Articulação do Tesouro e do BC para dar dinheiro aos bancos

Por José Carlos de Assis.

Opinião / 17:38 - 28 de set de 2020

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O Banco Central está possibilitando que os bancos privados ganhem quase 9% do Tesouro em operações ditas compromissadas, o que é um acinte em tempos de epidemia. Sem fazer absolutamente nada a não ser participar de uma jogatina no mercado financeiro, estão ganhando até 8,88% nos contratos mais longos, entupindo-se de dinheiro na base de enriquecimento sem causa.

A “culpa”, segundo o Banco Central, é do “mercado”, que não aceita taxas mais baixas, mesmo que sejam mais de quatro vezes a taxa básica da Selic. Pois bem, porque nosso Banco Central não faz igual ao norte-americano, que em circunstâncias análogas simplesmente inundaria o mercado de dinheiro, a partir de simples emissão, para forçar a baixa das taxas no mercado pela sagrada lei da oferta e da procura? Acontece que isso não agradaria aos bancos.

Para eles, o importante é um mercado sem liquidez, a fim de forçar para cima a taxa de juros. Um banco central articulado com o Tesouro, numa situação sem risco de inflação a médio prazo, como exatamente acontece nos Estados Unidos e também do Brasil em recessão, poderíamos reduzir drasticamente a taxa básica de juros. O problema é que somos papagaios de imitação dos norte-americanos em tudo, menos em política fiscal monetária.

Tudo isso é comandado por um Banco Central que, tecnicamente, seria dependente do governo, na medida em que, para o bem do povo, sua diretoria poderia ser demitida ad nutum em defesa de uma política monetária coerente. Imagine, agora, se fosse um banco central independente, como querem alguns oportunistas do mercado e políticos idiotas completamente ignorantes de como funciona a política fiscal-monetária?

 

P.S. O entendimento pormenorizado de política fiscal-monetária no Brasil está exposto no meu livro mais recente, O Mito sem Máscara, que aborda também a questão da dívida dos estados e municípios na estrutura fiscal do país. A esse respeito, verifiquei que, em lugar de ter dívida junto à União, estados e municípios têm um crédito junto ao Governo Federal de nada mais nada menos que 1 trilhão 380 bilhões de reais. Esse dinheiro, cujo pagamento poderá, oportunamente, ser autorizado pelo Congresso, representaria o resgate da Federação e a possibilidade de um New Deal brasileiro a partir dos estados e municípios, atacando com eficácia a pandemia e revertendo a depressão econômica.

José Carlos de Assis

Economista e jornalista.

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