Aqui, na terra, a coisa está preta

Por Paulo Alonso.

Que a coisa receba cores mais vivas e mais alegres

 

Nada mais atual do que a letra da música Meu caro amigo, gravada, em 1976, pelo cantor e compositor Chico Buarque, que acaba de festejar 76 anos de idade. Essa carta que ele, de forma criativa, cantou, de autoria do amigo Francis Hime, traduz a realidade sombria, tenebrosa e até mesmo desesperançosa fase pela qual passa o povo brasileiro. Esse mesmo povo que se encontra dividido entre dois candidatos que disputam a cadeira presidencial e que polarizam essa eleição, que promete ser uma das mais difíceis das últimas décadas.

O atual mandatário do país tem se mostrado absolutamente insensível no que se refere a causas das mais valiosas, como educação, saúde, cultura e meio ambiente, sem deixar de mencionar, e por oportuno, a fragilidade em que vive a economia, com índices alarmantes de desemprego; com falta de comida à mesa do trabalhar; com a insegurança desenfreada nas ruas e avenidas; e com uma política de governo ineficiente e ineficaz, com desrespeito ao Poder Judiciário, ao Estado Democrático de Direito e, em consequência, ao próprio Brasil.

O outro, que já ocupou o Palácio do Planalto por oito anos, não apresenta nenhum discurso novo, nenhuma proposta nova, tendo sido condenado por corrupção e outros crimes, no bojo da Operação Lava Jato, permanecendo preso por um grande período, mas que acabou sendo libertado, contrariando todas as condenações que sofrera em primeira e segunda instâncias, tempos depois, pela Corte Suprema.

Outros candidatos estão concorrendo ao cobiçado cargo de presidente da República, mas suas chances são remotas, a não ser que haja outro megaescândalo, que possa retirar os dois que polarizam essa disputa do páreo ou um deles, quem sabe. Ambos estão marcados e envolvidos por escândalos dos mais variados e, mesmo assim, o povo está dividindo entre o ex e o atual presidente do Brasil. Talvez por falta de opção, talvez por que não se queira tentar uma terceira via, talvez por que existe uma miopia do eleitor…

Todos os dias, o noticiário veicula extensas matérias que denunciam atos arbitrários, de influência do presidente em assuntos internos da Polícia Federal; de gravações que evidenciam essas mesmas posturas aéticas e sem precedentes na História do país. Mesmo assim, ele ainda consegue se equilibrar, ainda que a corda esteja bamba, conforme as últimas pesquisas indicam.

Os ataques e insultos, de parte a parte, são constantes entre ambos e ainda nem sequer se está oficialmente no período eleitoral. De qualquer forma, já se pode perceber o quão baixo nível será essa campanha, com fake news, queira ou não queira o STF, sobretudo no uso e na manipulação das redes sociais.

E assim os meses e os anos vão se passando, sem que o Brasil saia do lugar. Vive-se um período de marasmo, de enfrentamento, de violência, de ódio, de intolerância e de cisões, de preconceitos. O Brasil está acorrentado às práticas do passado e que foram, por tantas vezes, tão combatidas. A novela da urna eletrônica e sua eficácia, trinta anos depois de instituída, é insuportável e se tornou uma novela mexicana, com capítulos dos mais chatos, no discurso do presidente e de seus asseclas, ainda que seu grau de confiabilidade seja comprovado.

Ler os jornais, assistir a um programa jornalístico ou sintonizar em uma rádio não traduzem mais prazer algum, uma vez que os temas são os mesmos, os personagens são praticamente os mesmos e a situação de mazela do Brasil é a mesma, em preto e branco. Há uma necessidade de se evoluir, de se colocar na arena política novos nomes, novas opções e que tenham possibilidades de promover ações efetivas em prol do Brasil dos brasileiros, dos que querem ver esse país, com Ordem e Progresso, em franco desenvolvimento, e não caminhando igual a uma tartaruga. Daí a importância da escolha, em outubro, de cidadãos e de cidadãs, que ocuparão os cargos de deputados estaduais, federais, senadores, governadores e de presidente da República.

O destino do Brasil só depende da vontade do eleitor em digitar nas urnas os números dos candidatos que possam contribuir para a sustentabilidade da democracia, ora ameaçada; que possam brigar, com ética e dignidade, pelos interesses maiores do Brasil; que possam trabalhar pela necessária reconstrução desse país continental e que se encontra totalmente à mercê de políticos desqualificados e que não agem em prol do país, mas sim e apenas advogando seus interesses próprios e escusos.

O Congresso Nacional, em que pese exceções respeitosas, está tomado por pessoas desqualificadas, assim como as Assembleias Legislativas, com parlamentares que não conseguem muitas vezes traduzir em palavras o que realmente pensam. Uma vergonha.

E nada mais atualíssimo do que se perceber na bela canção do Chico Buarque, os recados que ele, inspirado, mandava, ainda na década de 70, a um amigo:

 

Meu caro amigo, me perdoe, por favor

Se eu não lhe faço uma visita

Mas como agora apareceu um portador

Mando notícias nessa fita

 

Aqui na terra, tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

Muita mutreta pra levar a situação

Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça

Que a gente vai tomando e também sem a cachaça

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar

Nem atiçar suas saudades

Mas acontece que não posso me furtar

A lhe contar as novidades

 

Aqui na terra, tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

É pirueta pra cavar o ganha-pão

Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro

Que a gente vai fumando e também sem um cigarro

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo, eu quis até telefonar

Mas a tarifa não tem graça

Eu ando aflito pra fazer você ficar

A par de tudo que se passa

 

Aqui na terra, tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

Muita careta pra engolir a transação

E a gente tá engolindo cada sapo no caminho

E a gente vai se amando que também sem um carinho

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever

Mas o correio andou arisco

Se me permitem, vou tentar lhe remeter

Notícias frescas nesse disco

 

Aqui na terra, tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

 

A Marieta manda um beijo para os seus

Um beijo na família, na Cecília e nas crianças

O Francis aproveita pra também mandar lembranças

A todo o pessoal, adeus.

 

Bom que aqui, na terra, o samba, o futebol e o rock’n’roll continuem, mas ao lado de um cenário progressista, realizador e que a coisa, que anda para lá de preta, receba cores mais vivas e mais alegres, para a felicidade geral da nação. E que boas notícias possam ser veiculadas, como, por exemplo, mais escolas, mais cultura, atenção ao meio ambiente e à Amazônia, com a taxa do desemprego caindo, com comida na mesa do trabalhador e com os preços dos combustíveis estáveis.

 

Paulo Alonso é jornalista.

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