Conversamos com Rubens Barbosa sobre as relações internacionais do Brasil e a eleição presidencial. Rubens foi embaixador em Londres, de 1994 a 1999, e em Washington de 1999 a 2004 e, atualmente, é presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).
Na sua avaliação, existe diferença na condução das relações internacionais do Brasil entre o século 20 e o século 21?
Sim, existe uma grande diferença. Até 1999, nós tínhamos uma política externa em que o interesse brasileiro vinha em primeiro lugar, com o Itamaraty defendo uma política consistente e sem ziguezagues. Uma política cujo objetivo era defender o Brasil em todas as áreas, como os organismos internacionais e o comércio exterior. A partir de 2003, com exceção dos dois anos do período Temer, a política externa ficou subordinada a interesses ideológicos e partidários, tanto da esquerda quanto da direita, como no governo Bolsonaro.
Nos dois anos de Temer, quando José Serra e Aloysio Nunes foram ministros do exterior, o governo voltou a defender a política externa, sendo que o Itamaraty foi fortalecido com a Apex e a Camex. Tirando esse período, a política externa, como disse, ficou submetida a questões ideológicas-partidárias, o que fez com que o Brasil perdesse a posição de liderança, que sempre havia tido, na América do Sul e uma certa credibilidade no exterior por causa de declarações oscilantes que contrastavam com a linha tradicional do Itamaraty de preservação da Carta da ONU, do direito internacional e dos interesses do país.
Qual a sua avaliação sobre a condução das relações internacionais do Brasil nos três mandatos do presidente Lula?
Eu fui embaixador do Fernando Henrique e depois embaixador do Lula (primeiro mandato). Durante a minha atuação no governo Lula, eu não recebi nenhuma interferência ideológica em relação à minha atuação. Eu continuei a fazer exatamente o que fazia no governo anterior, tanto que não houve um único problema em Washington quando a presidência passou de Fernando Henrique para Lula, apesar de todo o discurso do PT contra a Alca, a dívida externa e o FMI. Posteriormente, a influência ideológica, não só da esquerda, como também da direita, passaram a influir e a prejudicar a percepção externa sobre o Brasil.
Até que ponto uma mudança de governo impacta na condução das relações internacionais do Brasil?
Quando analisamos essa questão, esse foi um fator importante nos últimos 20 anos, mas isso não deveria ter sido assim. O Brasil é uma potência média regional com interesses muito claros na América do Sul, no comércio exterior, na atração de investimentos e na cooperação e assistência externa, mas isso foi deixado em segundo plano.
A política externa sofre um impacto muito grande quando se introduz o elemento ideológico, que coloca os interesses partidários acima dos interesses permanentes do país para obtenção de resultados na política interna. É o que estamos vendo agora com os Estados Unidos, com a tentativa do governo brasileiro de provocar os americanos para obter algum tipo de retaliação que possa ser usada na defesa da soberania e na eleição.
Na minha visão, há uma utilização equivocada da política externa para defesa de interesses políticos internos, quando o correto seria a consideração dos interesses privados, do próprio governo e do país.
Vale a pena investir em estruturas como o Brics ou insistir em estruturas como o Mercosul?
Sim, vale a pena. Por mais que o Brasil tenha perdido a liderança na região, o Mercosul pode ser um instrumento muito importante para o país em termos econômicos e comerciais. Por exemplo, os acordos Mercosul-União Europeia e Mercosul-Efta (European Free Trade Association) são muito importantes, pois não podemos ficar dependendo só dos Estados Unidos e da China.
Quando o Mercosul foi criado, ele era um instrumento de penetração de políticas brasileiras para beneficiamento dos seus interesses na região. O problema é que o Mercosul perdeu os objetivos econômicos-comerciais e passou a ser um fórum político-social. Esse erro ideológico foi cometido pelos governos do PT, que distorceram a finalidade do Mercosul.
Com relação ao Brics, até a guerra entre Rússia e Ucrânia, o grupo era um fator geopolítico muito importante, pois ele junta cinco países que são muito importantes em termos econômicos, populacionais e territoriais. Não havia uma agenda comum, mas havia uma coordenação nos organismos multilaterais.
Contudo, com o enfraquecimento dos organismos multilaterais, a guerra entre Rússia e Ucrânia e, agora, os ataques dos Estados Unidos ao Irã, o grupo vai ter que ser repensado. A participação do Brasil é interessante do ponto de vista econômico, mas a ampliação do grupo fez com que a posição brasileira ficasse mais enfraquecida do ponto de vista político. Independente disso, o grupo pode ser bem utilizado, mas nós dependemos da formulação de uma política do governo brasileiro em relação ao Brics. Aqui, novamente, entra uma posição ideológica, pois não temos uma definição clara da posição do Brasil.
Se o Brics for usado para objetivos econômicos-comerciais e para a abertura de canais com os outros países-membros, já que muitos deles possuem poucas relações econômicas-comerciais com o Brasil, ele pode ser muito importante para o Brasil.
No que o próximo presidente deve ficar atento às relações internacionais do Brasil?
Primeiro: o próximo presidente precisa entender o que está acontecendo no mundo e no Brasil. O mundo mudou tremendamente e se tornou inseguro e incerto, já que não sabemos como a ordem econômica e a ordem política, que era estável e previsível até a eleição de Trump, vão evoluir. Desde então, o cenário internacional mudou totalmente.
Segundo: o próximo presidente tem que entender qual é o melhor lugar do Brasil nesse novo mundo, pois nos últimos vinte anos, sobretudo nos últimos quatro anos, nós não tivemos nenhum programa nacional, com o país ficando sem horizonte, sem planejamento e sem perspectivas de médio e longo prazo. O próximo presidente precisa ter um programa e um planejamento para atacar as vulnerabilidades que ficaram evidentes depois da pandemia e das guerras, como as deficiências na educação, na saúde e na defesa, e as vulnerabilidades conjunturais, como a questão da logística.
Por exemplo, na área agrícola, o comércio exterior brasileiro, nos últimos dez, quinze anos, dobrou de tamanho, mas os portos não, o que fez com que eles não tivessem capacidade de absorver essa ampliação. Outro exemplo: a infraestrutura de ferrovias é muito deficiente para aumentar a produtividade e a competitividade dos produtos brasileiros.
O próximo presidente não pode entrar sem uma visão clara do que ele quer fazer nos próximos quatro anos dentro de uma perspectiva de médio e longo prazo. É preciso pensar as políticas em termos de políticas de governo, e não de políticas partidárias-ideológicas de quatro anos.
Você acredita na possibilidade de interferência internacional na eleição presidencial?
O governo americano está interferindo em muitas eleições na América do Sul, mas no caso do Brasil, eu não acredito que os Estados Unidos interfiram como eles fizeram em países como Argentina, Chile e Honduras. Contudo, isso pode acontecer através das big techs e suas mídias sociais. Se o Brasil não chegar a um acordo nas investigações da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, é muito provável que as big techs defendam um dos lados na eleição.
Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?
A guerra do Irã está mostrando que o Brasil precisa fazer alguma coisa em relação aos fertilizantes. Como o motor da economia brasileira é o agro, o país não pode continuar dependendo da importação de 90% dos fertilizantes que consome. Uma das maneiras para se corrigir isso é buscar as reservas de insumos para fertilizantes em países da América do Sul, como Argentina, Bolívia e Chile, além de explorar as próprias reservas existentes no Brasil. O país precisa voltar a adotar uma política séria em relação à região, pois as cadeias produtivas regionais são muito importantes para que o Brasil volte a ter um papel de liderança econômica-comercial na América do Sul.

















