As ‘Dez Pragas da Pandemia’

Por último, a pior de todas elas: as lives.

Seu Direito / 17:08 - 29 de jun de 2020

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Está no Êxodo que Deus, enraivecido com o fato de que o Egito se perdia em cultos a vários deuses e aprisionava o povo hebreu, mandou sobre eles dez pragas. Ao fim de cada praga o faraó prometia a libertação, mas depois se arrependia e ordenava novo cativeiro. Após a décima praga, o faraó finalmente capitulou e libertou o povo hebreu da escravidão, e os hebreus puderam, assim, fugir pelo deserto em busca da Terra Prometida, Canaã. Mas, assim como das outras vezes, o faraó se arrependeu e ordenou que seus exércitos perseguissem os hebreus e os aprisionassem de novo. Foi então que Moisés abriu o Mar Vermelho para que seu povo passasse e, em seguida, fechou-o, afogando o faraó e seus homens.

Na primeira praga, Moisés transformou toda a água do Nilo em sangue e todos os peixes morreram. Era uma forma de humilhar o deus-Nilo, Hápi. Depois do banho de sangue, Arão, irmão de Moisés, estendeu a mão sobre o Egito e todos os lugares se encheram de rãs. Era um modo de humilhar o deus-rã, Heqt. Vieram, então, piolhos, como modo de humilhar o deus Tot. Depois dos piolhos, Deus fez o Egito encobrir-se de moscas, como forma de humilhar o deus Ptah. Em seguida, Ele decretou a morte de todos os animais como forma de humilhar o deus Ápis, a deusa-vaca Hator e a deusa-céu Nut. Depois da morte dos animais, o Todo Poderoso fez com que todos os egípcios se cobrissem de pústulas, como forma de humilhar a rainha-céu, Neite.

Insatisfeito, Deus despejou sobre os egípcios terrível chuva de granizo, como forma de humilhar a deusa-água, Íris, e o deus-fogo, Osíris. Passada a chuva de pedras, e como o faraó continuasse irredutível, Deus mandou sobre o Egito nuvens de gafanhotos, que devoraram o que sobrara das colheitas, como forma de humilhar o deus-ar, Xu, e o deus-inseto, Sebeque. Depois dos gafanhotos, Deus encobriu o Sol, e o Egito mergulhou em sombras, como forma de humilhar o deus-Sol, Rá. Por fim, o Senhor de Todas as Coisas mandou a morte ceifar a vida de todos os primogênitos, inclusive a do próprio filho do faraó, como forma de humilhar todos os governantes do Egito que se diziam filhos do deus-Sol Rá e se autodenominavam Rá, ou Amon-Rá.

Ok. Explicada a ira divina, falo agora das “Dez Pragas da Pandemia” coronavírus. Não venho, obviamente, falar das mortes das pessoas, pois para essas e suas famílias deito apenas o meu pesar e minhas sinceras orações.

Falo, primeiro, da paranoia. Tão logo a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que estávamos diante de uma pandemia, as pessoas, como loucas, começaram a invadir supermercados e a estocar alimentos como se Rússia e Estados Unidos tivessem declarado guerra e que até o fim do mês ambos explodiriam uma imensa bomba atômica iria deixar o mundo em frangalhos. Cada grão era importante, e mais da metade do que compraram apodreceu na geladeira. A bomba atômica não explodiu, e os donos dos supermercados ficaram um pouco mais ricos.

Em seguida, veio a gula. Sem nada de útil pra fazer, sem poder andar na praia com o cachorro e com os salões de beleza e as academias fechadas, as pessoas faziam cooper do sofá da sala até a geladeira e depois da geladeira até o sofá da sala. O resultado foi o empelancamento geral de homens e mulheres e quase todo mundo voltou ao estado primitivo da era paleolítica, rechonchudo, gutural e peludo. Depois, veio o exibicionismo. Com a obrigatoriedade do uso de máscaras, luvas e álcool em gel, as pessoas passaram a usar máscaras produzidas pela Dolce & Gabana, Balenciaga e Louis Vuiton, compradas a 50 o par. Quem não podia, improvisava a sua com sutiã velho ou pano de prato. O meio-termo era recorrer ao camelô da esquina que, para abrir a máscara e mostrar sua beleza ao freguês soprava o saquinho plástico e poupava o trabalho do vírus de viajar entre as pessoas e te contaminar. As máscaras by camelot já vinham infectadas de fábrica.

Depois, veio a ganância. As máscaras sumiram das farmácias, o álcool em gel sumiu das prateleiras dos supermercados. Quem tinha estoque subiu os preços em mais de 1.000%, e um joguinho de três máscaras que podia ser comprado a R$ 15 passou a custar R$ 250. Muita gente comprou e ainda se pegou no tapa pra disputar essa raridade. Depois do exibicionismo e da ganância veio o egoísmo. Os supermercados passaram a limitar a compra de álcool em gel, mas as famílias mandavam um parente de cada vez, e os caras compravam dúzias de litros de álcool, pouco se importando com a necessidade do outro, sem perceber que se você compra dez litros de álcool e não deixa nem ao menos um pra mim, você estará protegido, mas eu não, e eu vou infectar você mesmo com os seus dez litros de álcool e sua máscara importada e de grife.

No âmbito doméstico, a praga era a ira. Muitos casais descobriram que há muito já não se suportavam, que tinham vontade de esganar as crianças e que a convivência só se tornara possível porque todo mundo fica o dia inteiro na rua e só volta pra casa pra tomar banho, comer e dormir. O amor perdera-se nos desvãos da vida cotidiana. As estatísticas mostram que durante a pandemia a violência doméstica deu um salto terrível e constrangedor. Muitos desses casamentos não resistirão à Covid-19.

Para permitir a continuidade dos negócios e evitar dispensa em massa, as empresas inventaram o home office. Milhares de pessoas passaram a trabalhar em casa, arcando com os custos desse serviço, e aí mesmo é que a vida física foi pro beleléu. As pessoas em home office já não sabem mais se é dia ou se é noite, quantas horas de trabalho já cumpriu e quanto vai ganhar no fim do mês. Pior: muitas delas procuram fazer tudo isso para evitar que a empresa descubra que elas são simplesmente inúteis e desnecessárias e que o seu trabalho não tem nenhuma importância.

Outra praga nascida da Covid-19 são os falsos médicos, curandeiros e oportunistas de plantão. O sujeito, analfabeto funcional, vai para a televisão e sugere beber isso ou tomar aquilo, diz que tudo não passa de uma gripezinha, e a desinformação que traz faz a alegria dos agiotas e dos corruptos que vendem uma cloroquina aqui, um diazepan ali, uma cibalena acolá, e até despacho de encruzilhada andaram fazendo por “recomendação médica”. A nona praga que a Covid-19 trouxe foram as fake news. Todo dia você vê nas mídias dezenas de “informações seguras” e duas dezenas de outras informações desmentindo as primeiras. Você já não sabe mais em quem acreditar e então não acredita em ninguém. Aí, sai às ruas sem máscara, espirra sem botar o cotovelo na cara, contrai o coronavírus e morre.

Por último, a pior das pragas da pandemia: as lives. Coisa mais chata! Não sei quem foi o estrupício que teve a ideia de fazer essa porcaria, mas isso virou uma febre insuportável, desde pagodeiros a dupla sertaneja, humoristas, vigaristas, taxistas, sem-gracistas, alquimistas, cientistas. Teve até gente convidando pra live onde o sujeito iria explicar como lavar as mãos, como fazer álcool em gel de cachaça 51 com catuaba e origami com boletos de contas atrasadas e recibos de condomínio.

Bem. Fico por aqui. Em dez minutos tenho de começar minha live…

 

Mônica Gusmão é professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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