BC vê alta de expectativas de inflação e não indica corte de juros

Na última reunião, Selic caiu 0,25 ponto, para 10,5% ao ano

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Rapaz passando em frente à sede do Banco Central do Brasil (BCB)
Banco Central (foto de Lúcio Távora, Xinhua)

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mostrou preocupação com as expectativas de inflação acima da meta e, em meio a um cenário macroeconômico mais desafiador do que o previsto anteriormente, não prevê novos cortes na taxa Selic, os juros básicos da economia. Para os membros do colegiado, a extensão e a adequação de ajustes futuros na taxa “serão ditadas pelo firme compromisso de convergência da inflação à meta”.

“O comitê, unanimemente, avalia que o cenário global incerto e o cenário doméstico marcado por resiliência na atividade e expectativas desancoradas demandam maior cautela”, diz a ata da última reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira. “A conjuntura atual, caracterizada por um estágio do processo desinflacionário que tende a ser mais lento, expectativas de inflação desancoradas e um cenário global desafiador, demanda serenidade e moderação na condução da política monetária”, acrescenta o BC.

O encontro ocorreu na semana passada e, pela sétima vez consecutiva, o Copom reduziu a Selic. No entanto, a velocidade do corte diminuiu. De agosto do ano passado até março deste ano, o Copom tinha reduzido os juros básicos em 0,5 ponto percentual a cada reunião. Dessa vez, a redução foi de 0,25 ponto percentual, para 10,5% ao ano.

Um dos principais motivos para a cautela do Copom é a desancoragem das expectativas de inflação. Apesar de estar em queda, o índice ainda se encontra acima da meta estabelecida pelo Banco Central, alimentando a incerteza entre os agentes econômicos. Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta é 3% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior 4,5%.

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Além disso, as projeções para a inflação divulgadas no último Relatório de Inflação do BC, em março, apontam para uma diminuição da inflação em ritmo mais lento em 2024, pressionado pela alta dos preços de alimentos e combustíveis. No relatório, a autoridade monetária manteve a estimativa de que o IPCA fechará 2024 em 3,5% no cenário base. A projeção, no entanto, pode ser revista na nova versão do relatório, que será divulgada no fim de junho.

Entre os possíveis motivos da recente desancoragem das expectativas de inflação, o BC elencou a piora do cenário externo; os recentes anúncios de política fiscal; e a percepção de agentes econômicos acerca do compromisso da autoridade monetária com o atingimento da meta ao longo dos anos.

“O comitê avalia que a redução das expectativas requer uma atuação firme da autoridade monetária, bem como o contínuo fortalecimento da credibilidade e da reputação tanto das instituições como dos arcabouços fiscal e monetário que compõem a política econômica brasileira”, diz a ata.

O cenário internacional mais adverso contribuiu para a decisão do Copom, de reduzir o ritmo do corte de juros. Para o BC, o aumento da volatilidade nos mercados financeiros globais, a desaceleração da economia americana e a persistência da inflação em diversos países geram incertezas quanto à trajetória da economia mundial.

Apesar dos desafios, o Copom reconhece que o cenário do mercado de trabalho e a atividade econômica brasileira apresentaram um desempenho mais dinâmico do que o esperado no primeiro trimestre de 2024. Esse crescimento, impulsionado principalmente pelo setor de serviços, contribuiu para a decisão de reduzir a taxa Selic, ainda que em um ritmo mais lento.

Por outro lado, a resiliência da atividade e a pujança do mercado de trabalho sugerem uma menor elasticidade do hiato do produto (capacidade ociosa da economia) à política monetária, o que poderia induzir um processo de desinflação ainda mais lento.

“Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, diz o BC.

Os membros do colegiado acrescentaram que a tragédia climática no Rio Grande do Sul, além dos seus impactos humanitários, também terá desdobramentos econômicos e o Copom seguirá acompanhando.

A reunião do Copom no último dia 8 foi marcada pela divergência dos seus membros em torno do nível de corte de juros que seria realizado. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, desempatou a decisão ao votar por um corte de 0,25 ponto.

Além de Campos Neto, votaram por essa redução os diretores Carolina de Assis Barros, Diogo Abry Guillen, Otávio Ribeiro Damaso e Renato Dias de Brito Gomes, indicados pelo governo anterior. Votaram por uma redução de 0,5 ponto percentual Ailton de Aquino Santos, Gabriel Muricca Galípolo, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira, indicados pelo atual governo.

Para Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe Warren Investimentos, “a ata mostra que as divergências entre os seus membros são menores do que a leitura inicial do mercado após a divulgação do comunicado. A ala dissidente, que foi favorável a um corte de 50 bps, deu peso maior ao guidance da reunião de março ao custo reputacional de não o seguir, fiando-se no debate se houve alteração significativa do cenário prospectivo. Já a ala majoritária apontou que o cenário esperado não se confirmou, tendo em vista a desancoragem adicional das expectativas, a elevação das projeções de inflação, o cenário internacional mais adverso e a atividade econômica mais dinâmica do que esperado.”

Já para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, “em relação a ata do Copom, certamente a maioria do mercado ficará atenta ao conteúdo presente no 18º parágrafo, que aborda as razões que levaram alguns diretores a votarem por uma diminuição de 0,50% na taxa de juros. O documento procura mitigar as divergências entre esses diretores e os demais, atribuindo considerável peso às questões relacionadas ao guidance e à promessa feita em reuniões anteriores, na qual se comprometeram com um aumento de 0,50, o que, caso não cumprido, poderia afetar a reputação do Banco Central, como de fato ocorreu.”

Segundo ele, “a mensagem contida na ata reflete o contexto atual e as projeções para 2024, sendo que em cada reunião os diretores conduzem um debate para avaliar as condições econômicas e externas. É possível que, em futuras reuniões, o cenário se altere, permitindo que os diretores que votaram por um aumento de 0,25% reconsiderem sua posição, especialmente se houver uma melhoria no panorama econômico, levando em consideração que uma taxa de 10,50% ainda é considerada elevada.”

Matéria atualizada às 15h20

Com informações da Agência Brasil

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