Atacar o Irã?

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Em julho de 2010, neste MM, no artigo “Oriente Médio – onde querem chegar” fazíamos constar: qualquer estrategista militar sabe que uma invasão convencional contra o Irã é de dificílima execução. Muito mais importante do que impedir que o Irã tenha a bomba atômica teria sido evitar que tivesse mísseis. Registrávamos também quão inócuas seriam as sanções.
Na semana retrasada, a articulista Elizabeth Bumiller escrevia no NYT o artigo “Ataque ao Irã – difícil tarefa para Israel”, em que caracteriza a dificuldade de voar 1600km em espaço aéreo não amigável, reabastecer no ar, combater a defesa aérea do Irã, atacar múltiplos locais subterrâneos simultaneamente (o que implicaria uso de múltiplos aviões), além de explicitar a avaliação de funcionários de defesa norte-americanos e analistas militares do Pentágono quanto à complexidade da iniciativa.
Em paralelo, o general Martin Dempsey, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, dizia que um ataque ao Irã seria desestabilizador. A jornalista formulava as três rotas potencialmente possíveis ao tempo em que citava o general David Petula para quem “há apenas uma superpotência capaz de levar isto adiante”.
Sem questionar a competência das Forças Armadas norte-americanas para executar esta tarefa, lembro que se os EUA resolverem atacar terão igualmente um grande problema, isto é, utilizando os porta-aviões próximos, teriam não os 1600km mas 700km, o que implica voar 700km, atuar alguns minutos, após ultrapassar defesas antiaéreas, e retornar 700km, o que significa, em ultima análise, a mesma impossibilidade. A entrada por terra seria igualmente inglória. O envio de mísseis representaria uma correspondência biunívoca, com alvos de baixa mobilidade do lado dos invasores.
Aliás, já é hora de desmistificar isto que se assemelha cada vez mais a um blefe: os norte-americanos (Bush) desde 2002 nomearam o eixo do mal: o Iraque, a Coréia do Norte e o Irã. Invadiram o Iraque, cujas dimensões, população e pobreza e aliados são completamente diferentes dos outros dois casos. Dizem que tomar conta do Iraque, dividir o butim entre várias petrolíferas de diversos países (até tu, China?) equivaleu a “tirar pirulito de boca de criança”.
É mais pratico fazer o que a “comunidade ocidental” já fez principalmente com a Líbia (o impávido Sarkozi à frente) e agora tentam fazer com a Síria do que invadir o Irã, isto é, solapar o regime e criar (comprar ) grupos de resistência interna. Mas se a Síria já dura um ano, quanto tempo levará o Irã? São 1.700.000km², quase 80 milhões de habitantes.
O PIB iraniano, segundo institutos norte-americanos, equivale a dois terços do orçamento militar norte-americano. Aceitando o dado como correto, a verdade é que se desconhece no entanto o estoque que possuem de armas e mísseis. O relatório do International Crisis Group (ex-diplomatas norte-americanos e militares) demonstra o quanto o ambiente está envenenado por meias-verdades e ameaças de sanção. E a resistência não representará muitas perdas?
São dez anos de ameaças e sanções e mesmo com as agências de notícias na mão, difundindo o que querem ,começam a desmoralizar-se. À exceção do povo norte-americano e alguns cooptados ao longo do mundo, ninguém acredita mais nas ameaças. Um tigre de papel ou um Belo Antônio? Ou busca-se uma credibilidade semelhante à da AIEA, subsidiária dos serviços secretos norte-americanos e inglês.
Não adianta a Arábia Saudita pedir o ataque nem tampouco fingir, para esse fim, que a Turquia não existe. A condução do assunto para o fundamentalismo religioso também dará com os” burros n”água.
Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não acredita em ataque ao Irã. As represálias seriam inimagináveis (o Estreito de Ormuz, os 200 milhões de xiitas espalhados pelo Golfo, o desconhecimento da enorme colônia de judeus no Irã…). Cabe a pergunta: o que é mais perigoso para Israel, um Irã nuclear ou as consequências que o ataque ao país persa trariam? Vão sentir saudade do acordo proposto Brasil-Turquia-Irã.
Chega de blefe, não acredito em ataque!!! Mas… qual a saída?

Osvaldo Nobre
Engenheiro e autor dos livros Brasil – País do Presente e Bric ou RIC – Década de Transformações.

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