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segunda-feira, janeiro 18, 2021

As invasões bárbaras no Capitólio

No dia 6 de janeiro (quarta-feira), durante sessão no Senado na qual a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais seria ratificada, o ano de 2021 foi oficialmente inaugurado quando uma multidão de apoiadores de Donald Trump – que acabavam de sair de um comício na capital que contou com a participação do presidente e outras figuras do Partido Republicano – invadiu o prédio do Capitólio, a sede do Congresso dos EUA.

As cenas a que o mundo assistiu estupefato continham:

1) uma massa histriônica (parcialmente armada) invadindo e vandalizando a sede do Congresso dos EUA em revolta decorrente de alegações de fraude eleitoral cinicamente e grosseiramente fabricadas por um presidente narcísico patológico, presidente esse que há poucos dias foi exposto em áudio achacando o secretário de Estado da Geórgia para que esse alterasse os resultados das urnas e “achasse os 11 mil votos” que ele precisava para vencer a eleição naquele estado;

2) os congressistas e o vice-presidente dos EUA em choque e forçados a colocar máscaras de gás ao serem arrastados às pressas por forças de segurança no interior do Capitólio para que não fossem alvos da turba que tomava o local;

3) forças policiais complacentes, assustadas e facilmente sobrepujadas por uma pequena multidão no símbolo máximo de governo de uma nação notória por gastos estratosféricos com aparatos de segurança e “defesa”;

4) uma manifestante baleada por policiais no interior do Capitólio, vindo a falecer poucas horas depois, e mais três pessoas que morreram por “emergências médicas” decorrentes do episódio;

5) um invasor viking coberto com pele de animal com chifres – de rosto pintando e sem camisa, portando uma bandeira dos EUA – ocupando a cadeira de presidente do Senado (homem esse que foi posteriormente identificado como tendo o apelido de “Q Shaman”, no qual “Q” refere-se à seita de extrema-direita notória, dentre outras coisas, por acreditar que o presidente Trump estaria em aliança com uma espécie de agente secreto conhecido como “Q” na tentativa de derrotar a cabala de pedófilos satanistas que secretamente controlam o governo americano).

Tendo em vista esse show de horrores, não resta nada além das perguntas: o que diabos acabou de acontecer e qual é o seu significado político? Ao contrário do que se propaga em parte da mídia e das redes, não tratou-se de uma tentativa de golpe de Estado por parte de Trump e seu grupo (embora seja certo que os “invasores bárbaros” gostariam que fosse o caso). Na verdade, tratou-se de um movimento descoordenado e impulsivo da massa trumpista que, incitados pela retórica inflamatória e pela esquizofrenia coletiva promovida pela narrativa do presidente e seus asseclas, decidiram “fazer algo a respeito” da “maior fraude eleitoral da história dos EUA”.

Ao movimento da turba seguiu-se uma mensagem inconsequente e improvisada do presidente que elogiou a turba invasora e reiterou a farsa da “fraude eleitoral”, ao mesmo tempo que pedia aos invasores que se retirassem pacificamente do prédio. No dia seguinte, passada a oficialização da vitória de Biden pelo Congresso e vendo formar-se o tsunami da reação ao show de horrores no Capitólio, o presidente Trump realiza um giro de 180º e passa a condenar os invasores como criminosos antipatrióticos e se compromete com uma “transferência ordeira de poder”. É desse modo que Trump (como sempre) rola os dados na aposta de que a avacalhação generalizada do sistema político e do establishment da sociedade norte-americana servirá de escudo para suas ilegalidades e seu comportamento caótico.

Frente a implosão política nos dias finais da presidência de Trump, seguiram-se também tentativas infrutíferas e dispersas de contenção de danos por parte de congressistas e lideranças do Partido Republicano, todos visivelmente desnorteados ao se darem conta do buraco no qual se enfiaram, estando atualmente esmagados entre uma base trumpista fiel cada vez mais radicalizada e delirante e o restante do país que começa a seriamente dirigir-lhes palavras como “cúmplices”, “traidores” e “subversivos”.

Por sua vez, o bloco político presente no Partido Democrata – composto pela oligarquia empresarial, os “neoliberais progressistas” e as diversas frações de uma esquerda frágil e continuamente escanteada pela cúpula do partido – encontra-se com a faca e o queijo na mão perante um Partido Republicano em estado de acelerada autocombustão, recebendo de presente as duas vagas do senado que estavam em disputa no estado da Geórgia e obtendo assim maioria em ambas as casas do congresso.

Ainda mais importante, o Partido Democrata obtém uma avenida aberta para uma ofensiva implacável contra Trump e os republicanos na medida em que a invasão do Capitólio representa um trauma na vida nacional que inescapavelmente marca todos os responsáveis por esse evento com a imagem de lunáticos, desordeiros e golpistas.

É nesse contexto que o significado das “invasões bárbaras” do Capitólio será decidido. Primeiramente, em se tratando da questão de se o sistema político dos EUA será capaz de estabelecer algum tipo de critério e limite no universo da vida política nacional. Essa parece ser a tendência tendo em visto o amplo clamor por uma resposta contundente e as recentes declarações de Nancy Pelosi e Chuck Schumer – a presidente da Câmara e o líder democrata no Senado – de que o presidente Trump deve ser removido por “ato de sedição” e que os “terroristas domésticos” envolvidos na “insurreição” devem ser punidos.

Não obstante, não convém subestimar a possibilidade de que Trump esteja correto em sua aposta de que o Estado norte-americano seja cronicamente incapaz de conter e punir qualquer tipo de absurdo e ilegalidade promovida no andar de cima. Afinal, trata-se de um sistema político que permitiu que Bush e seus comparsas explicitamente mentissem e fabricassem pretextos para levar o país a uma desastrosa invasão do Iraque que custou trilhões de dólares, centenas de milhares de vidas e imensuráveis efeitos em termos de caos geopolítico e, ainda assim, saíram completamente impunes e são tratados como cidadãos honoráveis pelo establishment (quem há de esquecer a autodenominada forte amizade entre os Obama e George W. Bush, as fotos de Michelle Obama carinhosamente abraçada com o ex-presidente e suas declarações de que “os nossos valores são os mesmos”?).

Por essa mesma razão, é central observar que não é somente o urgente e necessário enfrentamento do trumpismo que está em questão na atual encruzilhada política nos EUA. O trumpismo e sua expressão máxima no episódio do Capitólio constituem um dentre muitos sintomas mórbidos da crise da ordem neoliberal que se desdobra o coração do Império Americano, desdobrando-se também em grande parte do mundo.

Se é verdade Trump utilizou cinicamente a mensagem de que a economia e o sistema político estariam corrompidos contra os interesses do povo, é também verdade que faz décadas que os sucessivos governos dos EUA (com o apoio sistemático da grande mídia e do conjunto das classes abastadas) implementam uma política econômica que acarreta em acúmulo sem precedentes de recursos na mão de poucos indivíduos e em inédita precarização da vida da maior parte da população.

Se é verdade que Trump e suas “hordas bárbaras” nos confrontam com o prospecto de um futuro distópico que devemos combater, é também o caso que desde muito a distopia já bate à nossa porta em decorrência do aclamado “funcionamento normal das instituições”: por mais que aplaudamos nesse caso específico, não é assombroso que três ou quatro bilionários que controlam o monopólio digital formado por Google, Twitter e Facebook sejam capazes de decidir quando o presidente do país mais poderoso do mundo está ou não autorizado a se comunicar com o público? Se esse é o caso para o presidente dos EUA – que acaba de ter suas contas nas redes sociais bloqueadas – o que dizer dos reles mortais?

Para muito além de Trump, são esses impasses do modelo econômico e sua superação através de projetos políticos consistentes que decidirão nossas possibilidades de futuro. Caso isso não ocorra, creio que nos EUA (e sobretudo no Brasil do presidente Bolsonaro) os bárbaros do Capitólio e seu “Q Shaman” parecerão uma boa lembrança de tempos amenos.

Francisco J. M. Bedê é doutorando em Sociologia pelo Iesp-Uerj.

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