Até breve, Luis Gustavo, Marita Vinelli e José Eduardo

Por Paulo Alonso.

O último fim de semana foi marcado por uma tristeza absolutamente profunda. Três personagens dos mais queridos se foram, deixando uma lacuna imensa em todos nós que, com o passar dos anos e décadas, aprendemos a admirá-los, pela construção dos seus trabalhos.

Luis Gustavo, ator mágico e dono de uma versatilidade notável, partiu, e com ele um enorme vazio foi aberto no mundo das artes; Marita Vinelli, poeta das mais sensíveis e delicadas, titular de várias academias de letras, também nos deixou; assim como o empresário José Eduardo Guinle, um homem visionário e que sempre esteve à frente do seu tempo e que conhecia tudo de turismo, hotelaria e marketing, morreu.

Intérprete dos eternos Mário Fofoca e Tio Vavá, dentre tantos outros incríveis personagens que encarnou, Luis Gustavo, tio dos atores Tato Gabus Mendes e Cássio Gabus Mendes, era um homem sem vaidades, generoso, simples e dono de um talento extraordinário e, por sua longa trajetória, merece naturalmente um capítulo especial, quando o assunto é a televisão brasileira.

Nascido na Suécia, filho de pais espanhóis, Tatá, como era conhecido, viveu personagens de todos os tipos, cômicos e trágicos e fez sua estreia, como ator, no teleteatro TV de Vanguarda em Mas Não se Matam Cavalos, de Horace McCoy. Sua primeira novela foi Se o Mar Contasse, na TV Tupi, em 1964. Também na emissora, atuou em O Sorriso de Helena, O Direito de Nascer, O Amor Tem Cara de Mulher e Estrelas no Chão.

No teatro, ganhou o prêmio de melhor ator da Associação Paulista de Críticos de Teatro pela atuação em Quando as Máquinas Param, de Plínio Marcos.

O ator deu vida a outros personagens importantes, como o costureiro Ariclenes Almeida/Victor Valentin, em Ti Ti Ti, o músico cego Léo, em Te Contei?, e o playboy Ricardo, em Anjo Mau, todas escritas por Cassiano Gabus Mendes, que era seu cunhado. Seus últimos trabalhos na TV Globo foram Brasil a Bordo e Malhação: Vidas Brasileiras, ambos exibidos em 2018, além dos eternos Mario Fofoca, de Elas por Elas, Vavá, de Sai de Baixo, e Beto Rockfeller.

E foi esse grande ator que tive a honra e a satisfação de conhecer pessoalmente, entrevistando-o em várias ocasiões. Sempre alegre, divertido, de bem com a vida, Luis Gustavo encantava a todos com sua generosidade e forma leve de viver. Um dos grandes atores brasileiros, tem certamente o seu nome guardado no Panteão dos Grandes Artistas do país. Seu talento e arte serão lembrados para sempre, até porque artistas são imortais, pois suas obras atravessam os tempos.

Inspiração e delicadeza são duas palavras que definem a queridíssima poeta Marita Vinelli, titular da Academia Luso-Brasileira de Letras, da Academia Carioca de Letras, da Sociedade Eça de Queiroz e do Pen Clube do Brasil e uma das mais importantes intelectuais brasileiras, que partiu no último sábado.

Entre ensaios, como Encontro marcado com Eça de Queiroz, e os livros de poesia: No vale verde do meu sonho; Tu chegaste, primavera; Vou cantar até morrer; e Meus poemas azuis; além de dezenas de prefácios, posfácios, conferências e discursos de posse, a poeta, com raro talento, inteligência lúcida e brilho permanente, foi um exemplo para todos, pois sua alegria de viver, juventude e eloquência eram contagiantes, empolgando a todos os que com ela tiveram o privilégio de conviver

E é essa poeta sensível e delicada chamada Marita Vinelli, a quem conheci ainda criança, “de calças curtas”, como ela sempre mencionava, na casa do professor Dagmar Aderaldo Chaves, médico ortopedista renomado e integrante de quase 30 academias de letras, artes, cultura e medicina, e de Rosinha, amigos de toda a vida dos meus pais, Cezar Alonso e Margarida, que me saudou, com imenso carinho, quando ingressei na Academia Luso-Brasileira de Letras, tornando-se minha “madrinha”.

Aliás, nos saraus promovidos por Dagmar, em seu apartamento da Avenida Atlântica, Marita costumava declamar seus versos, interpretando-os com sentimento, alma e paixão, emocionando sempre a todos. Vinelli era emoção, cultura, delicadeza, alegria e generosidade. Viva Marita Vinelli. Saudade e gratidão.

José Eduardo Guinle, que esteve na direção-geral do Copacabana Palace até sua venda, em 1989, também partiu, no último fim de semana. Quanta tristeza! Amigo fraterno, com o qual convivi de forma estreita durante vários anos, fazendo com que o Copacabana Palace fosse quase que um quintal da minha casa. Lá, trabalhei, como editor do Copa News, um house organ do hotel, cobrindo mensalmente as festas e eventos que ocorriam nesse lendário e para lá de charmoso hotel. Lá permaneci até o estabelecimento ser vendido. Um aprendizado estar ao lado de um homem íntegro, honesto, ético, bem-nascido e rico, mas que sempre se mostrava discreto e gentil.

O trabalho de José Eduardo Guinle no Copacabana Palace teve início, ainda na sua adolescência, aos 17 anos, quando ele ainda era estagiário. Cursou Economia na PUC-RJ e foi, após, para a Espanha se aprimorar no estudo sobre o ramo hoteleiro; quando voltou, assumiu a Diretoria de Marketing do hotel. Cinco anos depois, assumiu a Diretoria-Geral do Copacabana Palace, promovendo a maior reestruturação administrativa e serviços, desde a fundação do Hotel, em 1922.

Depois, passou por diversos hotéis de todo o Brasil prestando serviços de consultoria no ramo de administração hoteleira. Também foi fundador do Rio Convention Bureau, secretário do Turismo e presidente da Riotur e da Associação Brasileira de Marketing.

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais e poderosas do país do fim do século 19, filho de Dona Mariazinha e de Octávio Guinle, os Guinle foram vencedores de uma concessão para modernizar o Porto de Santos, em 1888. A família construiu um verdadeiro império, sendo vinculados a empreendimentos marcantes do Rio de Janeiro, como o próprio Copacabana Palace, o Palácio Laranjeiras, atual residência do governador do Rio de Janeiro, o Jóquei Clube Brasileiro e a Granja Comary.

Com a morte do ator Luis Gustavo, da poeta Marita Vinelli e do empresário José Eduardo Guinle, todos em um mesmo fim de semana, a sensação de perda é imensa, e a saudade é gigante. Que sigam seus caminhos, com muita luz e que seus exemplos sejam observados pelos que aqui ainda permanecem, pois os três deixam belíssimos legados para todos nós, que apreciamos as artes, a poesia e a seriedade empresarial.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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