Avaliações sobre o PIB de 2022 e perspectivas para 2023

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O PIB (Produto Interno Bruto) do 4T22, na série com ajuste sazonal, fechou com uma variação negativa de 0,2%. A Agropecuária e os Serviços apresentaram variações positivas de 0,3% e 0,2%, respectivamente, enquanto a Indústria teve variação negativa de 0,3%.

No ano, o PIB cresceu 2,9%. Os serviços e a Indústria tiveram variações positivas de 4,2% e 1,6%, respectivamente, e queda de 1,7% na Agropecuária, totalizando R$ 9,9 trilhões com um PIB per capita de R$ 46.154,6, um avanço real de 2,2% comparado a 2021.

Conversamos com quatro economistas sobre suas avaliações sobre o PIB de 2022 e suas expectativas para 2023.

Bruno Mori, economista e sócio fundador da consultoria Sarfin

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O PIB do 4T22 veio em linha com a desaceleração esperada. No 1T22, tivemos um crescimento de 1,3%; no 2T22, crescimento de 0,9%, e no 3T22, crescimento de 0,2%. A mensagem que fica é que os juros altos estão servindo para desacelerar a economia. O ano de 2023 será super difícil, com juros altos e economia em desaceleração, com expectativa de crescimento muito menor, podendo ser menos da metade do crescimento de 2022. Contudo, isso depende do que vai ser feito com os juros.

Ocorre que não podemos olhar só para 2023. Qualquer movimento nos juros a partir de agora vai fazer efeito, como esperado, depois de seis meses. Dependendo de quando a taxa de juros começar a ser baixada, os efeitos serão sentidos apenas em 2024. Caso aconteça um processo desinflacionário um pouco mais rápido, podemos ver uma redução dos juros mais agressiva, com o consumo das famílias e setores, como indústria e serviços, reagindo com um pouco mais de força.

Existem outros temas que vão fazer essa conta variar. Os gastos do governo podem fazer bastante diferença, já que ele tem autorização para gastar mais neste ano. Isso pode trazer surpresas positivas.

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital

Em linhas gerais, o crescimento negativo da economia brasileira no último trimestre expõe algumas fraquezas da economia local, que abandona os impactos do final do represamento gerado durante a pandemia. Uma vez passados esses choques, a atividade doméstica se depara novamente com seus efeitos multiplicadores comprometidos em função de problemas antigos que impedem seu crescimento orgânico e sustentável, como uma taxa de juros inibidora de investimento privado, a combalida capacidade de consumo das famílias, reflexo do endividamento elevado e baixo nível de renda, assim como a exposição elevada a eventos de ordem internacional.

Essa dinâmica tende a prevalecer e deve ditar o ritmo da atividade doméstica nos próximos trimestres, com as expectativas atuais apontando para uma possível recessão técnica do país ao final do primeiro trimestre deste ano. No resultado acumulado, a projeção atual é de forte desaceleração do crescimento no comparativo anual, que dificilmente alcançará 1%.

Danilo Passos, economista da WHG

Nós tínhamos uma expectativa um pouco mais otimista com relação ao PIB do 4T22. Esperávamos uma alta de 0,10% no trimestre contra trimestre, mas veio uma queda de 0,20%.

A abertura desse dado veio mais ou menos como esperávamos. No lado da oferta, o setor do agro e de serviços tiveram contribuições positivas, sendo que a indústria contraiu. Ocorre que, principalmente no PIB de serviços, esperávamos uma alta mais intensa do que a registrada, o que explica em grande parte a surpresa para baixo que tivemos. Do lado da demanda, a abertura veio em linha com o que estávamos esperando. Tanto o consumo das famílias quanto do governo foi positivo, e a parte de investimento e de formação bruta de capital fixo jogou contra. O que chamou um pouco a atenção foram os estoques, que tiveram uma contribuição negativa pelo segundo trimestre consecutivo. Estoques são sempre uma variável mais difícil de se monitorar e de ser projetada.

Além disso, os números do 2T22 e do 3T22 tiveram algumas revisões pequenas para baixo. Quando essas revisões são somadas ao número um pouco abaixo do que esperávamos para o 4T22, a nossa expectativa de carry over, de efeito de carregamento estatístico de um ano para o outro, diminui bastante. Se as nossas projeções estivessem corretas, o carregamento de 2022 para 2023 poderia ser mais perto de 0,5%, mas, com os números divulgados, ele está perto de 0,2%. O fato do carry over ser mais fraco do que estávamos esperando coloca um viés de baixa na projeção que temos para esse ano.

Para 2023, a maioria dos fundamentos de crescimento de médio prazo no Brasil está enfraquecendo. A política monetária está num grau de aperto bastante relevante desde 2021, sendo que a alta dos juros tem um efeito defasado e demora um pouco mais para pegar na atividade. Nós achamos que isso vai acontecer com força neste ano. O crescimento global, que foi mais favorável em 2021 e 2022, não vai ser tão favorável em 2023. Os preços das commodities, que ajudaram bastante o crescimento em 2022, não devem ajudar tanto. O que pode ajudar a segurar um pouco a onda, principalmente no 1S23, é o PIB agrícola. Por exemplo, a soja, que foi mais fraca em 2022, deve voltar bem em 2023.

Quando pensamos no panorama mais geral para crescimento neste ano, achamos que é um PIB entre 0% e 0,5%. Dificilmente vai muito além disso com o conjunto de informações que temos até agora.

Juliana Inhasz, professora e coordenadora da graduação em economia no Insper

O PIB de 2022 veio dentro do esperado. Foi um bom crescimento, mas temos que analisar o contexto no qual esse número veio. Ele foi gerado dentro de uma economia com problemas estruturais e que precisa evoluir em diversos quesitos. Nós estamos falando de uma economia que cresceu 3% baseada em medidas que não se sustentam. Tivemos fatos extraordinários como do FGTS e do Auxílio Brasil, que são medidas que se baseiam em quase nada de crescimento de produtividade.

Isso é extremamente complicado, pois não vamos conseguir, nesse cenário, uma economia que cresça forte e de maneira sustentável. Tanto é que quando olhamos o 4T22, vemos que a economia encolheu. Isso porque as medidas que fizeram com que a economia crescesse já perderam toda a sua efetividade e eficácia. Essas medidas não conseguem fazer com que o Brasil vá de fato para frente. O resultado do 4T22 dá o tom do que vai ser 2023.

Neste ano, onde existem dificuldades evidentes, a economia brasileira vai crescer muito pouco. O crescimento pode até acontecer, mas ele terá que ser muito estimulado com medidas que são entendidas como não muito adequadas. Obviamente, essas medidas trazem um custo elevado de maneira social e que podem gerar processos inflacionários ao longo do tempo. Se realmente quiser crescer, o Brasil terá que tomar medidas mais estruturais e que sejam mais efetivas no curto, médio e longo prazo.

Coordenação: Jorge Priori

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