

A balança comercial brasileira encerrou março de 2026 com superávit de US$ 6,4 bilhões, com as exportações crescendo 10% em relação a março de 2025, sustentadas por um salto expressivo nas vendas de petróleo bruto. As importações avançaram o dobro (20,1%). Com isso, o saldo comercial ficou 17,2% abaixo do obtido em março de 2025. No acumulado do primeiro trimestre, o superávit chega a US$ 14,2 bilhões, com exportações de US$ 82,3 bilhões (+7,1% na comparação anual) e importações de US$ 68,2 bilhões (+1,3%).
Além do destaque para as exportações de petróleo, que cresceram 75,9% em volume, mas caíram 3,1% em preço por tonelada, chama atenção a mudança estrutural nas importações. “As importações da Coreia do Sul dispararam 41,7% no mês e impressionantes 194,4% no acumulado do trimestre, puxadas por veículos elétricos e semicondutores. As compras da China cresceram 32,9%”, ressalta Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay.
“Em contrapartida, as importações dos Estados Unidos caíram 6,3% no mês e 11,1% no trimestre (redução de US$ 1,1 bilhão), em sinal claro de substituição de fornecedores, acelerada pelo ambiente tarifário criado pelo governo Trump e pelo redirecionamento de cadeias que o conflito geopolítico reforçou”, analisa Benedito.
A economista destaca que o padrão geográfico das exportações reforça a narrativa de reconfiguração global. As vendas para a China cresceram 17,8% em março (alta de US$ 1,6 bilhão) e 21,7% no acumulado do trimestre (mais US$ 4,3 bilhões), “consolidando de vez a assimetria na dependência do Brasil em relação ao parceiro asiático”.
A Índia surpreendeu com alta de 108,2% (US$ 500 milhões) em março, posicionando-se como destino emergente relevante para proteínas, grãos e minérios. Em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderou uma comitiva governamental e de empresários à Índia. A África avançou 27,9%, com Egito e Nigéria entre os maiores crescimentos.
As vendas para os Estados Unidos seguem em trajetória de queda: retração de 9,1% em março e de 18,7% no trimestre (queda de US$ 1,8 bilhão acumulados). “Essa retração tem componentes de demanda, mas também de política comercial. Qualquer escalada adicional nas tensões tarifárias entre Brasil e EUA representaria um vetor de risco relevante para a balança no segundo semestre”, afirma a economista.
Em março, as exportações para a União Europeia cresceram 7,3%; no primeiro trimestre, houve alta de 9,7%, totalizando US$ 12,23 bilhões. As importações cresceram 14,9% no mês, mas caíram 2,2% no trimestre, fechando em US$ 11,61 bilhões.
Mercado interno aquecido puxa importações
O efeito líquido do petróleo sobre o saldo da balança comercial de março foi de US$ 1,85 bilhão. “Sem esse impacto, o superávit do mês seria de apenas US$ 4,55 bilhões, resultado modesto para um março historicamente forte. Isso evidencia o quanto o resultado de março foi não recorrente e dependente de um fator externo específico: o redirecionamento de carregamentos de petróleo numa janela de curto prazo determinada pela geopolítica”, analisa Ariane Benedito.
Além do petróleo, outros produtos contribuíram para o crescimento das exportações. O ouro não monetário avançou 92,7%, beneficiado pela busca por ativos de proteção num ambiente de incerteza geopolítica. A venda carne bovina cresceu 29%, aproveitando a demanda asiática e europeia. Aeronaves registraram alta de 60,8%, e veículos de passeio exportados avançaram 25,6%.
Nas commodities agrícolas. Houve recuo de 30,5% nas exportações de café e de 24,7% nas de açúcar. A venda de soja cresceu modestamente (+4,3%), dentro do esperado para o início da janela de embarques.
O salto de 20,1% nas importações tem dois motores principais, explica Benedito. Além da reestruturação das cadeiras de suprimentos, há a questão cíclica: a economia brasileira opera com mercado de trabalho em mínimas históricas de desemprego, crédito em expansão e consumo das famílias ainda resiliente, o que puxa compras de veículos (alta de 204,2%), medicamentos (+72,2%) e insumos industriais.
“Com base no acumulado observado (US$ 14,2 bi no trimestre) e nas tendências setoriais identificadas, as nossas estimativas apontam para um saldo de US$ 70 bilhões no fechamento de 2026. Esse intervalo converge com a primeira previsão oficial do Mdic publicada hoje [terça-feira] (US$ 72,1 bilhões), o que confere consistência ao cenário”, finaliza a economista-chefe do PicPay.
















