Avaliações sobre a inflação de 0,42% de janeiro

Inflação de janeiro de 2024 veio acima do esperado, mas analistas não veem motivo para alterar projeção do IPCA para o ano

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O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou inflação de 0,42% em janeiro. Nos últimos 12 meses, o índice acumula alta de 4,51%, abaixo dos 4,62% observados nos 12 meses anteriores. Para entendermos melhor a inflação do mês passado, conversamos com quatro especialistas do mercado financeiro sobre suas avaliações.

Segundo o último boletim Focus, divulgado no dia 6, o mercado tem a expectativa de uma inflação de 3,81% para 2024. Para 2025 e 2026, a expectativa é de uma inflação de 3,50% para cada um desses dois anos.

Cecilia Machado, economista-chefe do Banco BOCOM BBM

A inflação de janeiro veio acima das projeções de mercado, e também da nossa, com surpresas concentradas em industriais e serviços, principalmente serviços subjacentes. Na parte de industriais, continuamos vendo devoluções de descontos praticados na Black Friday em alguns itens, enquanto outros, como duráveis, seguem em trajetória bem comportada. Em serviços subjacentes, uma medida que o Banco Central (BC) monitora de perto, a surpresa veio concentrada na categoria serviços bancários.

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Apesar dessas surpresas, mantemos a nossa projeção para 2024 em 3,80%. Essa projeção considera um cenário ainda positivo para bens industriais decorrente da normalização das cadeias produtivas, contudo, a resiliência da inflação de serviços, influenciada por fatores como o aumento do salário mínimo e do bom desempenho do mercado de trabalho, se mantém como ponto de atenção.

Jacques Zylbergeld, superintendente do Rendimento

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Jacques Zylbergeld (foto divulgação Banco Rendimento)

O IPCA de janeiro veio acima do esperado de 0,34%. A maior variação veio do grupo de Alimentação e bebidas, +1,38%, influenciada pela alimentação no domicílio, +1,81%, sendo esse o  segundo mês seguido em que esse grupo é o destaque de alta no índice. Segundo o IBGE, esse movimento se dá por conta das temperaturas altas e por conta das chuvas intensas em diversas regiões produtoras do país. Em segundo lugar ficou o grupo de Saúde e cuidados pessoais, 0,83%.

O grupo de Transportes teve queda de -0,65%, registrando quedas nas passagens aéreas, -15,22%, combustiveis, -0,39%, etanol, -1,55%, óleo diesel, -1,00%, e gasolina, -0,31%, enquanto o gás veicular registrou alta de 5,86%. A média dos núcleos acompanhados pelo BC arrefeceu de 4,32% para 4,23%.

Para 2024, os preços mais baixos das commodities tendem a favorecer a desinflação global e a contribuir na queda da nossa inflação, porém, a recente dinâmica da inflação de  serviços, com foco nos seus componentes subjacentes, deve estar mais pressionada durante o ano com o mercado de trabalho apertado. A nossa projeção para o IPCA em 2024 é de 3,90%.

Lucas Farina, analista econômico da Genial

O número cheio e os núcleos surpreenderam para cima. Os destaques foram para alimentação no domicílio e bens não duráveis. O número cheio de serviços veio próximo da estabilidade, mas muito por conta da influência negativa das passagens aéreas, já que o número do IPCA-15 se repete no IPCA.

Já as aberturas de serviços mostraram um quadro bem diferente, com serviços subjacentes acelerando de 0,51% para 0,76% no mês a mês e serviços diversos saindo de 0,29% para 0,48% no mês a mês. Esse repique na ponta de algumas métricas da inflação de serviços mostra que a alta de preços desses grupo ainda está rodando em patamares inconsistentes com a meta de inflação de 3,0%, e só deve dar a sua contribuição para o processo de desinflação quando a atividade econômica desacelerar mais.

Como implicação para a condução da política monetária por parte do BC, esse IPCA de janeiro é mais um dado a sugerir cautela quanto à conjectura de aceleração do ritmo de corte de juros. Nesse sentido, o BC deve manter o atual ritmo de 50 pontos-base de afrouxamento monetário, podendo ser forçado a encerrar esse ciclo de corte de juros com uma taxa Selic em território mais contracionista.

O comportamento mais favorável dos itens voláteis, como energia e alimentos, que foram os responsáveis por grande parte da surpresa positiva com a inflação em 2023, não deve se repetir em 2024. Na nossa opinião, a incapacidade desses itens em contrabalançar o preço ainda elevado dos serviços evidencia o risco que ainda paira sobre o processo de desinflação. Para 2024, a nossa expectativa é de um IPCA de 4,0%.

Roberto Carline, Estrategista-Chefe do Banco Sofisa

Ainda que o IPCA de janeiro tenha apresentando divergência em relação ao consenso de mercado, que tinha uma expectativa de 0,34%, e acumular nos últimos 12 meses 4,51% em termos reais frente a uma expectativa de 4,42% para o mesmo período, não vemos razões para preocupação nem relacionadas à própria evolução do ciclo de convergência do IPCA à meta de 3,00%, com tolerância para oscilar entre 1,50% e 4,50% e ainda assim ser considerada “dentro da meta”, tampouco para o ciclo de cortes de Selic, para a qual mantemos a visão de encerrar 2024 em 9,25% ao ano.

O principal ofensor para o IPCA de janeiro foi a variação de 1,38% do grupo de Alimentos e Bebidas, que domina o índice com 21,12% de participação, sendo que só esse item representa quase 70% dos 0,42% da inflação do último mês. Saúde e Cuidados Pessoais também tiveram elevações relevantes, mas foram balanceados pelo grupo de Transporte, segundo maior grupo na composição do índice, com 20,93% de participação, e que gerou deflação de 0,65%.

Apesar de sua relevância para o IPCA e sua variação em janeiro, não vemos um risco relevante a partir da inflação de Alimentos e Bebidas, uma vez que seu gatilho tende a ter comportamento sazonal e está no nosso mapa de risco: o efeito das mudanças climáticas sobre a cadeia da agropecuária, com o El Niño se fazendo presente de modo intenso no Brasil.

Acreditamos que a projeção apontada pelo boletim Focus, de que o IPCA encerre este ano acumulando variação entre 3,76% e 4,22%, muito justa, sendo que vemos um 1º semestre de inflação mais forte enquanto esperamos um arrefecimento no restante do ano, movimento que tende a ser beneficiado com a projetada convergência gradual dos núcleos de inflação em âmbito global.

Com isso, e com a expectativa do início do ciclo do corte de juros nos Estados Unidos em 1º de maio – nossa expectativa, com base na trajetória cadente da inflação norte-americana medida pelo PCE, que saiu de 7,7% ao ano em março de 2022 para 1,7% ao ano em dezembro de 2023 – ou 12 de junho, não vemos ameaças para a continuidade do ciclo de queda da Selic. Assim, mantemos uma visão benéfica de nossa economia e oportunidades no horizonte.

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