenhuma influência na alocação de recursos humanos e financeiros para atender às suas prioridades para proteção da saúde. Apenas 38% possuam finanças para implementar parcialmente seus planos e 10% direcionam recursos para implementar 100% deles.

De acordo com a OMS, o cumprimento das metas do Acordo de Paris poderia salvar cerca de um milhão de vidas por ano, até 2050, apenas através da redução da poluição.

O relatório diz também que os países têm dificuldades em acessar financiamento climático, como falta de informações (75%) e não saberem preparar propostas (50%).

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirmou que “a mudança climática não está apenas cobrando a conta para as gerações futuras, as pessoas já estão pagando agora com saúde”. Para ele, “é obrigação dos países terem recursos para agir contra as mudanças climáticas e preservar a saúde de agora e do futuro. O cumprimento das metas do Acordo de Paris poderia salvar cerca de um milhão de vidas por ano até 2050, apenas através da redução da poluição”.

Segundo a OMS, muitos países não conseguem se valer dessa possibilidade. A pesquisa mostra que só em um de cada quatro deles há dialogo entre a saúde e os principais setores responsáveis pelas mudanças climáticas e poluição do ar, como transporte, geração de eletricidade e energia doméstica.

A declaração provisória da Organização Meteorológica Mundial (ONU/OMM) sobre o relatório “O estado do clima global”, divulgado na mesma data, diz que a temperatura média global em 2019, no período de janeiro a outubro, manteve-se cerca de 1,1ºC acima do período pré-industrial.

Segundo a agência da ONU, Organização Meteorológica Mundial (OMM), o ano conclui uma década de calor global excepcional, recuo do gelo e níveis recordes do mar impulsionados por gases de efeito estufa derivados das atividades humanas.

A OMM aponta que os oceanos absorvem calor e dióxido de carbono e pagam preço muito alto por isso. O calor dos oceanos atingiu níveis recordes, e houve ondas de calor marinhas generalizadas. A água do mar está 26% mais ácida do que no período pré-industrial, e ecossistemas marinhos vitais estão sendo degradados.

O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, disse que se medidas urgentes não forem tomadas agora, a temperatura deve ter um aumento “de mais de 3°C até o final do século, com impactos cada vez mais prejudiciais ao bem-estar humano”. Ele acrescentou que o mundo não está “nem perto de cumprir as metas do Acordo de Paris”.

Taalas deu ênfase às ondas de calor e inundações severas, que costumavam ser eventuais e estão se tornando regulares. Ele lembrou que países que vão “das Bahamas ao Japão e Moçambique sofreram o efeito de ciclones tropicais devastadores” e que “incêndios florestais se alastraram pelo Ártico e a Austrália.”

O estudo indica que a atividade de ciclones tropicais em todo o mundo em 2019, por exemplo, ficou um pouco acima da média. O Hemisfério Norte, até o momento, teve 66 ciclones tropicais, em comparação com a média nessa época do ano de 56, embora a energia acumulada do ciclone só esteja 2% acima da média. A temporada de 2018-2019 no Hemisfério Sul também ficou acima da média, com 27 ciclones.

Na costa leste da África, o ciclone tropical Idai chegou a Moçambique em 15 de março como um dos mais fortes já registrados na região, resultando em muitas mortes e devastação generalizada. O Idai contribuiu para a destruição completa de cerca de 780 mil hectares de plantações no Malauí, Moçambique e Zimbábue, prejudicando ainda mais a situação precária de insegurança alimentar na região. O ciclone também deslocou 77.019 moçambicanos, além de 53.237 habitantes do Sul do Malauí e de 50.905 no Zimbábue.

O chefe da OMM alertou ainda que “um dos principais impactos das mudanças climáticas são os padrões de chuvas mais irregulares.” Taalas afirmou que “isso representa uma ameaça à produção agrícola e, combinado com o aumento da população, significará desafios consideráveis à segurança alimentar para as populações de países vulneráveis no futuro.”

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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