Blá-Blá-Blamazônia

Não sei se é uma proposição ou uma ameaça.

Empresa Cidadã / 18:19 - 28 de jul de 2020

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Há duas edições, a coluna Empresa-Cidadã (22 de julho, “A Terceira Onda”; e 15 de julho, “É só um desmatamentozinho, talquei?”) vem tratando sobre a destruição consentida (ou deliberada?) da Floresta Amazônica. O que resta dizer é de uma extensão amazônica. Então, priorizemos um tema restante que é o surpreendente carinho despertado nos três maiores bancos privados brasileiros (Itaú, Bradesco e Santander) pela Floresta.

Eles são os recordistas brasileiros de lucros. Em 2019, o Itaú-Unibanco teve um lucro nominal – sem descontar a inflação – de R$ 26,583 bi (crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior); o Bradesco, de R$ 22,6 bi (crescimento de 18,3% frente a 2018); e o Santander, de R$ 14,181 bi (crescimento anual de 16,6%). No dia 22 passado, seus caciques reuniram-se virtualmente com o general vice-presidente do Brasil e presidente do Conselho Nacional da Amazônia, Hamilton Mourão, para apresentar aquilo que, no entendimento deles, é o melhor para que as suas ações resguardem a Amazônia.

As ações estão estribadas em três eixos. O primeiro é o de conservação ambiental e desenvolvimento da bioeconomia; o segundo é o eixo do investimento em infraestrutura sustentável; e o terceiro é o de garantia dos direitos básicos dos habitantes da Região.

Entre as ações propostas estão incluídas as seguintes: estímulo às cadeias sustentáveis da região (como açaí, cacau e castanha), por meio de linhas de financiamento diferenciadas e/ou ferramentas financeiras e não-financeiras; viabilização de investimentos em infraestrutura básica para o desenvolvimento social (como internet, energia, saneamento e moradia) e ambiental (exemplo do transporte hidroviário); fomento de um mercado de ativos e instrumentos financeiros de lastro verde; atração de investimentos e promoção de parcerias para o desenvolvimento de tecnologias que impulsionem a bioeconomia; e apoio para atores e lideranças locais que trabalhem em projetos de desenvolvimento socioeconômico na região.

Acrescentam que as ações serão efetivadas em interação com o poder público para potencializar o impacto no desenvolvimento econômico e social. Ressaltando a importância de todos assumirem as suas parcelas de compromissos com as futuras gerações, assinam o Memorial Otávio de Lazari Junior (presidente do Bradesco), Cândido Bracher (presidente do Itaú Unibanco) e Sérgio Rial (presidente do Santander Brasil). Os três bancos apontam que o próximo passo é a constituição de um conselho de especialistas com saberes diversificados nas questões sociais e ambientais para o desdobramento do plano que terá ações implementadas, a partir deste ano.

Não sei se é uma proposição ou uma ameaça.

 

De Nordea para JBS: deu!

A Nordea Asset Management, responsável por ativos de empresas avaliados em € 230 bilhões, retirou a JBS do seu portfólio, em decorrência do conjunto da obra, com destaque para as relações da processadora de carnes com fornecedores comprometidos com o desmatamento na Amazônia. A Nordea figura na relação de 29 grandes investidores internacionais que advertiram o governo federal sobre a recusa de se aceitar mais desmatamentos na Amazônia (coluna Empresa-Cidadã de 22 de julho de 2020, “A Terceira Onda”), lembrando-se que os 29 investidores que se protestaram reúnem recursos da ordem de US$ 3,7 trilhões, em oportunidades de investimentos.

Em 2017, a JBS foi multada em cifra equivalente a US$ 7,7 milhões pelo Ibama, por comprar quase 50 mil bois (!) de áreas desmatadas ilegalmente no Estado do Pará. A cadeia de “fornecedores indiretos”, por sua complexidade (cria, engorda, abate), exige esforço maior do que o grupo diz empenhar para evitar o desmatamento.

 

SOS Floresta do Camboatá!

Não é preciso ir longe para defender florestas e biomas. Há, no Rio de Janeiro, um movimento, como reação aos planos de quem deveria ter mais o que fazer, e que, em plena pandemia, com mais de 80 mil vidas perdidas pela Covid-19, resolve construir mais um autódromo. Era disso que estávamos sentindo falta... Este é o manifesto (abrir aspas).

Precisamos da ajuda de todos que amam a natureza, pois não queremos autódromo nessa região de Deodoro, vim hoje aqui para lhe pedir uma grande ajuda, eu e meu grupo ecológico, mais outras pessoas de outros grupos, estamos completamente envolvidos a favor de uma floresta que representa muito para nós. E como existem outras áreas do exército próximas a Deodoro mesmo que já foram degradadas anteriormente, desde o Pan-Americano em 2008 que podem ser utilizadas para a construção do autódromo e que não ira causar tanto impacto. Nós, humanos e os animais, já estamos sendo muito atingidos com a poluição do ar, poluição sonora e com a alteração do clima, onde nota-se nitidamente a elevação da temperatura causada pelo desmatamento. A Floresta de Camboatá, em Deodoro, é o último lugar de Mata Atlântica de áreas planas do Município do Rio de Janeiro com nascentes e áreas úmidas, onde no período de cheias ressurgem os peixes rivulídeos, conhecidos como peixes das nuvens, porque reaparecem com as chuvas.

Trata-se de uma região única, com um ecossistema equilibrado, e que morrerá se sofrer as intervenções necessárias para se instalar ali o autódromo. Por isso, por ser único, este paraíso ecológico, pedra preciosa, tesouro ambiental precisa ser preservado. Quem afirma isso é uma equipe de pesquisadores do Instituto Jardim Botânico que conhece bem o local porque desde a década de 80 ia para lá desenvolver pesquisas e coletar sementes de espécies nativas raras de Mata Atlântica para enriquecer a diversidade ambiental do próprio Jardim Botânico com plantas raras de Mata Atlântica com ameaça de extinção.”

Assina esta petição O Bugio, plataforma de campanhas online, coordenada pela equipe de Mobilização do Greenpeace Brasil.

Vá trabalhar, prefeito!

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público aposentado (professor da Universidade do Estado do RJ – Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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