Aventura sem graça

No tempo da ditadura, era recorrente a piada de que o país estava à beira do precipício em 64 e, com o golpe de 31 de março, dera um passo à frente. O bom humor exibido, apesar das circunstâncias, não deixava de ser, embora essa não fosse a intenção original, um alerta de que nem sempre seguir em frente é o melhor caminho. Ou em outras palavras, de como seguir sem rumo pode representar um retrocesso cruel. No reinado tucano, alguns piadistas de então, esquecidos não apenas da sabedoria popular contida nas anedotas, mas, principalmente, dos compromissos verbalizados no passado, mostram com a insistência na privatização de Furnas que também querem dar um passo à frente.
Seria o vôo rumo ao blecaute como uma versão moderna do precipício. Algo do gênero como se a privatização das principais geradoras de energia, que combinou a suspensão dos investimentos estatais com investimento privado nenhum, já deu, no primeiro trimestre do ano passado, uma amostra do que nos espera, então, vamos fazer o serviço completo.
Especialistas estimam em 5% do PIB o investimento em energia necessário para o país crescer 1%, o que representa de R$ 30 bilhões a R$ 40 bilhões, variação explicável pelo uso alternativo do PIB maquiado do Banco Central ou o não anabolizado do IBGE.
Nem nas anedotas de salão alguém espera que os novos donos da energia cocem os bolsos para investir tal soma. Está aí orientação do governo para Petrobras e BNDES tocarem a construção de termelétricas, originalmente a cargo dos empreendedores privados, para desiludir mesmo os mais ingênuos.
A prevalecer a aventureira e irresponsável venda de Furnas para ajudar a fechar as contas dos compromissos com o FMI, o tucanato deveria mudar pelo menos a piada e avisar que o último a sair não vai sequer precisar apagar a luz.

Papéis caros
A relação entre preço e lucro das ações nas bolsas norte-americanas está em 22, abaixo do pico de 33 atingido em agosto de 2000 mas acima da média histórica de 15. A conta é do colunista do Financial Times Martin Wolf, que aponta que continua sobrevalorizado o mercado acionário dos EUA. Outro dado que comprova essa afirmação é a “razão Q”, valor que relaciona a avaliação das empresas nas bolsas de valores ao custo de substituição de seus ativos líquidos. Esta razão estava três vezes superior à sua média histórica; agora, ainda está duas vezes acima – nos níveis de 1929 e 1967, os dois picos do século 20.

Rio-Santos
As obras de reforma na rodovia BR-101, que irão envolver recursos da ordem de R$ 16 milhões, começam na próxima semana e com previsão de término para abril de 2001. A empreiteira Carioca de Engenharia ficará responsável pelas reformas que visam modernizar e restaurar o trecho de 60 quilômetros da Rio-Santos, entre Angra dos Reis e o vilarejo de Tarituba, em Paraty.  A reforma faz parte do convênio assinado entre o DNER e a Eletronuclear com o objetivo de cumprir os compromissos firmados no Plano de Emergência Externo (PEE), em caso de acidente nas usinas nucleares. O restante da rodovia, porém, continua esperando ampliação ou, pelo menos, reformas urgentes.

Colônia
Nesta segunda-feira, às 18h15, o Auditório da ABI será palco do debate “Alca: livre comércio ou dominação”. Entre os debatedores estarão o professor Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da UFRJ, os senadores Roberto Saturnino (PSB-RJ) e Geraldo Cândido (PT-RJ), além do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Diretor do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais (IPRI) do Itamaraty, Guimarães é autor e organizador de diversos livros sobre o tema (entre eles, Quinhentos Anos de Periferia) e tem procurado demonstrar que a proposta norte-americana conduz a América Latina à condição de produtora de bens primários, que caracterizou a região nos tempos de colônia.

Potencial
O presidente da Vasp, Wagner Canhedo, está otimista com o crescimento do mercado nacional de aviação: “Enquanto os Estados Unidos, maior economia do planeta, transportam ao ano três vezes a sua população, no Brasil não chegamos a transportar a sexta parte.” Canhedo garante que a companhia está revertendo todas as expectativas, apresentando os melhores números na sua atuação em 2000, com excelentes perspectivas para 2001 no mercado doméstico brasileiro.

Tirou daqui
O processo de transformação dos gerentes da Petrobras de coordenadores da engenharia e da produção em agentes financeiros passou por uma digamos, persuasiva, política salarial na gestão de Henri Philippe Reischstul. Depois de receberem aumento de 100%, contra 5% dos demais funcionários, os gerentes passaram a ostentar salários de até R$ 20 mil, contracheque, porém, que, para quem cai em desgraça com o chefe, pode minguar para menos de R$ 5 mil. Diante dessa política salarial, Reischstul ameaça transformar a principal empresa brasileira num bando de Múcios, o impagável personagem de Jô Soares que concordava com tudo que lhe era proposto pelo interlocutor.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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