As caras do governo…

Omitir a verdade é a cara do governo?

A propósito da realização do desidratado Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com a realização da primeira prova no sábado, 20 de novembro, as provas continuam no domingo, 28 de novembro. O Enem 2021 foi antecedido do escândalo da autoexoneração de 37 funcionários do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (Inep), motivados pela imposição de pressão psicológica e vigilância velada na formulação do Enem 2021, para deixarem de fora enunciados de provas e questões contrários aos interesses do governo. O presidente disse que “o Enem começa a ter a cara do governo”.

Cara do governo: qual delas?

 

Enem desidratado tem a ‘cara do governo?’

Inscreveram-se para o Enem 2021, em todo o Brasil, 3.109.762 candidatos, o menor número de inscritos observado desde 2005. Os cinco estados com os maiores números de inscritos foram São Paulo (com 450.219 inscritos; 22% dos quais ausentes no primeiro dia de provas); Minas Gerais (com 294.853450.219 inscritos; 25% dos quais ausentes no primeiro dia de provas); Bahia (com 237,052 inscritos; 26% dos quais ausentes no primeiro dia de provas); Rio de Janeiro (com 213.214 inscritos; 25% dos quais ausentes no primeiro dia de provas) e Ceará (com 206.185 inscritos; 29% dos quais ausentes no primeiro dia de provas).

Em comparação com o ano anterior, observa-se um branqueamento do certame, com redução na participação de pretos, pardos e indígenas. As taxas de ausência registram que a maior ausência proporcional ocorreu no Estado do Amazonas, tendo alcançado 41% de 77.578 inscritos.

Interferir indevidamente é a cara do governo?

 

Amazônia em chamas tem ‘a cara do governo?’

“Malandro demais se atrapalha”, diz o vulgo na República Independente de Del Castillo, subúrbio do Rio de Janeiro (RJ). Crente de que a imprensa internacional iria engolir qualquer informação, o governo segurou os dados do desmatamento assustador na Amazônia, o maior nos últimos 15 anos.

De agosto de 2020 a 27 de julho de 2021, foram desmatados 13.235 km², segundo números divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A alta corresponde a 22% e os dados já eram conhecidos em 27 de outubro, antes da COP 26, portanto. Só foram divulgados com a conferência encerrada, porém.

Relaxar as condições de operação dos órgãos de controle ambiental e deixar a floresta queimar é a cara do governo?

 

Esconder informações tem ‘a cara do governo?’

O governo brasileiro comprometeu-se a acabar com o desmatamento ilegal na Amazônia. Falta a ele credibilidade, porém. Isto se evidencia na imprensa internacional. Da Al Jazeera, rede de TV: “O maior desmatamento na Amazônia em 15 anos foi divulgado depois que o governo brasileiro se comprometeu, na COP26, a acabar com o desmatamento ilegal, até 2028. A alta de 22% no desmatamento mina as garantias do presidente Jair Bolsonaro de que o país está reduzindo a extração ilegal de madeira e também destaca que a área de floresta derrubada é quase 17 vezes o tamanho da cidade de Nova York” ao jornal The Washington Post (“O recorde em 15 anos voa na cara das recentes tentativas do governo Bolsonaro de reforçar a sua credibilidade ambiental”), passando pelo Le Monde, pelo The Guardian, pela BBC e mais veículos da maior credibilidade da imprensa internacional.

Omitir a verdade é a cara do governo?

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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