Baixar as cartas

Além de precipitada, soa reveladora a tentativa de inversão de papéis em relação às gravíssimas denúncias de ACM contra o governo do presidente FH. A própria iniciativa de insinuar a existência de uma ampla frente contra o senador revela, tanto inconsistência -face o grau de antagonismo entre os integrantes escalados involuntariamente para compô-la – como o tamanho do estrago causado pelo golpe vindo da luta intestina do governismo.
A mistura de fatos de grandezas e naturezas distintas não passa de frágil cortina de fumaça incapaz de remover o fato mais relevante: um dos braços direitos do sistema fez insinuações, acusações e ameaças gravíssimas contra o coração do poder. Diante desse quadro, não existe saída real que não a apuração profunda das denúncias apresentadas. Somente o desmentido cabal fornecido por uma CPI do Congresso, dotada de ampla autonomia, garantirá alguma legitimidade ao fim do mandato da atual administração.
Qualquer tentativa de bloquear as investigações resultará em tiro pela culatra, capaz de ferir de morte os autores de tais manobras. Tudo isso dependente, obviamente, de que, ao menos uma vez, ACM revele disposição para substituir o blefe, comum nas rodas de pôquer que costuma freqüentar, pela exibição de cartas que fazem a diferença entre a retórica e o mundo real.

Oportunidade
O deputado Vivaldo Barbosa (PDT-RJ) iniciou a coleta de assinaturas de
deputados e senadores para instalação de uma CPI mista para investigar as denúncias do ex-presidente do Senado Antônio Carlos Magalhães sobre o ex-secretário particular do presidente FH Eduardo Jorge. A base do requerimento está nas declarações de ACM que apontam ser preciso verificar a movimentação financeira de Eduardo Jorge entre 1994 e 1998. Está aí uma boa chance para ACM mostrar o verdadeiro tamanho da sua tropa e sua real disposição para dar conseqüência a suas denúncias.

Pela vida
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) encaminhou ofício
à Organização Mundial do Comércio (OMC) condenando a ação dos Estados Unidos
contra a lei brasileira de patentes. A pedidos dos grandes laboratórios multinacionais, os EUA querem revogar o dispositivo da lei que permite ao Brasil autorizar o licenciamento compulsório de medicamento quando os detentores da patente praticam
abusos econômicos. Esse mecanismo assegura, por exemplo, que a Fundação Oswaldo Cruz possa tornar o Brasil o primeiro país em desenvolvimento com acesso garantido ao tratamento da Aids para todos os seus cidadãos.
O Idec afirma que, se impedir que os governos dos países em desenvolvimento de adotem políticas de licenciamento compulsório, importação paralela ou uso público
não comercial – únicos caminhos para garantir medicamentos vitais aos
portadores do vírus HIV – a OMC será co-responsável pela morte de até 30
milhões de pessoas que sofrem de Aids, bem como milhões de vítimas de
outras doenças que requerem medicamentos sob patente.

Pela vida II
A posição do Idec foi apoiada por cerca de 200 organizações de
consumidores de 116 países, que participaram do XVI Congresso Mundial de
Consumers International, em Durban, na África do Sul, em novembro passado
2000. Na África do Sul, um em cada três cidadãos é infectado pelo vírus HIV,
constituindo-se uma provável vítima fatal da doença caso os abusos de poder
econômico e patente por empresas farmacêuticas persistam, acusa o Idec.

Enredo
A atuação social em benefício de suas comunidades pesou na hora de a Varig Log decidir patrocinar as escolas de samba Mangueira e Beija-Flor no desfile do carnaval carioca. A empresa não informa quanto investiu no patrocínio, mas irá distribuir 20 mil bandeirolas, seis mil balões e 40 mil folhetos com as letras dos sambas. Os responsáveis por empurrar os carros alegóricos utilizarão macacões com a marca da Varig Log.

Contramão
As autoridades de trânsito do estado e da prefeitura precisam explicar ao contribuinte que estranho privilégio permite que a carreta placa do Rio de Janeiro BWM-1979 tenha transformado o trecho da Rua Benedito Hipólito perto da esquina com a Rua do Santana num ponto para descarregar carros da Renault, tumultuando ainda mais o tráfego na área.

Helo!
Além das pressões para acelerar a implantação da Alca, as recentes batalhas do Brasil com o Canadá também refletem a venda de telefones celulares da canadense Bell para o mercado brasileiro. Hoje as exportações desses aparelhos para o Brasil chegam US$ 170 milhões por ano, mas a companhia acredita que possa vender até US$ 2 bilhões.

Nas nuvens
A mudez no DNER parece não se restringir à falta de respostas às acusações de ACM sobre supostas irregularidades no órgão. Quem acessou o site do órgão – www.dner.gov.br – na véspera do carnaval para obter informações sobre as condições das estradas do Rio de Janeiro se deparou com a informação de que a última atualização da página fora feita em 8 de fevereiro. Quem se dirigia à Niterói-Manilha, por exemplo, era informado que o tráfego naquela estrada estava “normal”. Provavelmente, tão normal quanto o ambiente no Planalto após a entrevista de ACM à IstoÉ.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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