Conversamos sobre o resultado do 3T25 da Axia, antiga Eletrobras, com Michel Bezerra, analista de research do Trix.
Qual a sua avaliação sobre o resultado do 3T25 da Axia?
A Axia apresentou um bom resultado no 3T25, mas para quem olha os números friamente, talvez isso seja um pouco anti-intuitivo. Isso porque a receita operacional líquida regulatória de R$ 9,9 bi teve uma queda de 4,8% em relação ao 3T24; o Ebitda regulatório ficou negativo em R$ 601 milhões, sendo que no 3T24 o resultado havia sido positivo em R$ 6,9 bilhões; e a última linha foi um prejuízo líquido de R$ 5,4 bilhões, quando no 3T24 o resultado havia sido um lucro líquido de R$ 7,1 bilhões. É por isso que quando se olha os números muito friamente, parece que o resultado do 3T25 foi penoso, mas é preciso entender um pouco o contexto e os vários fatores não recorrentes que acabaram sujando um pouco a comparação do 3T25 com o 3T24.
Olhando para a geração de receita, nós temos dois fatores. O primeiro foi a questão dos desinvestimentos feitos pela Axia ao longo de 2025, como a venda das termelétricas que a companhia tinha no Amazonas, movimento que estava em linha com a estratégia da companhia de possuir 100% dos ativos renováveis e de se tornar net zero até 2030. Como a companhia tem menos ativos gerando receita em 2025 do que em 2024, isso fez com que a sua receita fosse menor no período. O segundo foi a venda adicional de energia por parte da usina hidrelétrica do Tucuruí, ocorrida apenas no 3T24.
Descendo um pouco mais nos números, o principal fator que impactou o lucro líquido foi a questão da venda da Eletronuclear, vendida para a J&F, grupo controlador da JBS, por R$ 535 milhões. Essa venda gerou um prejuízo bem relevante de R$ 7,3 bilhões, mas ele foi puramente contábil, ou seja, sem efeito caixa. É importante lembrar que a Eletronuclear era um ativo complicado, deficitário, que não tinha uma boa rentabilidade e que tinha diversos passivos atrelados e necessidade de garantias da Axia. Por mais que esse prejuízo tenha sido incorporado neste trimestre, quando olhamos para a frente, a Axia não vai ter mais queima de caixa relacionada a Eletronuclear. Assim, com o valor da venda e das garantias liberadas, a ela pode fazer uma alocação de capital mais racional, gerando mais rentabilidade e valor para o acionista.
Além disso, no 3T24 houve uma concentração de concessões de linhas de transmissão que sofreram revisões tarifárias. Como essa base de ativos regulatórios cresceu e gerou uma contrapartida no DRE, isso contribui para o lucro do período. Para que possamos materializar o que estou dizendo, enquanto a remensuração da base de ativos regulatórios gerou um valor positivo de R$ 6,1 bilhões no 3T24, no 3T25 o resultado foi de apenas R$ 303 milhões.
Como esses fatores não recorrentes complicaram um pouco a análise do balanço, a maneira mais simples de olhar a companhia é analisar, efetivamente, a sua geração de caixa. A Axia teve R$ 4,9 bilhões de fluxo de caixa livre no 3T25, com um crescimento de quase 6% em relação ao 3T24. Como a companhia teve uma forte geração de caixa com menos ativos, isso mostra que ela fez o certo ao vender ativos não core que impactavam margem e rentabilidade. Inclusive, foi isso que possibilitou à companhia pagar os dividendos bem gordos de R$ 4,3 bilhões no 3T25, totalizando R$ 8,3 bilhões no ano.
Como você avalia o desempenho da Axia?
A Axia tem um desempenho positivo, principalmente quando olhamos tudo o que foi feito desde a sua privatização em 2022. A companhia simplificou a sua estrutura, fazendo uma reorganização societária, que incorporou Furnas, e vendendo ativos, como as termelétricas do Amazonas, a Eletronuclear e a sua participação minoritária na Emae, que foi comprada pela Sabesp. A Axia também implementou programas de PDV para reduzir o legado de pessoas que vinham da sua época de estatal. Por fim, o principal ponto, que inclusive mudou o desempenho da companhia na Bolsa, foi o acordo com o Governo Federal referente às suas demandas para que ele tivesse uma maior participação na companhia. Esse acordo foi concluído com a participação do governo federal limitada ao poder de voto de 10%, assim como estava previsto.
Quando sai um resultado da Axia, quais são os primeiros números que você analisa?
É sempre importante dar atenção à parte operacional, ou seja, quanto foi gerado de energia, quais foram os preços de venda dessa energia, se a venda foi mais focada no mercado livre ou no mercado regulado, a operação da companhia no trading de energia, e se ela ainda tem muita energia descontratada para os próximos anos para que se possa analisar a sua exposição à volatilidade do preço de energia mais a frente. Também é importante entender o que a companhia está conseguindo destravar em termos de melhoria de custos e de despesas, e analisar os investimentos para entender como vai ser o seu fluxo de caixa livre e o que realmente vai estar disponível para ser repassado aos acionistas em termos de dividendos.
Onde a Axia faz o seu resultado?
A geração de energia é responsável por 60% da receita da Axia, que possui uma capacidade instalada de 44 GW, 18% da capacidade total do Brasil, sendo que boa parte da capacidade da Axia, 42,3 GW, vem de usinas hidrelétricas. A transmissão é responsável pelos outros 40% da receita, com a Axia tendo 74 mil quilômetros de linhas de transmissão, o que representa 37% da extensão total do Brasil. Esses números mostram porque a Axia é a maior companhia de energia da América Latina.
Qual a sua avaliação sobre o endividamento da Axia?
Atualmente, a companhia está negociando em torno de duas vezes a dívida líquida/Ebitda, um número bastante baixo para uma empresa do setor de utilidade pública, principalmente do setor elétrico, que é mais previsível. Dessa forma, a Axia teria mais espaço para se alavancar, ou seja, se ela quisesse, ela poderia pagar mais dividendo ou fazer mais investimentos.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho das ações da Axia?
Para que eu possa responder essa pergunta, é interessante olharmos duas janelas, sendo a primeira desde a privatização, ocorrida em junho de 2022, e a segunda mais curta, apenas 2025.
Na primeira janela, a ação ordinária da Axia teve uma valorização, já considerando o pagamento de dividendos, de 57%, e a ação preferencial, 83%. A valorização maior da preferencial está muito ligada ao carregamento de dividendos, já que ela paga 10% a mais que a ação ordinária. Como nesse período o Ibovespa teve uma valorização de 51%, nós vemos que a ação ordinária teve uma leve performance acima, e que a ação preferencial, bem acima, mas quando olhamos a performance do setor, percebemos que a ação, praticamente, desempenhou em linha. Por exemplo, se utilizarmos como uma proxy de desempenho do setor o Índice de Utilidade Pública, esse índice teve uma valorização de 84% desde a privatização da Eletrobras, performance muito parecida com a valorização de 83% da ação preferencial, o que nos permite dizer que, mesmo com a privatização, não houve um destravamento de valor relevante para a Axia.
O fato desse movimento de destravamento não ter ocorrido pode ser explicado pelas incertezas que haviam em relação ao governo, principalmente às suas demandas. Por exemplo, no atual governo foi muito comentada a possibilidade de reestatização da companhia, além da busca por mais poder de voto e mais assentos no conselho, o que gerava uma aversão de risco por parte dos investidores, mas a partir do momento em que saiu o acordo entre governo e Axia, a ação passou a ter uma performance bem diferente. Em 2025, a ação ordinária está subindo 82%, e a ação preferencial, 71%, bem acima do Índice de Utilidades Públicas, 55%, e do Ibovespa, 28%. O que se pode concluir é que, depois que o prêmio de risco vinculado ao governo foi retirado, a Axia passou a ter uma performance acima do Ibovespa e dos seus pares de mercado.
Qual a sua avaliação sobre o valor da ação da Axia?
Por mais que a Axia esteja começando a destravar valor, eu acredito que a companhia ainda tem muito valor a ser destravado, principalmente quando se vê que a sua geração de caixa vai continuar forte. Claro, isso vai depender muito das oportunidades que vão surgir em termos de investimentos para a companhia, como leilões de transmissão, de reserva de capacidade e de baterias, que é algo novo no setor, mas que ela tem interesse em entrar. De qualquer maneira, a Axia tem muito valor a ser destravado, seja por meio de pagamento de dividendos, seja por futuras alocações de capitais mais rentáveis.
Ou seja, mesmo com a valorização do papel, ainda há espaço para entrar.
Ainda há espaço para entrar, pois a companhia ainda tem um caminho para trilhar em termos de valorização. Como disse, desde a privatização, a Axia não destravou valor em relação aos seus pares.
Qual a sua avaliação sobre o payout e o dividend yield da Axia?
A minha avaliação é bastante positiva. No 3T25, o dividend yield ficou em torno de 3,4%, e se somarmos o ano como um todo, esse valor fica em 6%, 7%, sendo que para o próximo ano, já se fala em projeções chegando a duplo dígito baixo. Dependendo das oportunidades de investimento, a Axia pode pagar bastante dividendo e entregar um dividend yield elevado.
Como você está vendo as perspectivas da Axia?
As perspectivas são bastante positivas, mesmo que a companhia não faça tantos investimentos para a frente, mas pague bastante dividendos. Com relação às oportunidades, como disse, vai haver vários leilões no próximo ano. Além disso, a Axia pode melhorar a sua estrutura societária, quem sabe entrando para o Novo Mercado. Enfim, a Axia pode fazer muita coisa para destravar seu valor, seja em termos financeiros e econômicos, seja em termos de governança e de transparência com o mercado.

















