Repetindo uma reportagem de capa da revista Veja de dezembro de 2011, nossa presidente colocou o questionamento de ambientalistas a respeito da usina de Belo Monte como sendo superficial e ingênuo. Existem ambientalismos ingênuos e sensacionalistas, e estes provavelmente sempre ganharão destaque – pois o assunto tem um forte apelo emocional – mas a causa ambiental conta com muitos advogados que procuram fazer análises bem fundamentadas e realistas. Neste sentido, o presente artigo leva adiante dois pontos que são levantados por ambientalistas, mas que foram deixados de lado nas críticas a eles feitas pela Veja e pela presidente.
O primeiro deles é muito simples, mas muito efetivo: a ênfase no aumento da eficiência energética, onde geralmente há ações que tem um custo benefício excepcionalmente favorável. No caso do Brasil, são postuladas a aprovação de um plano que culmine com o banimento das lâmpadas incandescentes e de uma linha de financiamento com prazo longo para aquecedores de água solares. Quem compra um aquecedor solar paga praticamente à vista, enquanto outras formas de se aquecer a água (com impacto ambiental bem maior) obtém financiamentos com décadas para pagar e juros subsidiados. Note que tanto lâmpadas quanto chuveiros precisam de energia no horário de pico. Lamentavelmente, nada disto foi levado em conta no último Plano Decenal de Expansão de Energia.
Deixando de lado a economia energética e o horário de pico, passamos para a definição do melhor critério para medir a contribuição efetiva de uma usina para a suprir a demanda de energia do sistema como um todo levando em conta a sazonalidade da oferta de energia. De modo errôneo, a reportagem da Veja coloca o custo (econômico e ambiental) da média da energia ofertada (capacidade máxima vezes o fator de capacidade médio) por cada alternativa de geração como o critério mais adequado para determinar a melhor delas. Acontece que, por ser uma usina a “fio d”água” (ou seja, com reservatório muito pequeno) em uma região com seca acentuada na mesma época na qual a maior parte do país está seco, Belo Monte produz muito quando todo o sistema produz muito, e pouco quando todo o sistema produz pouco.
O critério mais adequado é aquele denominado energia firme gerada. Esta é definida como a energia média gerada no período crítico do Sistema Interligado Nacional, que vai de junho a novembro. Note que grande parte do potencial hidrelétrico dos rios na época das cheias é jogado fora, pois, a partir de um certo momento, o local onde ele seria armazenado (os reservatórios das hidrelétricas) geralmente não tem capacidade de armazenar mais nada.
Vale observar que a presidente Dilma não falou da sazonalidade na geração em Belo Monte, mas mencionou o problema da intermitência das fontes solar e eólica. No entanto, o caso do Brasil é diferenciado justamente porque aqui, ao contrário do que disse a presidente, energias intermitentes podem ser armazenadas durante o período crítico: no Brasil, as comportas de reservatórios de energias hidrelétricas podem ser fechadas quando venta, e ser abertas quando para de ventar. A maior parte dos países do mundo, incluindo a Espanha (mencionada por Dilma), não conta com esta possibilidade, pois não têm reservatórios de barragens com hidrelétricas expressivos. É verdade que a disponibilidade de áreas com vento forte é limitada, mas também é verdade que medidas para aumentar a eficiência energética não entraram no planejamento do governo.
A única estimativa de energia firme da usina que encontrei é a de Cicogna (2003), falando em 1.172 MWh (megawatt / hora), mas fiz uma “avaliação caseira” da energia firme gerada por Belo Monte, utilizando os dados de quantos MWh são gerados no pior mês (Muniz (2010)) e da vazão média durante este mês e durante o período critico (tabela da Eletronorte, apresentada no estudo do Conservation Strategy Fund, pág. 52). O resultado foi 1.697 MWh. Podemos, então, fazer um exercício análogo ao que a revista Veja enfatizou: usando a minha estimativa (que é a mais favorável), o custo de investimento para gerar a energia firme com Belo Monte é de R$14,7 milhões por MWh, contra R$ 9 milhões da alternativa eólica (segundo a revista Veja).
No entanto, há mais um fator importante a ser colocado na análise: é possível combinar a geração de Belo Monte com a de um outro tipo de usina, em um projeto combinado que tenha custo de geração de energia firme mais baixo. É o caso da combinação de Belo Monte com usinas térmicas. Em função disto, analisei especificamente o que ocorreria combinando em um só projeto Belo Monte com uma usina a gás. Como estas últimas têm custo operacional alto, não faz sentido comparar somente os investimentos necessários por MWh. É mais adequado comparar o valor da tarifa que cobre os custos deste projeto com as alternativas eólica e com geração somente a gás.
No projeto combinado ideal, o potencial hidrelétrico médio dos meses de cheia (fevereiro a maio) é plenamente aproveitado, a usina a gás supre a diferença entre esta produção e a dos outros meses, e a usina a gás fica desligada na parte do período noturno de baixa demanda. O resultado que obtive foi de que esta tarifa tenderia a estar em um patamar próximo aos das tarifas de energia eólica, que por sua vez estão também em patamares próximos aos de uma usina à gás que operasse sem sazonalidade. Destes projetos, o eólico é o que gera um volume menor de emissões de dióxido de carbono, ficando o combinado Belo Monte-gás em segundo lugar e a usina a gás como maior emissora.
Há ainda a possibilidade de se construir um grande reservatório rio acima de Belo Monte, provavelmente associado a uma outra usina hidrelétrica, com o reservatório em questão servindo a ambas as usinas (ver o estudo do Conservation Strategy Fund, pág. 76)). Boa ou ruim, esta alternativa parece ser, hoje em dia, um tabu, cujo debate em torno de fundamentos não resistiria às manchetes.
Vale lembrar, também, que não houve interessados da iniciativa privada no projeto de Belo Monte. Apesar de a primeira vista não parecer, isto é compatível com o resultado descrito acima – basta levar em conta que não havia garantia de uma usina a gás complementar, nem de um reservatório rio acima de Belo Monte.
Enfim, o debate correto sobre Belo Monte seria em outros termos, e certamente seria ainda mais controverso do que o debate atual.
Referências
Muniz (2010)
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,belo-monte-vai-ser-umahidreletrica- sazonal,524449,0.htm
Cicogna, A. M.(2003) Sistema de Suporte a Decisão para o Planejamento e a Programação da Operação de Sistemas de Energia Elétrica. Tese de Doutorado. Faculdade de Engenharia Elétrica. Campinas, SP: Unicamp. “Custos e Benefícios do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte: uma Abordagem Econômico-Ambiental,” do Conservation Strategy Fund. http://www.ibcperu.org/doc/isis/8325.pdf
Plano Decenal de Expansão de Energia 2019. Ministério das Minas e Energia.
André Lunardelli
Doutor em Economia/FEA-USP
















