BNDES deixará de financiar térmicas a carvão

Pressionado pela sociedade civil brasileira e pela crescente relevância das políticas de ESG (ambientais, sociais e de governança) no cenário global, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) confirmou nesta terça-feira, que não dará mais crédito para usinas térmicas a carvão. Em entrevista à jornalista Vanessa Adachi, do site Capital Reset, o diretor do BNDES Bruno Aranha afirmou que “não financiaremos mais térmicas a carvão, independentemente da tecnologia empregada ou de qualquer outra coisa”.

O BNDES anunciou a decisão após uma série de mobilizações lideradas por organizações ambientais, que pedem o fim do apoio do banco público aos setores de petróleo, gás e carvão, como medida de alinhamento aos objetivos climáticos do Acordo de Paris e às boas práticas corporativas de respeito ao meio ambiente e às comunidades mais vulneráveis.

“A mudança na política de crédito do BNDES é uma vitória importante do movimento socioambiental e uma evidência de que as campanhas pelo fim do financiamento e do investimento em combustíveis fósseis estão ganhando força no Brasil, a exemplo do que já acontece em vários outros países”, afirma Ilan Zugman, diretor da 350.org na América Latina.

Em agosto de 2020, a 350.org e outras 49 organizações publicaram uma carta aberta dirigida ao BNDES, em que cobravam do banco, entre outros pontos, o alinhamento de suas políticas com os valores de uma reconstrução econômica justa no pós-pandemia.

Já em novembro de 2020, a 350.org e a Associação dos Homens e Mulheres da Baía da Guanabara (Ahomar) realizaram um protesto na frente da sede do BNDES, no Rio de Janeiro, com a demanda específica de que o banco pare de financiar a expansão dos setores de petróleo, gás e carvão. Os manifestantes seguravam um cheque gigante, que fazia referência aos mais de R$ 90 bilhões que o BNDES destinou a combustíveis fósseis, entre 2009 e 2019.

“Pelo volume de recursos que administra e por ser um banco público, o BNDES tem uma enorme responsabilidade socioambiental, e a sociedade civil tem todo o direito de cobrar que esse dinheiro, que é do cidadão brasileiro, possibilite uma transição energética justa, e não a destruição do meio ambiente”, diz Ilan Zugman.

Em paralelo, organizações como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) desenvolvem um importante trabalho de avaliar e pressionar instituições financeiras por melhores práticas socioambientais. Uma das iniciativas nesse sentido é o Guia dos Bancos Responsáveis, um levantamento que traça uma análise das políticas e diretrizes dos nove maiores bancos do Brasil, incluindo o BNDES, em 18 temas, como direitos humanos, geração de energia e mudanças climáticas.

Para o diretor da 350.org na América Latina, apesar do avanço anunciado hoje, o BNDES precisa ser mais ágil e mais abrangente em suas medidas pelo clima, se quiser cumprir efetivamente a seu papel de banco de desenvolvimento econômico e social. “O banco perdeu a oportunidade de excluir também petróleo e carvão de suas carteiras, o que seria um indicativo poderoso de liderança. A pressão global pelo fim dos combustíveis fósseis só vai aumentar, e os riscos financeiros e institucionais de financiar setores econômicos do passado ficará cada vez maior”, resume Zugman.

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