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quinta-feira, janeiro 21, 2021

As ‘Dez Pragas da Pandemia’

Está no Êxodo que Deus, enraivecido com o fato de que o Egito se perdia em cultos a vários deuses e aprisionava o povo hebreu, mandou sobre eles dez pragas. Ao fim de cada praga o faraó prometia a libertação, mas depois se arrependia e ordenava novo cativeiro. Após a décima praga, o faraó finalmente capitulou e libertou o povo hebreu da escravidão, e os hebreus puderam, assim, fugir pelo deserto em busca da Terra Prometida, Canaã. Mas, assim como das outras vezes, o faraó se arrependeu e ordenou que seus exércitos perseguissem os hebreus e os aprisionassem de novo. Foi então que Moisés abriu o Mar Vermelho para que seu povo passasse e, em seguida, fechou-o, afogando o faraó e seus homens.

Na primeira praga, Moisés transformou toda a água do Nilo em sangue e todos os peixes morreram. Era uma forma de humilhar o deus-Nilo, Hápi. Depois do banho de sangue, Arão, irmão de Moisés, estendeu a mão sobre o Egito e todos os lugares se encheram de rãs. Era um modo de humilhar o deus-rã, Heqt. Vieram, então, piolhos, como modo de humilhar o deus Tot. Depois dos piolhos, Deus fez o Egito encobrir-se de moscas, como forma de humilhar o deus Ptah. Em seguida, Ele decretou a morte de todos os animais como forma de humilhar o deus Ápis, a deusa-vaca Hator e a deusa-céu Nut. Depois da morte dos animais, o Todo Poderoso fez com que todos os egípcios se cobrissem de pústulas, como forma de humilhar a rainha-céu, Neite.

Insatisfeito, Deus despejou sobre os egípcios terrível chuva de granizo, como forma de humilhar a deusa-água, Íris, e o deus-fogo, Osíris. Passada a chuva de pedras, e como o faraó continuasse irredutível, Deus mandou sobre o Egito nuvens de gafanhotos, que devoraram o que sobrara das colheitas, como forma de humilhar o deus-ar, Xu, e o deus-inseto, Sebeque. Depois dos gafanhotos, Deus encobriu o Sol, e o Egito mergulhou em sombras, como forma de humilhar o deus-Sol, Rá. Por fim, o Senhor de Todas as Coisas mandou a morte ceifar a vida de todos os primogênitos, inclusive a do próprio filho do faraó, como forma de humilhar todos os governantes do Egito que se diziam filhos do deus-Sol Rá e se autodenominavam Rá, ou Amon-Rá.

Ok. Explicada a ira divina, falo agora das “Dez Pragas da Pandemia” coronavírus. Não venho, obviamente, falar das mortes das pessoas, pois para essas e suas famílias deito apenas o meu pesar e minhas sinceras orações.

Falo, primeiro, da paranoia. Tão logo a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que estávamos diante de uma pandemia, as pessoas, como loucas, começaram a invadir supermercados e a estocar alimentos como se Rússia e Estados Unidos tivessem declarado guerra e que até o fim do mês ambos explodiriam uma imensa bomba atômica iria deixar o mundo em frangalhos. Cada grão era importante, e mais da metade do que compraram apodreceu na geladeira. A bomba atômica não explodiu, e os donos dos supermercados ficaram um pouco mais ricos.

Em seguida, veio a gula. Sem nada de útil pra fazer, sem poder andar na praia com o cachorro e com os salões de beleza e as academias fechadas, as pessoas faziam cooper do sofá da sala até a geladeira e depois da geladeira até o sofá da sala. O resultado foi o empelancamento geral de homens e mulheres e quase todo mundo voltou ao estado primitivo da era paleolítica, rechonchudo, gutural e peludo. Depois, veio o exibicionismo. Com a obrigatoriedade do uso de máscaras, luvas e álcool em gel, as pessoas passaram a usar máscaras produzidas pela Dolce & Gabana, Balenciaga e Louis Vuiton, compradas a 50 o par. Quem não podia, improvisava a sua com sutiã velho ou pano de prato. O meio-termo era recorrer ao camelô da esquina que, para abrir a máscara e mostrar sua beleza ao freguês soprava o saquinho plástico e poupava o trabalho do vírus de viajar entre as pessoas e te contaminar. As máscaras by camelot já vinham infectadas de fábrica.

Depois, veio a ganância. As máscaras sumiram das farmácias, o álcool em gel sumiu das prateleiras dos supermercados. Quem tinha estoque subiu os preços em mais de 1.000%, e um joguinho de três máscaras que podia ser comprado a R$ 15 passou a custar R$ 250. Muita gente comprou e ainda se pegou no tapa pra disputar essa raridade. Depois do exibicionismo e da ganância veio o egoísmo. Os supermercados passaram a limitar a compra de álcool em gel, mas as famílias mandavam um parente de cada vez, e os caras compravam dúzias de litros de álcool, pouco se importando com a necessidade do outro, sem perceber que se você compra dez litros de álcool e não deixa nem ao menos um pra mim, você estará protegido, mas eu não, e eu vou infectar você mesmo com os seus dez litros de álcool e sua máscara importada e de grife.

No âmbito doméstico, a praga era a ira. Muitos casais descobriram que há muito já não se suportavam, que tinham vontade de esganar as crianças e que a convivência só se tornara possível porque todo mundo fica o dia inteiro na rua e só volta pra casa pra tomar banho, comer e dormir. O amor perdera-se nos desvãos da vida cotidiana. As estatísticas mostram que durante a pandemia a violência doméstica deu um salto terrível e constrangedor. Muitos desses casamentos não resistirão à Covid-19.

Para permitir a continuidade dos negócios e evitar dispensa em massa, as empresas inventaram o home office. Milhares de pessoas passaram a trabalhar em casa, arcando com os custos desse serviço, e aí mesmo é que a vida física foi pro beleléu. As pessoas em home office já não sabem mais se é dia ou se é noite, quantas horas de trabalho já cumpriu e quanto vai ganhar no fim do mês. Pior: muitas delas procuram fazer tudo isso para evitar que a empresa descubra que elas são simplesmente inúteis e desnecessárias e que o seu trabalho não tem nenhuma importância.

Outra praga nascida da Covid-19 são os falsos médicos, curandeiros e oportunistas de plantão. O sujeito, analfabeto funcional, vai para a televisão e sugere beber isso ou tomar aquilo, diz que tudo não passa de uma gripezinha, e a desinformação que traz faz a alegria dos agiotas e dos corruptos que vendem uma cloroquina aqui, um diazepan ali, uma cibalena acolá, e até despacho de encruzilhada andaram fazendo por “recomendação médica”. A nona praga que a Covid-19 trouxe foram as fake news. Todo dia você vê nas mídias dezenas de “informações seguras” e duas dezenas de outras informações desmentindo as primeiras. Você já não sabe mais em quem acreditar e então não acredita em ninguém. Aí, sai às ruas sem máscara, espirra sem botar o cotovelo na cara, contrai o coronavírus e morre.

Por último, a pior das pragas da pandemia: as lives. Coisa mais chata! Não sei quem foi o estrupício que teve a ideia de fazer essa porcaria, mas isso virou uma febre insuportável, desde pagodeiros a dupla sertaneja, humoristas, vigaristas, taxistas, sem-gracistas, alquimistas, cientistas. Teve até gente convidando pra live onde o sujeito iria explicar como lavar as mãos, como fazer álcool em gel de cachaça 51 com catuaba e origami com boletos de contas atrasadas e recibos de condomínio.

Bem. Fico por aqui. Em dez minutos tenho de começar minha live…

 

Mônica Gusmão é professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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1 COMENTÁRIO

  1. Olá Drª Mônica… Boa noite. Li o seu texto, onde denota-se haver certo conhecimento, contudo, sem o total conhecimento; até porque este não nos completará nesta vida jamais por sermos limitados e falhos. Tenho visto nas mídias o mesmo componente da vida real humana, que é a diversidade comum à todos e inerente ao ser humano, que descrendo ou crendo por fé em um deus se pronuncia no abismo das vozes que explodem em textos radicais ou quase, onde não se emite pensamentos ao debate porque raros são os que desejam isso, pois que apenas vociferam bagagens insanas ou deturpadas em suas meias verdades envolta por conectivos à formação de um banco de seguidores! Por que?! Para que?! Qual o sentido de buscar cultivar milhares de seguidores que serão esquecidos? No melhor planejamento humano, em sintonia com Deus, houvera o conselho de Reuel à Moisés sobre os maiorais às lideranças… Ora, então por que insistir em contabilizar massas silenciosas sem as conduzir para alguma utilidade? Percebo uma repetição de pensamentos contraditórios e que parecem não se ouvir de verdade. Não tenho como intervir na fé em deus dos outros, mas tenho como expor sobre a fé que tenho no meu Deus, onde o que aprendo é preciso praticar pela postura, palavras e ações. Daí, o meu Deus me corrige quando penso melhor antes de falar, agir ou escrever, simplesmente perguntando se Jesus faria, falaria ou escreveria tal coisa… Porque o Deus que eu creio não vai me imitar, mas ao contrário eu é que imito a Jesus. Sendo assim, continuando, o meu Deus não julga o próximo em suas palavras, atos e escritas… Porque observar é meu limite contra julgamentos e assim não arrisco desobedecer ou querer usurpar a competência do único Justo Juiz. Ainda bem que todos somos abundantes em diversidade, porque somente assim conseguimos ser imunes ao vírus da cegueira intelectual… Jesus mesmo falou que seu povo padece por falta de conhecimento e em outra feita disse que falava em parábolas para que no meio de todos os ouvintes, pelo menos alguns entendessem pela vivência que tinham em semelhança com as parábolas. Finalmente, Drª Mônica, sigo o Deus de minha fé rompendo o mundo pelas obras… Assim, desse jeito, consegui aprender ao andar com Deus em 48 horas experimentando respostas às perguntas que fiz, seja pela cura, palavra, profecia, visão, amor, compaixão, zelo e tudo que compõe os caminhos perfeitos escolhidos pelo Senhor e os caminhos difíceis escolhidos pelo homem. Que Deus continue a nos abençoar com ensinamentos de amor ao próximo, experimentando imitar Jesus e usando bem os talentos para a boa obra. Tenha uma celebração responsável e amável na transição ao próximo ano! Que venha 2021 com a profilaxia que mais de 10.000 médicos testificam por todo o Brasil, acessível sob anamnese e diagnóstico para receita e tratamento.

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