Ato falho

No show de insegurança que deu à guisa de entrevista, o técnico da seleção brasileira, Luís Felipe Scollari, deu pelo menos uma deixa para a CPI do Futebol. Foi quando, perguntado sobre pesquisa realizada pelo sítio da Nike (patrocinadora da seleção) em que os brasileiros aprovavam a contratação de um técnico estrangeiro para comandar o time tetracampeão mundial, Felipão se saiu com essa: “Eu continuo tendo a confiança da diretoria da CBF e da Nike”.

Repertório
Além de borrarem o marketing de que “a Educação é a maior realização deste governo”, as vaias recebidas pelo ministro Paulo Renato, no Dia do Professor, afetaram a percepção conceitual do ministro. Depois de chamar os manifestantes de fascistas, Paulo Renato disse exigir respeito, porque “eu não ofendo ninguém”.  Maior ofensa do que o destempero do ministro é o salário que paga aos professores do seu ministério, no qual existem pesquisadores com doutorado no exterior recebendo R$ 800 por mês.

Bob
“Roberto Campos, 84, apostle for the free market in Brazil”. Este o título de reportagem sobre o ex-senador publicada no The New York Times da última sexta-feira. Com uma referência ao apelido Bob Fields, lembrança de uma atuação pró-EUA, a matéria foi feita pelo correspondente do jornal no Brasil e não por um jornalista sediado na matriz, como provavelmente desejaria Campos. Pelo menos teve mais sorte que Paulo Francis, que só apareceu nas páginas do NYT em anúncio fúnebre.
Fields
No Brasil, as gigantescas matérias que os “jornalões” publicaram sobre Roberto Campos contrastaram com a discreta – discretíssima – repercussão entre os leitores. Praticamente não houve cartas sobre o finado economista. Se as reportagens se derramaram em elogios – chegaram a colocar Campos como responsável pela introdução da bossa nova nos EUA – pecaram por não ter mencionado uma passagem da vida do ex-senador. Na biografia de John F. Kennedy, Campos – à época embaixador brasileiro em Washington – chamou a atenção do ex-presidente dos Estados Unidos por defender os interesses dos EUA com mais veemência que os próprios norte-americanos.

Efeitos colaterais
Ao mesmo tempo em que pressiona a dívida pública, a alta do dólar, associada à recessão interna, continua a ajudar na melhora da situação da balança comercial. Em outubro, as importações já desabaram 11%, até o último dia 15. No mesmo período, as exportações tiveram alta modesta de, 1%, mas o quadro sinaliza a possibilidade de obtenção de novo superávit comercial, apesar da proximidade do fim do ano, período em que tradicionalmente as compras natalinas pressionam as importações.

Desprezo à democracia
Ao reconhecer o repúdio a sua política econômica, o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa, prometeu “não tapar os ouvidos” aos protestos. Ato contínuo, porém, ante a divulgação dos resultados oficiais com o tamanho de sua derrota, De la Rúa ameaça anunciar o oitavo pacote de seu governo em menos de dois anos, aprofundando a política surrada nas urnas. Tamanho desrespeito à vontade popular não surpreende em quem convocou para primeiro-ministro o Domingo Cavallo, cujo patrimônio eleitoral nas últimas eleições não passara de 10%.

A história se repete
A fantasiosa história da descoberta de antraz num avião do aeroporto do Rio, além de garantir mais alguns minutos de generosa exposição do ministro José Serra na mídia, pôs em evidência a deterioração do serviço público levada a cabo pela estadofobia do tucanato. Convocada a examinar a substância, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) vive a contraditória situação de ser considerada uma ilha de excelência pelo próprio governo que submete seus funcionários a um regime de faquir, congelando seus salários há sete anos. É a versão tucana do “Massacre de Manguinhos”, promovido pela ditadura, que, ao demitir em massa cientistas da instituição, privou o país de algumas das suas melhores cabeças.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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