Aonde vamos parar?

A verdade, amigos, é que eu, você e todas as pessoas que conhecemos somos analógicos.

No livro O filtro invisível – o que a internet esconde de você, Eli Parisier explica que naquele ano (o livro foi lançado em 2003) as pessoas recebiam 900 mil postagens em blogs, 50 milhões de tuítes, 60 milhões de atualizações de status em Facebook e 210 bilhões de e-mails, e que se tivéssemos de armazenar todas as conversas humanas até aquele ano (2003) precisaríamos de 5 bilhões de gigabites. O mais aterrador, segundo o autor, é que em 2003 estávamos produzindo o mesmo número de dados a cada dois dias, o que mostra o volume de informações que circulam nas redes.

Outra revelação incômoda é que esses buscadores supostamente grátis como Google, Yahoo e o próprio Facebook capturam um pedacinho do usuário a cada clique que ele dá em algum produto ou serviço de seu interesse ocasional e enviam esses dados a algum supercomputador no Vale do Silício, que, em tempo real, negocia esse perfil por alguns centavos de dólar com milhões de empresas inscritas nesse gigantesco balcão virtual de negócios, interessadas em oferecer ao usuário que deu o clique o produto ou serviço que ele precisa ou que acessou só por curiosidade.

É por isso que, do nada, aparece na tela do seu computador um punhado de anúncios que você nem sabe como foram parar ali. É simples: cada clique que você deu em algo de que gostou ou acessou só por curiosidade deixou um pedacinho do que você é numa cópia sua no Vale do Silício e esse algoritmo de inteligência emocional vai construindo ali uma espécie de avatar com tudo o que você é, faz, gosta ou pensa.

O mundo do trabalho já está totalmente capturado por essa inteligência artificial. Recentemente, uma simples discussão foi parar no TST, a mais alta Corte trabalhista, porque um juiz do trabalho mandou fazer perícia no algoritmo do Uber para saber se há elementos para o reconhecimento da relação de emprego entre o motorista do aplicativo e a plataforma.

Essa questão de saber se o motorista do aplicativo Uber é ou não empregado da plataforma corre o mundo. Alguns países já reconhecem a relação de emprego. Em outros, como o Brasil, não há leis suficientes, e a discussão fica ao gosto de cada juiz. O algoritmo, segundo o advogado dos autores, revelaria os níveis de subordinação do motorista à plataforma, mas o TST suspendeu a decisão.

Ao mesmo tempo em que começa a pegar fogo nos tribunais, especialmente pelas mãos do ministro Luiz Fux, a discussão sobre o “processo 100% digital”, que decretaria o fim da papelada e o fim de todos os atos presenciais, até mesmo o da citação por oficial de justiça, aumenta a discussão sobre as provas digitais, o modo de colhê-las, preservá-las, armazená-las e utilizá-las nos processos. Ainda há um longo caminho a trilhar, mas é melhor começar agora.

As empresas já estão começando a utilizar o sistema de geolocalização, um aplicativo que permite saber onde exatamente o empregado está a qualquer momento. Isso é muito útil no controle da jornada de trabalho, especialmente se o empregado trabalha em home office ou nos casos de trabalhadores externos como vendedores, motoristas de entrega, profissionais de marketing, eventos, escolta, transporte de valores, técnicos de instalação, plataformas de prospecção de petróleo, logística de rotas para evitar lugares perigosos, estradas acidentadas, altura de pontes e viadutos etc. Em 2018, o IBGE disse que cerca de 3,8 milhões de pessoas trabalhavam em home office. Imagina-se que com a pandemia esse número obviamente se multiplicou, e as empresas precisam saber como seus empregados gastam o tempo pago.

Segundo o IBGE, a expectativa de vida do homem brasileiro é de 76,3 anos. Se esses dados estiverem certos, um homem de 20 anos que ingressar hoje no mercado de trabalho terá, em tese, pelo menos mais 56,3 anos de vida pela frente. Convertidos em horas, esses 56,3 anos que o nosso trabalhador terá pela frente assim que encontrar o primeiro emprego representam 486.432 horas de vida útil. Suponha-se que ele nunca fique desempregado até que advenha a aposentação e que trabalhe 8 horas por dia, de segunda a sexta-feira, sem faltar um dia ao serviço e sem tirar férias. Até atingir 55 anos, quando poderá se aposentar depois de 35 anos de serviço, terá trabalhado 87.360 horas. Ou seja: das 486.432 horas de sua vida útil a partir dos 20 anos, quando ingressou no mercado de trabalho, trabalhou apenas 17,95% delas (87.360) até aposentar-se. As outras 399.072 horas (82,05%) terá usado em qualquer outra coisa, mas não com trabalho.

As empresas estão muito interessadas em saber o que os seus empregados fazem durante essas 87.360 pagas. Algumas já disponibilizam celulares corporativos que, conectados ao bluetooth, além de informar onde os empregados estão e o que estão fazendo, avisam o empregado e a própria empresa se o trabalhador está respeitando o distanciamento social mínimo entre um colega e outro. O problema começa quando o empregado deixa a empresa, pois, se não tiver o cuidado de desligar o aparelho, ou o deixar ligado de má-fé, o aplicativo continuará recolhendo seus dados pessoais, muitos deles sensíveis segundo a LGPD. As empresas poderão enfrentar problemas e as multas são milionárias.

Há notícias de que outras empresas estão utilizando pulseiras eletrônicas que medem a temperatura corporal do empregado e o número de batimentos cardíacos. Já se sabe que temperatura corporal, raio de dilatação da íris e número de batimentos cardíacos aumentam com sensações de prazer, e por meio desse sistema será possível saber quanto empo o empregado passou realmente trabalhando ou usando o e-mail da empresa para fins particulares, vendo fotos, jogando ou acessando tik-toks ou stories de colegas e celebridades.

Não duvido nada se amanhã ou depois nos implantarem um microchip debaixo da unha que nos tornará imune ao sono, à fadiga, à fome, à poluição e ao estresse. A verdade, amigos, é que eu, você e todas as pessoas que conhecemos somos analógicos. Mas o mundo virou digital, e ninguém teve a gentileza de nos avisar.

Mônica Gusmão
Professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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