As musas do Jurançon

Não importa o tamanho e sim o que deriva delas e a oportunidade de beber seus vinhos.

Antes que termine o verão, quando, oficialmente, faz calor e as pessoas podem optar pelo vinho branco (embora eu seja adepta dele o ano todo), aproveito para fazer mais um artigo sobre uma região famosa por seus vinhos. Essa fama, infelizmente, ainda é restrita aqui ao público mais entendedor, que prova de tudo e sabe o seu valor, pois é uma denominação de origem francesa situada dentro de uma área vitivinícola bem antiga, mas pouco reconhecida. Soma-se a isso, ainda, o fato de que os vinhos brancos são menos priorizados pelo mercado. Mas isso está mudando, pelo amadurecimento do público consumidor de vinhos e a sua crescente busca por esses tesouros escondidos.

A AOC Jurançon fica na região Sudoeste da França, uma área grande que, no passado, tinha contornos mais amplos ainda, uma vez que suas fronteiras com a vizinha região de Bordeaux eram pouco definidas, até que interesses estratégicos foram determinando uma cisão. Beneficiada pela localização junto ao estuário da Gironda, um ponto estratégico para a exportação ao mercado inglês, Bordeaux, apesar de ter uma vitivinicultura menos antiga, manteve laços com o Sudoeste até o momento em que sua produção não era muito robusta. Pouco a pouco, regulamentações foram selando boicotes e o Sudoeste, apesar de ser berço e território de cepas que ajudaram a constituir o pedigree bordalês, voltou-se para uma produção quantitativa e local, que prejudicou a sua imagem.

Mas as riquezas estão lá, são muitas e vêm sendo aprimoradas em qualidades, bem como há um trabalho no sentido de dar mais visibilidade aos produtos dessa região. São várias áreas produtivas, com intervalos entre si, configurando perfis geoclimáticos distintos, que geram vinhos também diferenciados. Jurançon está na sub-região mais distante de Bordeaux: nos Pireneus Atlânticos, mais a sul e a oeste do Sudoeste, próximo à fronteira com a Espanha e o Oceano Atlântico. Sua cidade mais importante, Pau, é caminho para aqueles que vão curtir o charmoso litoral do país basco, representados por cidades como Biarritz, do lado francês, e San Sebastian, do lado espanhol.

O clima de Jurançon é influenciado pelas brisas do Atlântico, pela altitude dos Pireneus, sendo, inclusive, necessária a construção de terraços para praticar a viticultura e, estando numa área tão meridional da França, há também a influência do calor da região mediterrânea. Isso aporta uma boa combinação entre frescor e bom amadurecimento. Além disso, há duas pérolas na AOC, que são duas cepas brancas: a Gros Manseng e a Petit Manseng – com semelhanças e distinções entre si, podendo muitas vezes serem complementares.

A Gros Manseng tem o bago maior (gros, de grande) e a Petit Manseng tem bagos pequenos (petit) e casca espessa. Ambas são aromáticas (mais frutas tropicais e flores brancas para a primeira e mel e especiarias para a segunda) e têm a virtude de combinar perfeitamente açúcar e acidez. A Petit Manseng, por ter bagos mais frouxos e casca espessa, resiste bem ao amadurecimento, com menor risco de podridão, e é a grande estrela dos vinhos doces e licorosos.

Os vinhos do Jurançon devem levar pelo menos 50% das duas cepas e muitos serão feitos exclusivamente da combinação das duas ou de 100% de cada uma delas. A diferença é que a proporção de Gros Manseng costuma ser maior para os secos e de Petit Manseng maior para os doces. Aliás, os vinhos licorosos da AOC estão dentre os melhores do mundo, justamente por essa qualidade incrível de associar açúcar e acidez. Mas existem Jurançon’s secos também muito interessantes. Vale conhecer, embora ainda contem com presença reduzida no Brasil, porém crescente. Importante atentar para o fato de que quando o vinho vem rotulado como AOC Jurançon, ele é doce. O seco deve mencionar Jurançon Sec.

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Míriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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