Apenas uma porta de vidro

‘A desigualdade é uma escolha – é o resultado cumulativo de políticas injustas e prioridades mal direcionadas’, mostra Stiglitz.

Eram 16h numa terça-feira e, no Hospital São Paulo, localizado no bairro Vila Mariana, na capital paulista, a fila do pronto-socorro acumulava cada vez mais pessoas à procura de atendimento. O cheiro de doença e sujeira nos corredores era forte. Idosos em macas tomando soro e acompanhantes em pé ao lado. “Só de esperar fico mais doente”, reclamava um senhor que chegou com a pressão nos céus.

Na enfermaria, uma senhora, feliz por conseguir escutar uma música romântica baixa enquanto atendia, tentava acalmar os pacientes e dar o melhor acolhimento possível. “Hoje até que está calmo, mas ainda não consegui ir ao banheiro. Tem água? Estamos sem”, contava com um olhar triste, compensado por um leve sorriso no rosto, enquanto espremia o filtro para tirar algumas poucas gotas de água para dar a um paciente que precisava tomar uns comprimidos.

A poucos metros, do outro lado da porta de vidro, estava o sonho de todos os pacientes atendidos pelo SUS. Atrás do segurança, via-se um hospital totalmente diferente. Lá não havia fila ou gente no corredor. Era limpo, com água potável, banheiros decentes e aparelhado para atender àqueles que podiam arcar com as custas ou com a mensalidade do plano de saúde.

A porta de vidro existe, mas não choca. Apenas ilustra a desigualdade no Brasil, que já estamos tão acostumados a ver nas ruas desde os centros a periferias das grandes cidades. O problema, entretanto, tem aumentado nos últimos anos. E o número de pessoas que sonha em atravessar a porta de vidro só cresce.

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais, um quarto da população brasileira, ou 52,5 milhões de pessoas, ainda vive com menos de R$ 420 per capita por mês. O Brasil tem se tornado um país repleto de miseráveis. Para ser mais exato, 13,5 milhões dele, número recorde, segundo o IBGE. Desde o início da crise econômica, o número de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza só cresceu. Mais de 4,5 milhões passaram a receber renda mensal inferior a R$ 145.

O IBGE estima que a diferença de renda da classe A para a classe D/E é de 21,4 vezes. O 1% mais rico da população detém quase um quarto da renda total. E, de acordo com os dados do instituto, o abismo piorou nestes anos de crise. Entre 2012 e 2014, o grupo dos 40% com menores ganhos apresentou aumento mais expressivo do rendimento médio domiciliar per capita, passando de R$ 329 para R$ 370. A partir de 2015, o rendimento médio deste grupo caiu para R$ 339. Já o grupo dos 10% com maiores rendimentos sofreu uma modesta redução do valor médio entre 2012 e 2015 (de R$ 5.408 para R$ 5.373), mas passou a subir nos anos seguintes, resultando, ao final de 2018, em uma média de R$ 5.764, o maior valor da série.

Se a crise econômica responde por parte do agravamento da desigualdade social, é o Estado o principal responsável pelo problema que ainda deve se agravar. A política de austeridade ainda manterá o desemprego elevado e sufocará a economia hoje e amanhã. Como diz Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, “a desigualdade é uma escolha – é o resultado cumulativo de políticas injustas e prioridades mal direcionadas”.

Crescimento e distribuição de renda não devem ser vistos como algo paradoxal. Pelo contrário, a desigualdade prejudica o crescimento econômico sustentável, pois prejudica que o capital humano seja usado de forma eficiente. “Quando a desigualdade é grande, sobretudo em termos de oportunidades, isso significa que as camadas mais baixas estão ficando abaixo do potencial. Não têm uma educação adequada. Na realidade, ocorre um mau uso, um subaproveitamento do recurso mais importante: o humano”, defende Stiglitz.

Ana Borges
Colunista.

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