As principais características do endividamento das pessoas físicas

Segundo Marcela Martins, da Recovery, a desorganização financeira é o principal problema que faz com que muitas pessoas percam o controle sobre seus endividamentos.

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Conversamos com Marcela Gaiato Martins, diretora de Produtos B2C, Marketing e Atendimento ao Cliente da Recovery, sobre as principais características do endividamento das pessoas físicas no Brasil.


Quais são as principais características do endividamento das pessoas físicas no Brasil?

Quando falamos do endividamento das pessoas físicas, nós temos duas vertentes para serem olhadas: as caraterísticas dos devedores e os produtos que geram endividamento.

De 2019 para cá, o perfil dos devedores tem sido formado, na sua maioria, por mulheres, com jovens numa ponta e idosos na outra, e baixa escolaridade. Por exemplo, os jovens em questão recebem um cartão de crédito em casa e gastam, mas como estão desempregados, não conseguem pagar a primeira fatura, enquanto os idosos têm uma diminuição de renda quando se aposentam.

Com relação aos produtos, o cartão de crédito sempre aparece como o maior fator de endividamento das pessoas. Depois, nós temos o cheque especial e os empréstimos. Numa quantidade menor, mas ainda relacionada aos financiamentos, imóveis e veículos. Por último, as contas de varejo e de consumo, que por possuírem um ticket menor e por uma necessidade mais imediata, as pessoas se organizam para pagar primeiro.

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Por que muitas pessoas perdem o controle sobre seus endividamentos?

Aqui existem dois grandes fatores. O primeiro é que, realmente, imprevistos acontecem. A pandemia foi uma grande prova disso, já que o altíssimo índice de inadimplência que estamos vendo agora ainda tem relação com ela, pois muitas pessoas perderam seus empregos ou seus patamares de renda. Temos também casos em que a vida estava organizada, mas aí nasce um filho não planejado ou alguém fica doente.

O segundo está relacionado a falta de planejamento, já que planejar e ter controle sobre as finanças, seja através de um aplicativo ou de um caderninho, não faz parte da nossa cultura. Nós não aprendemos isso nas escolas e nem em casa.

Como vivemos num mundo consumista, é muito comum que as pessoas vivam padrões de vida que, muitas vezes, não estão cabendo na renda da família. Como não há organização, elas entram numa situação de endividamento sem que percebam. Ocorre que é muito mais difícil sair desse buraco, uma vez que se entra, do que se controlar para não chegar nessa situação.

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Como as pessoas deveriam manter o controle sobre seus endividamentos?

Aqui existe uma diferença clara entre a pessoa estar com dívida, estar com dívida atrasada e estar com a dívida atrasada sem ter condições de pagar. O segundo caso pode acontecer em situações muito calculadas, quando a pessoa, mesmo tendo condições de quitar a dívida, decide atrasá-la porque quer contar com 10 dias sem juros no cartão ou atrasar o pagamento de uma conta que não tem juros.

Quando uma pessoa entende que é normal ter um financiamento ou pagar um boleto na frente do outro, está tudo bem. O problema é quando a pessoa atrasa a dívida que não tem condições de pagar.

Para manter o controle sobre o endividamento é preciso ter a visão do todo. Primeiro é preciso entender qual é o rendimento familiar, como salários, benefícios ou bicos. No último caso, quando não há uma renda fixa, mais sim uma variável, a pessoa sabe, mais ou menos, quanto entra num mês.

Depois é preciso entender quais são os principais gastos dessa família, separando gastos fixos e variáveis. Existem contas que precisam ser pagas todos os meses, como o aluguel, a conta de energia ou a escola do filho, mas outras não. Se a pessoa está apertada num mês, ela pode decidir por não fazer uma viagem.


Uma vez perdido o controle sobre o endividamento, o que as pessoas devem fazer para retomar o controle da situação?

Se a pessoa já tem uma organização financeira, talvez fique um pouco mais fácil para que enxergue uma forma de retomar o controle, mas como a grande maioria dos brasileiros não tem essa organização, essa pessoa precisa parar e escrever todas as dívidas que possui, com as informações de cada credor, seus valores e seus juros. Isso vai ajudá-la a saber por onde começar a negociar e a decidir se vai negociar primeiro a dívida de maior valor ou a dívida de juros mais altos.

Tendo essa clareza e sabendo quanto se tem de renda e de gastos fixos e quanto pode ser separado para começar a pagar suas dívidas, aí vem a hora das negociações. É importante destacar que todo credor está aberto a uma negociação.

Vamos imaginar que a pessoa se prive de alguns luxos e consiga R$ 300 mensais para pagar suas dívidas. Se o primeiro credor oferecer um desconto espetacular sobre uma dívida para que ela seja paga por R$ 1 mil, essa pessoa já sabe que não vai conseguir pagá-la. Agora, se ela está craque em negociações, ela pode pedir o parcelamento desse valor em três vezes.

Saber onde o dinheiro que pode ser pago pode ser oferecido, coloca a pessoa num patamar de não só de ouvir a oferta do credor, mas de fazer uma contraproposta que realmente caiba no bolso.

O que vemos muito na Recovery é que as pessoas querem negociar, mas não possuem essa organização financeira. Como elas acham que vão conseguir pagar, fecham os acordos, mas quando os boletos começam a chegar, elas se desorganizam novamente e quebram os acordos. Com isso, elas têm que fazer uma nova negociação.

A pessoa precisa ter clareza para dominar essa situação, não deixando que a situação a domine.


Qual a sua visão sobre o impacto do rotativo do cartão de crédito no endividamento das pessoas?

Por mais que os juros do rotativo sejam os mais altos do mercado, ele não é o grande vilão. Esse papel cabe a desorganização financeira que causa uma bola de neve na vida das pessoas. Não há problema quando uma pessoa, devido a um imprevisto, decide pagar a fatura mínima do cartão, desde que no mês seguinte ela tenha se organizado para pagar uma fatura maior do que a que foi paga no mês anterior.

Quando essa pessoa percebe que não vai dar conta da próxima fatura, aí começa a grande bola de neve que pode levá-la a ficar com uma dívida e sem cartão de crédito. Nessa situação, como a falta de pagamento já está registrada nos órgãos de proteção ao crédito e seu score de crédito comprometido, quando essa pessoa for procurar crédito no mercado, os juros que lhe serão oferecidos ficarão mais caros, pois ela tem mais risco para os credores.

Se tivéssemos mais abertura para conversarmos sobre isso, levando mais orientação, instrução e ideias para as pessoas, talvez começássemos a amenizar o estrago que essa bola de neve causa nas suas vidas.

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