As perspectivas do Mercosul com a presidência de Javier Milei na Argentina

Segundo Consentino, do Insper, os interesses de Brasil e Argentina vão prevalecer sobre os interesses ideológicos do presidente de plantão.

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bandeiras dos países do mercosul
Bandeiras dos países do Mercosul (foto de Isac Nóbrega, PR)

Conversamos com Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, sobre as perspectivas do Mercosul com a presidência de Javier Milei na Argentina, que tomará posse no dia 10 de dezembro para o mandato até dezembro de 2027.

De janeiro a outubro deste ano, o Brasil exportou para a Argentina US$ 14,9 bilhões e importou US$ 10,1 bilhões, com um saldo positivo de US$ 4,8 bilhões. Esses números colocam a Argentina na 3ª colocação do ranking de exportações brasileiras e na 4ª colocação do ranking de importações.

Quais são as perspectivas do Mercosul com a proximidade do início do governo de Javier Milei na Argentina?

Para responder essa pergunta, nós temos que remontar as origens do Mercosul. Ele era um projeto de liberalização comercial, que tinha mais relação com setores de direita do que de esquerda. É bom lembrar que o Mercosul começou a ser construído no governo Collor e foi consolidado no governo FHC, que tinha uma cara não tão à direita, mas mais centro-direita ou centro. A esquerda não foi entusiasta desse processo que se deu nos anos 1990, quando nós tínhamos uma agenda de liberalismo comercial muito forte, com os blocos tentando derrubar as barreiras nacionais impostas contra o comércio internacional.

Com o tempo, o Mercosul foi se tornando um instrumento mais político e soberanista, com a própria esquerda passando a entender o bloco como algo que poderia gerar integração política e regional. Daí veio a ideia de se dar um passo além do Mercosul e se construir a Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que hoje também tem problemas do ponto de vista político e ideológico.

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É por causa da origem do Mercosul que se tem essa impressão de que ele agrada mais a países de direita, mas, mesmo assim, nós temos que colocar isso em perspectiva. Por exemplo, Bolsonaro era de direita, mas o liberalismo não era uma das suas grandes bandeiras antes de se tornar presidente. Ele ergueu essa bandeira para agradar muita gente, mas isso não era algo intrínseco a sua agenda. O Paulo Guedes já era uma pessoa que trilhava pelo caminho do liberalismo, pois já havia entendido que o Mercosul tinha se transformado em algo que não estava mais funcionando a contento.

De alguma forma, o Mercosul se tornou um arranjo muito difícil de levar a cabo o projeto de liberalização, pois havia uma lista muito grande de exceções à tarifa externa comum e uma dificuldade muito grande de se chegar a acordos. Como parte da direita mais liberal passou a rechaçá-lo, assim como está acontecendo na Argentina, nós passamos a ver essa mudança de perspectiva. 

Se o Mercosul se tornar, novamente, um instrumento dinâmico de liberalização comercial, que aprofunde a integração entre os países, todos eles com uma agenda de direita e de liberalismo, pode ser que ele ganhe um novo impulso, mas é muito difícil que isso ocorra sem o Brasil. Ao mesmo tempo, nós temos que lembrar que o presidente Lula, como ele próprio já disse, é uma metamorfose ambulante. Ele não é a pessoa mais esquerdista possível, mas uma pessoa pragmática que se adapta aos momentos.

Como deverá ser o relacionamento entre os presidentes Lula e Milei?

Dificilmente os dois presidentes vão dinamitar a relação por causa de suas visões de esquerda e de direita. Tanto Lula quanto Milei possuem um pragmatismo muito grande que vai fazer com que as relações históricas sejam preservadas.

Brasil e Argentina possuem fortes chancelarias e empresariados voltados para o comércio exterior. Eles vão privilegiar seus interesses nacionais em detrimento de um interesse ideológico do presidente de ocasião. Essa relação poderia ser melhor se houvesse uma sinergia político ideológica, mas ela será preservada pelos interesses dos dois lados. Pode haver uma relação mais difícil, mas ela não será bloqueada.

Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper

Dos quatro membros ativos do Mercosul (a Venezuela segue suspensa), o Paraguai e o Uruguai possuem governos de direita, e a Argentina terá um governo de direita a partir de dezembro, sendo que apenas o Brasil possui um governo de esquerda. Essa composição pode gerar um dinamismo diferente nas negociações com outros blocos?

Sem dúvida. Pode haver uma importante sinergia, sobretudo quando pensamos em mais liberalização comercial, mas isso pode gerar dificuldades para fechar acordos que tenham uma cara mais ideológica ou uma agenda mais ligada ao identitarismo ou ao ambientalismo. Por exemplo, depois de 20 anos, o acordo do Mercosul com a União Europeia chegou a um bom termo de conclusão, mas teve uma dificuldade adicional para ser concluído, pois a França criou embaraços por conta da falta de um compromisso ambiental mais sério do Governo Bolsonaro. Quando entra o Governo Lula, ele tenta retomar o acordo, mas agora estão enxergando que o Governo Milei, de alguma forma, vai melar com ele.

Repare: não é só uma questão de direita e esquerda, mas sim uma questão muito mais ligada a uma visão nacionalista, soberanista de Estado, que uma visão internacionalista. No Brasil, apesar de termos um governo de esquerda, ele possui uma visão mais internacionalista, mais pró-acordo com a União Europeia. No Caso da Argentina, apesar do próximo governo ser de direita, ele possui uma visão mais nacionalista, menos disposta a fazer cessões de soberania para fechar acordos.

Mas as decisões do bloco têm que ser unânimes, correto?

Correto. Forçar o Brasil, que é o maior país do bloco, é uma tarefa muito complicada. Provavelmente, o bloco terá uma negociação muito intrincada, pois não dá para dizer “olha, nós nos entendemos e vamos deixar o Brasil de fora”. Não há como fazer isso numa importante negociação.

Se a Argentina saísse do Mercosul, ela não ficaria livre para, no outro dia, firmar acordos com outros blocos, inclusive com o próprio Mercosul?

Esse caminho é viável, mas pouco factível, pois a Argentina possui uma grande dependência do Mercosul. Se Milei considerar essa possibilidade, com certeza ele será pressionado para que não a concretize, pois a Argentina tem mais vantagens ficando do que deixando o bloco. Milei, dificilmente, transformará uma peça de retórica numa peça efetiva de política externa. Para o Milei candidato, caiu muito bem dizer que a Argentina era prejudicada pelos outros e que ia deixar esses arranjos, mas quando ele for presidente, eu não acho que ele concretize essa aposta. 

Qual a vantagem de um país estar no Mercosul?

No início, o Mercosul tinha como vantagem a derrubada de barreiras tarifárias no comércio intrabloco, só que a própria esquerda dinamitou algo que poderia ter sido muito maior. Em 2001, se propôs a criação da Alca (Área de Livre-Comércio das Américas), que tornaria toda a América uma área de livre comércio, mas a esquerda barrou esse arranjo. Na época, o Hugo Chávez, presidente da Venezuela, propôs a criação de uma alternativa bolivariana, a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), que ninguém sabia direito o que era. No final, nada foi concluído e nós perdemos a chance de termos, dentro das Américas, um arranjo parecido com o que tinha a União Europeia.

O que temos hoje é uma mini área de comércio no Cone Sul. Regionalmente, isso serve bem aos nossos interesses, mas poderia ter sido maior. Contudo, não existe prejuízo em se fazer acordos bilaterais. A questão é que quando um país está num arranjo multilateral desse tamanho, ele acaba privilegiando esse arranjo em detrimento de outras alianças bilaterais.

O que aconteceu nos últimos anos de paralisia do Mercosul foi que alguns países disseram que como o bloco está travado, eles iam fazer alianças por fora. Isso pode acontecer também, mas a grande questão é não deixar o Mercosul travar e fazer com que a nossa agenda de política comercial externa continue fluindo bem, tanto no âmbito multilateral quanto no âmbito bilateral. Não é simples, mas esse é o desafio diante de um mundo cada vez mais protecionista.

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