Balanço do ano de 2000

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O Brasil vivencia a mais grave crise da história da pátria. Apesar de possuirmos inúmeras condições para sermos uma das potências mundiais emergentes do terceiro milênio, ao lado da China, falta principalmente vontade política para concretizarmos tal objetivo. As nossas administrações têm sido impostas através do uso intenso da mídia amestrada, que só expõe positivamente os candidatos patrocinados pelo sistema financeiro, bem como pela manipulação dos resultados dos institutos de pesquisa de opinião pública. A atual administração escolheu, de início, uma forma de inserção dependente e não soberana no mercado internacional. Não temos independência na condução de nossos destinos, pois houve o rígido enquadramento no modelo determinado pelo FMI, o qual não foi bem sucedido em nenhum país do mundo que o tenha adotado. A Malásia, que rompeu com este sistema, é um dos países que tem obtido maiores índices de crescimento do produto real.
Na expressão política, não encontramos partidos que possuam as condições para exercer o seu papel principal de intermediários entre o povo e o governo, com raras exceções. Não possuem ideário, tábua de valores, doutrina, princípios programáticos bem definidos. Na realidade, o seu verdadeiro objetivo é assumir o poder, não como um meio para alcançar os objetivos nacionais permanentes, mas sim como um fim para auferir benesses. A Nação foi dividida em “capitanias hereditárias”, onde cada estado é dominado por um “cacique” ou por uma plutocracia, combinando não só o poder político, como o econômico e o controle dos meios de comunicação de massa. Desta forma, são imbatíveis eleitoralmente falando, perpetuando-se no poder e transmitindo-o de pai para filho (a), ao longo dos tempos. O Poder Executivo legisla por intermédio de medidas provisórias, usurpando a função do Poder Legislativo e procurando controlar o Judiciário, configurando uma verdadeira ditadura constitucional monolítica. E o sistema já está preparando a figura do sucessor, através da apresentação de dois ou três candidatos que, apesar de aparentemente independentes e de oposição, servem aos mesmos interesses, os da trilateral e de seu representante nas Américas, o Diálogo Interamericano e, em conseqüência, ao Consenso de Washington.
Na expressão econômica, as previsões mais otimistas apontam um crescimento da economia em menos de 4% em 2000, após um ano de estagnação econômica. A atual administração persiste na tresloucada idéia de privatização selvagem, em atendimento aos interesses externos. Nossas principais riquezas e empresas continuam a ser “doadas” a preços aviltantes, aos alienígenas. Nossa infra-estrutura econômico-social continua sendo destruída. As comunicações já foram entregues. Os preços sobem alucinadamente e os serviços pioram. O transporte, em grande parte sob o regime de concessão ou permissão, é um setor onde os empresários privados atuam em cartéis, dominando o mercado e livres de uma efetiva fiscalização. As principais rodovias e estradas vão sendo privatizadas e seus felizes concessionários cobram pedágios extorsivos. Até os aeroportos estão ameaçados de privatização. O problema é que, continuando o mesmo padrão dos outros setores, vão ocorrer falhas graves. A diferença é que, ao invés do estrago de um eletrodoméstico, vão começar a cair aviões, com centenas de vidas em jogo. A energia também está sendo entregue. A distribuição já foi. Agora, querem “doar” a geração e transmissão, esta última quando e se for lucrativa. E os estrangeiros que, é lógico, serão os compradores, não estão interessados em investir. Querem comprar, com recursos do BNDES, o que está pronto e lucrar, demitindo funcionários, aumentando preços e deteriorando serviços. Os combustíveis vão subir de novo. A dívida interna ultrapassa R$ 500 bilhões e a dívida externa chega a US$ 240 bilhões. Só de juros da dívida o país deve pagar, no presente ano, cerca de R$ 80 bilhões. O déficit público nominal ultrapassa 8% do PIB e o saldo em transações correntes será deficitário em torno de US$ 26 bilhões. Os índices oficiais de inflação não refletem a realidade diária. O IPCA ultrapassa, nos doze últimos meses, a meta de 6 % de taxa de inflação ao ano fixada com o FMI
Na expressão psicossocial, o desemprego continua elevado, em torno de 17,3 % da população economicamente ativa (PEA), segundo o Dieese. O Brasil possui atualmente cerca de 12 milhões de trabalhadores desempregados ou parcialmente desocupados. A saúde pública é sucateada ao paroxismo. Não há dúvida de que é a preparação para a privatização. Atualmente, quem não tem um plano particular de saúde está condenado à indigência. Está fadado à morte, sem assistência médica adequada, sem dignidade. E quem tem, apenas passou a ter aquilo que todos nós possuíamos anteriormente. Assistência médica de razoável categoria. A educação pública também está sendo sufocada, com verbas cada vez menores, para permitir a expansão do ensino privado. O ministério da Educação utiliza critérios altamente questionáveis para avaliação dos cursos e das entidades de ensino superior. A insegurança cresce avassaladoramente. E os “policiológos” de plantão, ligados a ONGs internacionais e nacionais, como o Viva Rio, procuram soluções esdrúxulas, como o desarmamento dos cidadãos dignos e de bons costumes, ao invés de reduzir a criminalidade. A Previdência pública está sendo aniquilada, para permitir o domínio do setor pela iniciativa privada.
Na expressão militar, o sucateamento imposto às Forças Armadas, os baixos salários e a crescente perda de sua capacidade operacional, em conjunto com a criação do ministério da Defesa, impossibilita-as, na prática, de cumprir suas missões constitucionais, como a manutenção da integridade do patrimônio nacional. A Amazônia corre sério risco de internacionalização e nossas Forças Armadas não têm condições de, numa guerra convencional, mantê-las, segundo declarações de seu ex-comandante.
Esta é a análise possível de ser feita, com um mínimo de critério, isenção e imparcialidade, ao final deste ano. Contudo, nem tudo está perdido. O bravo povo brasileiro cansou de dar provas concretas, no passado, da sua capacidade de superar condições adversas, ultrapassá-las e retomar o caminho inexorável do desenvolvimento e da segurança, capazes de levá-lo a atingir a ordem e o progresso, a fim de ser a potência do terceiro milênio.

Marcos Coimbra
Professor Titular de Economia na Universidade Candido Mendes, Professor na Uerj e Conselheiro da ESG. Correio eletrônico: [email protected]. Site: www.brasilsoberano.com.br.

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