Bandeiras tarifárias – truques de mágica

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O Ilumina tem recebido consultas de jornalistas sobre a volta da bandeira nas contas de luz e sobre a decisão de aumentar os valores cobrados. Para atualizar, a amarela cobra R$ 1,50 por cada 100 kWh; a vermelha 1º patamar, R$ 4 por cada 100 kWh; a vermelha 2º patamar, R$ 6 por cada 100 kWh.

O discurso da Aneel é de que elas são um sinal econômico para que o consumidor se orientar na gestão do seu consumo. Há vários “truques” que não são percebidos pelo consumidor. Pedindo desculpas aos “magos”, o Ilumina revela os artifícios.

 

Racionamento não se faz apenas

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por falta de fornecimento de energia

 

Desmontando o 1º truque:

R$ 1,5 por cada 100 kWh parece barato. Só que nenhum país usa essa unidade para tarifa. R$ 1,5 por 100 kWh significa R$ 15/MWh, esse sim um valor que se pode usar para ser comparado a qualquer outro. Portanto, vamos deixar tudo transparente.

 

Desmontando o 2º truque:

Olhe sua conta e procure o valor apenas da energia. Você vai achar algo como R$ 0,32/kWh, ou R$ 320/MWh. Os outros itens da conta, tal como distribuição, transmissão, impostos nada tem a ver com a pretensa falta de chuvas e níveis de reservatórios.

Portanto, um aumento de R$ 15 sobre R$ 320 representa um aumento de 4,8% na bandeira amarela. Na bandeira vermelha 1º patamar, representa um aumento de 12,5%! Na bandeira vermelha 2º patamar, um aumento de 18,5%! Nada baratinho!

 

Desmontando o 3º truque:

Como S. Pedro não tem advogados, ele é sempre acusado. Na realidade, o descaso brasileiro com o meio ambiente está provocando algo que pode ser muito grave. O desmatamento da Amazônia pode estar “matando” um rio. Não um rio na terra, mas um rio “voador”. A floresta gera umidade que “navega” sobre o território brasileiro.

Como o sistema brasileiro está 67% baseado em hidroelétricas e, como na Região Sudeste estão localizados os grandes reservatórios (70% do total), a mudança dos rios voadores pode provocar uma verdadeira tragédia energética.

Há cinco anos seguidos temos afluências abaixo da média. Assim, nada de culpar São Pedro. O nosso descaso é o culpado.

Desmontando o 4º truque:

Desde 2006, mais do que triplicamos a oferta de energia térmica. Isso mesmo! No século XXI, em anos onde o planeta avisa da necessidade de redução de emissão de gases efeito estufa, o Brasil expande suas fontes poluidoras. Mas o que isso tem a ver com as bandeiras?

A figura acima mostra que, desde 2013, a reserva total do sistema despencou. Esse “pulmão” que antes poupava até seis meses de consumo, agora oscila entre um e dois meses. Ora, com a reserva mais baixa, há mais riscos de se ter que usar geração térmica.

Mas vejam que curioso. O inverso também ocorre. Com tantas fontes térmicas caras, a decisão mais “econômica” pode ser de continuar a usar a água reservada. Isso quer dizer que a expansão adotada nos últimos 20 anos criou uma “oferta”, que, por ter preços bem mais altos do que a base hidroelétrica, não ajuda a recuperar os níveis mais confortáveis.

 

Desmontando o 5º truque:

O consumo médio residencial brasileiro é extremamente baixo, algo no entorno de 150 kWh/mês. Bastam uma geladeira, ventilador e algumas lâmpadas e já se chega a esse valor mensal. Que sinal econômico as bandeiras podem exercer sobre esse consumidor? Nenhum, pois qualquer economia só pode ser obtida pelo sacrifício do essencial.

Portanto, racionamento não se faz apenas por falta de fornecimento. Faz-se também via preço, e, como já mostramos aqui, a energia elétrica brasileira ocupa a terceira posição entre as mais caras do planeta.

Para finalizar, o Ilumina dirige um desafio às autoridades. Que tal parar de fazer mágica e mostrar que percentuais de energia são ofertadas e a que preço? Assim o consumidor poderá pelo menos tomar consciência do estado real do nosso confuso setor.

 

 

Roberto Pereira D’Araujo

Engenheiro, é diretor do Ilumina.

Artigo publicado em ilumina.org.br

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