Banco Mercantil (BMEB4): resultado do 3T25, ROAE e perspectivas

Segundo Lucas Mello, apesar da valorização das ações do Banco Mercantil registrada em 2025, há espaço para se posicionar no papel.

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Lucas Mello, gestor de ações da Brasil Horizonte
Lucas Mello, gestor de ações da Brasil Horizonte (foto divulgação)

Conversamos sobre o resultado do 3T25 do Banco Mercantil com Lucas Mello, gestor de ações da Brasil Horizonte.

Qual a sua avaliação sobre o resultado do 3T25 do Banco Mercantil?

O resultado do 3T25 confirmou o excelente momento do Banco Mercantil. O banco registrou lucro líquido recorde de R$ 254 milhões, crescimento de 26% em relação ao 3T24 e um ROAE de 45% contra 41% no mesmo período do ano anterior, além de ter alcançado o 12º trimestre consecutivo de alta no lucro líquido. Entre os bancos listados em Bolsa, o ROAE do Banco Mercantil é raríssimo, mas traduz, perfeitamente, o que a sua gestão está entregando, um nível de eficiência operacional bastante elevado, uma disciplina de custos bem descritiva, que é o grande motor da alavancagem operacional do banco, e a capacidade de escalar o negócio sem ter que elevar o risco e a inadimplência.

O grande motor do resultado continua sendo a carteira do crédito consignado, que avançou 44% nos últimos 12 meses e chegou a quase R$ 15 bilhões. Esse salto foi impulsionado, em grande parte, pelo próprio mercado e pela suspensão dos contratos da Crefisa com o INSS, que levou essa base de beneficiários para dentro do Banco Mercantil a custo zero. Mesmo crescendo a um ritmo elevado, o banco mantém uma inadimplência acima de 90 dias abaixo de 3%, um nível saudável e bem inferior à média, tanto do mercado quanto do Sistema Financeiro Nacional.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho do Banco Mercantil?

O Banco Mercantil vive hoje uma fase de plena maturidade operacional. O banco atingiu um raro nível de eficiência digital entre os bancos médios, com cerca de 80% da originação de crédito sendo feita por canais digitais, como aplicativo, WhatsApp e o próprio assistente virtual do banco. Além disso, o banco adicionou sessenta e uma agências a sua rede física, voltada para o primeiro contato regulatório com os beneficiários do INSS. Essa combinação é bastante poderosa, pois enquanto o digital garante escala, custo baixo e CAC reduzido, o atendimento presencial preserva a proximidade com os clientes do banco, composto pelo público 50+. O resultado é um modelo com funding barato, alta fidelização e margem consistente, sem contar com a barreira de entrada formada pelo elevado número de agências do banco.

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No mercado, o Banco Mercantil já se consolidou como o quinto maior pagador de benefícios do INSS no Brasil, cuja base é formada por cerca de 39 milhões de beneficiários. Essa é uma vantagem competitiva enorme, pois o banco conhece profundamente esse setor e o seu público, formado por aposentados e pensionistas que possuem uma renda estável, perfil conservador e baixa inadimplência.

Para que você tenha um parâmetro, a originação do crédito pessoal do banco saiu de 39% no 3T23 para 85% no 3T25, ou seja, o Banco Mercantil é um banco tradicional que se adaptou às novas tecnologias. O mais interessante é que a digitalização não afastou os clientes do banco, pelo contrário, pois a tecnologia foi adaptada para o público 50+, o que tornou o processo mais simples, intuitivo e com um caráter um pouco mais humanizado.

Quando sai um resultado do Banco Mercantil, quais são os primeiros números que você analisa?

Como um banco é diferente de uma empresa, os primeiros números são o lucro líquido e o ROAE. Eu pego esses dois pontos logo de cara para medir quanto o banco gera de dinheiro nominalmente e quanto esse valor gera de retorno sobre o capital investido. Por exemplo, o ROAE de 45% do Banco Mercantil indica que o banco vem extraindo muito valor para cada real de patrimônio investido nele mesmo. Cabe destacar que se fizermos uma média do mercado, o ROAE do Banco Mercantil é quase o dobro da média dos outros bancos.

Os demais números analisados são a carteira de crédito consignado do banco, sendo que mais de 80% dessa carteira é formada pelo consignado INSS e pelo FGTS antecipado; o custo de funding, que é extremamente competitivo, e a inadimplência, que no caso do Banco Mercantil é mais controlada, já que as principais linhas de crédito são colateralizadas.

Quando você analisa um banco, você sempre começa pelo lucro líquido e pelo ROAE?

Eu sempre começo com lucro líquido e pelo ROAE, que, particularmente, eu considero mais importante. Isso porque um banco que consegue performar um crescimento de lucro acima da Selic e um ROAE que pague o custo de capital dos acionistas, é excelente. Neste setor, isso acaba sendo uma regra para todos os bancos.

Em termos de análise comparativa, o Banco Mercantil pode ser comparado a quais bancos?

O Banco Mercantil pode ser comparado com outros bancos médios, como Banrisul, Daycoval, Banco Pan e Bmg, mas a diferença é o seu ROAE, que reflete um modelo de nicho mais eficiente com um custo de risco um pouco menor. O Banco Mercantil enfrenta a concorrência de bancos de médio porte especializados em crédito consignado, como o próprio Bmg e o Banco Pan, mas esses são bancos mais amplos, diversificados e menos nichados. Recentemente, essa competição se acirrou um pouco com a entrada das fintechs e seus modelos asset light, mas a estratégia voltada para agências físicas pode contribuir contra esse tipo de concorrência.

O Banco Mercantil foca muito em Minas ou ele consegue trabalhar fora de Minas?

Existe a impressão de que o Banco Mercantil é mineirinho, mas ele já está no Brasil inteiro. O banco possui agências em praticamente todos os estados brasileiros e vem aumentando a sua capilaridade nacional. Toda a campanha de marketing envolvendo o Roberto Carlos trouxe um apelo para o banco de que ele está focado no nicho 50+, não só no Sudeste, mas ao longo de todo o Brasil. Um ponto importante é que a expansão nacional do Banco Mercantil está muito equilibrada entre a parte física, as agências, e a parte digital. Nesse consolidado, o Banco Mercantil se tornou um banco nacional, tanto que ele é o quinto maior pagador de beneficiários do INSS, brigando com os grandes bancos do país.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho das ações do Mercantil?

O Banco Mercantil ainda negocia com desconto em relação à qualidade do ativo. Mesmo após a forte valorização de 2025, o banco opera com um preço/lucro estimado para o final do ano de 6x, enquanto entrega um ROAE de 45%. Como havia um grande descolamento em relação aos seus pares do mesmo porte, o mercado passou a reprecificar o banco. Vale ressaltar que o crescimento do preço da ação acompanhou, puramente, o lucro e o resultado que o banco vem entregando. Para que tenhamos uma ideia, em 2020/2021, o Banco Mercantil entregou, por trimestre, um lucro na casa de R$ 50 milhões, sendo que no 3T25 o lucro foi de R$ 250 milhões, o que vem chamando a atenção do mercado.

Além do banco possuir um alto retorno e uma inadimplência baixa, ele é um ativo que possui muita previsibilidade, margens em crescimento e um mercado endereçável que cresce com o envelhecimento populacional. Assim, por mais que o banco esteja entregando crescimento da carteira de crédito e do lucro, e melhorando seus índices de eficiência, ele continua com um múltiplo relativamente baixo para o setor.

Um ponto de atenção é a baixa liquidez da ação, o que inibe o apetite de gestoras e fundos maiores.

Ainda há espaço para entrar ou é melhor esperar?

Eu acredito que ainda há espaço para entrar, pois as perspectivas são extremamente positivas. O banco está posicionado em um vetor estrutural de crescimento sustentado por três pilares: o envelhecimento populacional, já que o público 50+ cresce de forma acelerada e tende a dobrar até 2030; os modelos de leilão do INSS e toda a infraestrutura exigida criam algumas barreiras de entrada; e o custo e a despesa do banco não crescem à medida em que a sua receita cresce, o que traz mais margem no final do dia. No longo prazo, o Banco Mercantil possui uma tese de crescimento previsível, com margens sustentáveis com um upside de serem ainda melhores, e uma perenidade operacional, já que o banco é bastante tradicional.

Qual a sua avaliação sobre o payout e o dividend yield do Banco Mercantil?

O banco vem sinalizando que vai manter o mínimo regulatório de 25% de payout, o que pode dar um dividend yield entre 4% e 5%. Esse é um ponto interessante, pois um ROAE de 45% faz com que os investidores queiram que o capital fique dentro do banco. Por mais que isso seja um consenso, o banco vem sinalizando que, caso haja alguma política de taxação de dividendo, ele possui Basiléia para fazer uma distribuição extraordinária de dividendos ou até mesmo subir o payout, mas se as condições normais de temperatura de pressão forem mantidas, o payout e o dividend yield devem ser mantidos nos atuais patamares.

Qual o perfil de investidor do Banco Mercantil?

Um investidor que compra ações do Banco Mercantil é um pouco diferente dos investidores que compram as ações dos demais bancos listados em Bolsa. Por causa da liquidez, esse investidor não é uma grande asset ou um grande fundo, já que o papel negocia uma média diária de R$ 1 milhão. Quando um gestor tem um fundo de algumas centenas de milhões de reais, se ele coloca dentro dos seus parâmetros de risco uma posição de Banco Mercantil, ele vai colocar uma posição muito pequena e ainda tem o risco de interferir no resultado diário das ações. Dessa forma, os investidores de Banco Mercantil são pessoas físicas, pequenas casas de investimento e researches. Como os investidores institucionais utilizam a liquidez diária do papel como uma linha de corte, isso faz com que eles nem olhem para o Banco Mercantil, apesar da sua tese excelente. No final, quem acaba ganhando dinheiro são os investidores menores.

O que fez a Brasil Horizonte montar posição no Banco Mercantil?

Nós montamos uma posição em Banco Mercantil devido ao seu crescimento e a uma gestão eficiente alinhada aos interesses do banco. Tirando os fatores de número, como ROAE e preço da ação, para que possamos montar uma posição de carrego em uma empresa, essa empresa tem que possuir um bom management. Por exemplo, a diretoria do Banco Mercantil percebeu o quão rápido o mercado estava mudando e fez as mudanças necessárias para que o banco ganhasse market share dentro da carteira de crédito, tanto que ela saiu de R$ 5 bilhões em 2020 para os atuais R$ 20 bilhões. Esse mérito é da diretoria do banco, que conseguiu focá-lo em um bom segmento com barreiras de entrada nítidas e claras, aliado a um preço relativamente baixo, o que formou o que se chama no mercado de sweet spot, ou seja, o melhor ponto para que se tenha boa notícias de todos os lados. Caso o banco consiga aumentar a liquidez das suas ações, pode ser que ele destrave mais valor, mas isso é um ganho marginal perto da nossa tese de longo prazo que reflete a qualidade e a gestão operacional do banco.

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