As rotas do Ártico: meta estratégica prioritária

Por Edoardo Pacelli.

Potencial comparado à navegação em torno da África, há 500 anos

 

O aquecimento global está transformando as rotas do Ártico como meta estratégica prioritária para um país como a Rússia. Moscou tem a oportunidade de acessar os mares cruciais do comércio global, desencadeando uma competição geoestratégica entre potências.

Falando no Fórum Econômico de São Petersburgo, há alguns dias, o poderoso Igor Sechin, líder da petrolífera russa Rosneft, falou sobre o Ártico. Para ser mais preciso, em um discurso cheio de retórica antiocidental, ele disse que a “Arca de Noé” para salvar a Rússia dessa inundação universal, indescritível, desencadeada pelo Oeste, “está localizada no Ártico russo e é chamada de Vostok Oil”.

Este gigantesco projeto petrolífero, desenvolvido ao longo das margens remotas do grande rio Yenisey, é “o único no mundo capaz de trazer um efeito estabilizador ao mercado petrolífero”, disse Sechin – demonstrando como a Rússia já está lidando com um possível descolamento da Opep, da trajetória comum aqui realizada. Este descolamento também está ligado às quotas de mercado que Moscou está a garantir, com descontos extras, como os que lhe permitiram ultrapassar a Arábia Saudita entre os fornecedores da China.

O oligarca putiniano acrescentou que o projeto prevê a exportação pela “Rota do Mar do Norte” e que, consequentemente, “não haverá dependência de empresas estrangeiras e cadeias logísticas”. Além disso, o projeto não é tecnologicamente difícil para a Rosneft desenvolver: “Temos todas as habilidades, os conhecimentos e a experiência necessários e, neste tipo de projeto, 98% da tecnologia é produzida na Rússia”.

Se com a primeira ênfase reivindica a hegemonia russa nas rotas do Ártico, com a segunda torna-se necessário, visto que os componentes petrolíferos estão sancionados desde julho de 2016, após a anexação ucraniana, em 2014.

A Vostok Oil deverá produzir até 115 milhões de toneladas de petróleo anualmente, até 2033. O oligarca russo está ciente de que a mineração será lucrativa porque, nas próximas décadas, as rotas do Ártico se tornarão um hub – a partir do Norte – e utilizável para vários tipos de negócios.

A Rússia sempre teve forte interesse pela região, principalmente porque é onde se concentra seu maior litoral. Linhas que, há anos, fazem parte de uma espécie de frustração russa, tão difíceis de navegar (especialmente em certas épocas do ano) e, portanto, não cruciais para o comércio global – isso está ligado à constante ambição estratégica de acesso aos pontos quentes do mar, como o Mediterrâneo (a anexação da Crimeia, a intervenção na Síria, as atividades na Líbia, as tentativas de abrir uma base no Sudão também estão ligadas a isso).

Agora que a mudança climática – relacionada ao aquecimento global – está derretendo o gelo do Polo Norte a uma taxa três vezes maior que a do resto do planeta, as águas do extremo norte se tornaram um grande elemento de interesse. O aumento do potencial de navegação coincide com a possibilidade de explorar as capacidades da região em termos de recursos naturais, tornando exploráveis os reservatórios do Ártico (de gás, petróleo).

Ao longo dos próximos anos, assistiremos, rapidamente, à abertura de novas rotas oceânicas, capazes de unir o Oriente ao Ocidente, o Pacífico ao Atlântico, passando pelo norte. Isto terá um impacto potencial, a nível econômico, comercial, estratégico, geopolítico, que podemos facilmente comparar com o que foi determinado, há 500 anos, pela descoberta da rota, ao redor do continente africano ou aquela para a América ou, mais recentemente, pela abertura de canais como o de Suez e o de Panamá.

Esse desenvolvimento fará de territórios como o Mar do Norte, o Báltico, a Islândia e a Groenlândia um centro de competições. Igualmente, um papel central será desempenhado pela península escandinava, o que torna a inclusão da Suécia e da Finlândia na Otan um elemento de grande interesse também do ponto de vista ártico.

A Rússia sabe que tem vantagens no jogo do Ártico, mesmo que seja pela conotação geográfica que abrange grande parte da região. Moscou quer explorar essas vantagens potenciais para avançar pensando em seu próprio papel global.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

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