‘Black lives matter’; inclusive na Cidade de Deus

Espera-se pelo próximo assassinato resultante da miopia dos que têm a obrigação de propor outras políticas de segurança.

Vidas negras importam. Mesmo as da Cidade de Deus… Este recado bem poderia ser dirigido ao Comandante da PMERJ, ou ao vice-governador do Estado do RJ, no exercício da governadoria, ou a todos os que aplaudem a política genocida do confronto entre forças policiais e a população desarmada, no combate ao tráfico e ao crime em geral.

Talvez não. Seria perda de tempo, a considerar que o assassinato de Marcelo Guimarães, 38 anos, quando na manhã do sábado, 2 de janeiro, na avenida Edgard Werneck, ao se dirigir para o trabalho, foi atingido por pela bala, que o matou.

O resto da história é total “deja vú”. A polícia diz que reagia a um ataque, testemunhas negam a versão da PMERJ, e espera-se pelo próximo assassinato resultante da miopia dos que têm a obrigação de propor e executar outras políticas públicas de segurança. A do confronto já deu. Marcelo Guimarães, novo mártir da guerra aberta entre forças de segurança (em nome de quem?) e a população.

 

Bilionários na pandemia

Quatro trimestres após o início da difusão da pandemia do coronavírus, apesar da nova mutação mais contagiosa do que as verificadas até aqui, após quase 85 milhões de infectados em todo o mundo (EUA, mais de 21 milhões de infectados; Índia, mais de 10 milhões; Brasil, mais de 7 milhões) entre vítimas fatais (EUA, mais de 353 mil óbitos; Brasil, mais de 196 mil; Índia, mais de 149 mil), há uma dimensão da vida humana em que a expansão foi tão intensa quanto a do vírus – a economia.

Fortunas foram alavancadas por impulsos especulativos em bolsas, enquanto players, também chamados de investidores, compraram ativos de empresas envolvidas no setor de saúde. A revista especializada Forbes, referência inevitável na matéria, encontrou 50 novos bilionários no setor da saúde, em 2020. Os novos e mais notáveis são os cientistas por trás das vacinas de maior sucesso contra o coronavírus, uma desenvolvida pela Pfizer/BioNTech e a outra pela Moderna. Os CEOs das empresas viram o patrimônio líquido das companhias escalar neste período.

– Casal Uğur Şahin e Özlem Türeci (BioNTech CEO; patrimônio líquido de US$ 4,2 bilhões; país: Alemanha; desde janeiro de 2020, o patrimônio da empresa valorizou-se em 160%. Antes, Şahin e Türeci fundaram a empresa biofarmacêutica Ganymed Pharmaceuticals, em 2001, que venderam para a Astellas Pharma, com sede no Japão, por cerca de US$ 460 milhões em 2016);

– Stéphane Bancel (Moderna, PL: US$ 4,1 bilhões; país: França; ele possui cerca de 6% da Moderna e tinha cerca de 9% quando se tornou bilionário, em março, depois de vender mais de um milhão de ações, enquanto os ativos da empresa subiam mais de 550% desde o início do ano);

– Yuan Liping (PL: US$ 4,1 bilhões, país: Canadá; empresa: Shenzhen Kangtai Biological Products; após se divorciar de Du Weimin, bilionário e presidente da empresa, em junho, Yuan Liping, instantaneamente, tornou-se a canadense mais rica de Shenzhen.);

– Hu Kun (PL: US$ 3,9 bilhões; país: China; empresa: Contec Medical Systems; ele abriu o capital da empresa na bolsa de valores de Shenzhen em agosto e possui quase metade das ações, que cresceram quase 150% desde o IPO. A Contec obtém mais de 70% de sua receita do exterior e fabrica uma variedade de produtos médicos para hospitais, incluindo nebulizadores, estetoscópios e monitores de pressão arterial);

– Timothy Springer (PL: US$ 2 bilhões; país: Estados Unidos; empresa: Moderna; Springer foi o investidor fundador da Moderna em 2010, quando colocou cerca de US$ 5 milhões na empresa incipiente. Uma década depois, sua participação de 3,5% vale agora cerca de US$ 1,6 bilhão. Springer é um investidor ativo em biotecnologia, com participações menores nas empresas de capital aberto Scholar Rock e Morphic Therapeutic, que surgiu de sua pesquisa com alunos de pós-doutorado de seu laboratório em Harvard. Ele teve o primeiro grande lucro em 1999, quando vendeu a LeukoSite, empresa de biotecnologia, que fundou em 1993 e abriu o capital cinco anos depois, para a Millennium Therapeutics por US$ 635 milhões);

– Sergio Stevanato (PL: US$ 1,8 bilhão; país: Itália; empresa: Stevanato Group. Produz seringas e outros artefatos de vidro);

– Robert Langer (PL: US$ 1,5 bilhão; país: Estados Unidos; empresa: Moderna);

– Premchand Godha (PL: US$ 1,4 bilhão; país: Índia; empresa: Ipca Labs; Godha, em 1975, adquiriu a farmacêutica Ipca Labs, e viu o preço de suas ações quase dobrar em 2020, em parte devido ao aumento de produção e vendas da hidroxicloroquina, que foi apontada como uma cura potencial no início da pandemia, antes de seu uso ser desencorajado pela Organização Mundial da Saúde por ter pouco ou nenhum efeito);

– August Troendle (PL: US$ 1,3 bilhão; país: EUA; empresa: Medpace).

A relação original publicada pela revista Forbes, ainda que muito maior do que este resumo, permite concluir sobre o comportamento essencialmente especulativo dos que mudam de posição quando se abre um garimpo, como ensejado pela Covid-19

 

ABCVAC

A Associação Brasileira das Clínicas de Vacina (ABCVAC) anunciou que enviará uma missão à Índia com a finalidade de comercializar a vacina contra a Covid-19 produzida naquele país, a Covaxin, e suas condições de produção. A Índia é o terceiro país em número de óbitos pela Covid, em todo o mundo, e o segundo em casos de infecções. Esta vacina teve o seu processo de produção criticado, sob a alegação de pressa injustificada de concluir etapas do processo. Talvez por isso, as primeiras manifestações das autoridades sanitárias indianas tenham sido no sentido de não permitir a exportação do imunizante.

Leia mais:

Maradona é melhor que Pelé?

O inferno brasileiro e as vacinas

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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