Arte, vida e desafios

Por Ranulfo Vidigal.

Estado sustenta a iniquidade do giro da dívida pública

 

Amante da sétima arte, sempre que possível, relaciono os aspectos da vida cotidiana com boas películas disponíveis. Desta feita comento, por exemplo, o filme Antropoceno, que mostra em diversas regiões do planeta a devastação ambiental causada pelo extrativismo de alta intensidade. Do lítio no deserto de Atacama, no Chile, passando pela exploração da madeira no Senegal ou nas florestas úmidas no Canadá, ou a exploração a céu aberto de carvão na Alemanha industrializada. O acelerado ritmo de exploração de recursos naturais deve servir de alerta para o fenômeno que ocorre por aqui na rica Amazônia.

Outra característica do capitalismo 4.0 é o ilusionismo oriundo da alta competição por resultados nas Bolsas de Valores ao redor do planeta. Isso é muito bem focado pela minissérie WeCrashed, que retrata a vida empresarial da firma de aluguel de espaços imobiliários WeWork e sua saga para abrir seu capital (IPO), mediante a presença do japonês Soft Bank (oriundo de dinheiro árabe do excedente do petróleo) em sua estrutura de financiamento.

A variável-chave do empreendimento é a de sempre, sensibilizar jovens ambiciosos a trabalhar a preço vil em tempo integral para valorizar uma marca e um estilo de vida. Especulação e predação são a tônica do capitalismo neste início de século 21.

É nesse contexto que devemos entender o tempo presente no Brasil, uma Nação de capitalismo hipertardio e incapaz de incorporar toda a população no acesso ao progresso genuíno e no bem-estar com qualidade de vida. Ou seja, um país que constituiu um capitalismo sem passar por uma revolução burguesa, como foi o caso de Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Alemanha.

Nesses, ao contrário do Brasil, os interesses das classes subalternas são levados em consideração no processo político e econômico. Nós transitamos do capitalismo colonial baseado no latifúndio e no trabalho escravo para uma industrialização mediante fortes resistências políticas, ao longo do processo iniciado na década de 1930, mas ainda marcado pelo caráter conservador da elite agrária.

A saída foi a conciliação pelo alto, entre o dinheiro do café e a industrialização hipertardia voltada para a agroexportação. Nesse quadro, as tarefas econômicas e políticas postas em prática em outros países deixaram de existir na terra da desigualdade e do privilégio. As classes dominantes por aqui deixaram de cumprir suas tarefas históricas, quando comparamos com o corrido na Europa, por exemplo.

Temos então uma industrialização incompleta e uma burguesia associada aos grandes blocos internacionais que monopolizam a produção e intermediação dos bens e serviços de maior valor no planeta. No Brasil não há uma integração virtuosa das classes sociais, mas uma luta de todos contra todos, uma superexploração da força de trabalho, um rentismo ancorado nos recursos da dívida pública e no fundo público, muita precarização e baixo dinamismo.

As formas de dominação oscilam entre a autocracia que libera a política nos tempos de paz e bonança financeira internacional e o bonapartismo como dominação ditatorial, quando a crise se agudiza e o risco de “entornar o caldo” se apresenta para a elite dominante.

Nesta sociedade, historicamente, o papel do Estado foi crucial na criação da indústria de base, mas hoje é quem sustenta a iniquidade do giro da dívida pública mediante um orçamento público contido para o social e amplo para subsidiar e gerar ganhos para o capital. Por trás do jogo eleitoral de 2022 estão todas estas lutas, daí que…

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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