Balança comercial se move para Ásia e África e se afasta dos Estados Unidos

Importações da Coreia do Sul quase triplicam e da China crescem 33%, enquanto exportações para a Índia dobram.

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Foto aérea mostra terminal de contêineres do Porto de Nanjing, na Província de Jiangsu, no leste da China
Foto aérea mostra terminal de contêineres do Porto de Nanjing, na Província de Jiangsu, no leste da China, em 16 de abril de 2025. (Xinhua/Fang Dongxu)

A balança comercial brasileira encerrou março de 2026 com superávit de US$ 6,4 bilhões, com as exportações crescendo 10% em relação a março de 2025, sustentadas por um salto expressivo nas vendas de petróleo bruto. As importações avançaram o dobro (20,1%). Com isso, o saldo comercial ficou 17,2% abaixo do obtido em março de 2025. No acumulado do primeiro trimestre, o superávit chega a US$ 14,2 bilhões, com exportações de US$ 82,3 bilhões (+7,1% na comparação anual) e importações de US$ 68,2 bilhões (+1,3%).

Além do destaque para as exportações de petróleo, que cresceram 75,9% em volume, mas caíram 3,1% em preço por tonelada, chama atenção a mudança estrutural nas importações. “As importações da Coreia do Sul dispararam 41,7% no mês e impressionantes 194,4% no acumulado do trimestre, puxadas por veículos elétricos e semicondutores. As compras da China cresceram 32,9%”, ressalta Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay.

“Em contrapartida, as importações dos Estados Unidos caíram 6,3% no mês e 11,1% no trimestre (redução de US$ 1,1 bilhão), em sinal claro de substituição de fornecedores, acelerada pelo ambiente tarifário criado pelo governo Trump e pelo redirecionamento de cadeias que o conflito geopolítico reforçou”, analisa Benedito.

A economista destaca que o padrão geográfico das exportações reforça a narrativa de reconfiguração global. As vendas para a China cresceram 17,8% em março (alta de US$ 1,6 bilhão) e 21,7% no acumulado do trimestre (mais US$ 4,3 bilhões), “consolidando de vez a assimetria na dependência do Brasil em relação ao parceiro asiático”.

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A Índia surpreendeu com alta de 108,2% (US$ 500 milhões) em março, posicionando-se como destino emergente relevante para proteínas, grãos e minérios. Em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderou uma comitiva governamental e de empresários à Índia. A África avançou 27,9%, com Egito e Nigéria entre os maiores crescimentos.

As vendas para os Estados Unidos seguem em trajetória de queda: retração de 9,1% em março e de 18,7% no trimestre (queda de US$ 1,8 bilhão acumulados). “Essa retração tem componentes de demanda, mas também de política comercial. Qualquer escalada adicional nas tensões tarifárias entre Brasil e EUA representaria um vetor de risco relevante para a balança no segundo semestre”, afirma a economista.

Em março, as exportações para a União Europeia cresceram 7,3%; no primeiro trimestre, houve alta de 9,7%, totalizando US$ 12,23 bilhões. As importações cresceram 14,9% no mês, mas caíram 2,2% no trimestre, fechando em US$ 11,61 bilhões.

Mercado interno aquecido puxa importações

O efeito líquido do petróleo sobre o saldo da balança comercial de março foi de US$ 1,85 bilhão. “Sem esse impacto, o superávit do mês seria de apenas US$ 4,55 bilhões, resultado modesto para um março historicamente forte. Isso evidencia o quanto o resultado de março foi não recorrente e dependente de um fator externo específico: o redirecionamento de carregamentos de petróleo numa janela de curto prazo determinada pela geopolítica”, analisa Ariane Benedito.

Além do petróleo, outros produtos contribuíram para o crescimento das exportações. O ouro não monetário avançou 92,7%, beneficiado pela busca por ativos de proteção num ambiente de incerteza geopolítica. A venda carne bovina cresceu 29%, aproveitando a demanda asiática e europeia. Aeronaves registraram alta de 60,8%, e veículos de passeio exportados avançaram 25,6%.

Nas commodities agrícolas. Houve recuo de 30,5% nas exportações de café e de 24,7% nas de açúcar. A venda de soja cresceu modestamente (+4,3%), dentro do esperado para o início da janela de embarques.

O salto de 20,1% nas importações tem dois motores principais, explica Benedito. Além da reestruturação das cadeiras de suprimentos, há a questão cíclica: a economia brasileira opera com mercado de trabalho em mínimas históricas de desemprego, crédito em expansão e consumo das famílias ainda resiliente, o que puxa compras de veículos (alta de 204,2%), medicamentos (+72,2%) e insumos industriais.

“Com base no acumulado observado (US$ 14,2 bi no trimestre) e nas tendências setoriais identificadas, as nossas estimativas apontam para um saldo de US$ 70 bilhões no fechamento de 2026. Esse intervalo converge com a primeira previsão oficial do Mdic publicada hoje [terça-feira] (US$ 72,1 bilhões), o que confere consistência ao cenário”, finaliza a economista-chefe do PicPay.

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