Bola de neve

A redução da taxa de juros básica norte-americana em 0,5 ponto percentual – equivalente a 7,6% – empreendida pelo Federal Reserve está sendo, apressadamente, interpretada como a senha para um novo Renascentismo a favos de mel. Na verdade, a ruptura do Fed com seu dogmatismo monetário, antes mesmo da sua próxima reunião, explica-se muito mais pelo desespero com a recessão que sua própria ação anterior criou do que por uma guinada desenvolvimentista.
No entanto, como o principal fundamento que configurou a crise – crescimento puxado principalmente pelo aumento do consumo baseado na expectativa de ganhos irracionais nas bolsas de valores – continua presente, a ação do Fed, além do seu necessário efeito mais lento sobre a economia real, pode apenas ter adiado a explosão da bolha especulativa. Ao fazer da economia virtual a principal alavanca do crescimento norte-americano, a plutocracia dos EUA deixou o país preso a armadilha de difícil solução sem traumas profundos. A retomada da alta das bolsas engendrará nova escalada do consumo financiada pela expectativa de ganhos irracionais, enquanto a recessão que já se avizinha ameaça arrastar o país – e os satélites administrados por governos irresponsáveis e submissos a Washington – a uma crise de proporções que faria a Depressão de 30 parecer um piquenique de adolescentes marianos.
Plutocracia
A reação do presidente recém-eleito dos Estados Unidos, George Bush, à decisão do Fed de reduzir os juros beirou ao patético, mas, simultaneamente, serviu para revelar quem manda de fato no país, apesar da milionária pantomina que caracteriza as eleições norte-americanas. “Alan Greenspan tomou medidas audazes. Foi decisão forte, para assegurar que nossa economia não despenque”, comemorou Bush, como se autoria de decisões audazes e rápidas não desse caber justamente ao presidente (eleito) do país.

Factóide?
A promessa do prefeito César Maia de cobrar ISS dos bancos parece ter sido anunciada sem consulta à Secretaria estadual de Fazenda. Segundo sua assessoria de Comunicação, o secretário Francisco de Almeida e Silva desconhece quanto e se a banca recolhe atualmente o ISS. Esse desconhecimento torna-se mais curioso, quando esta coluna recorda ter publicado na segunda metade do primeiro mandato de Maia que a banca estava isenta do pagamento deste imposto. Embora a nota ressalvasse que esse privilégio vigorava desde gestões anteriores, a assessoria do então prefeito foi mobilizada para garantir que tal isenção não existia, o que foi registrado, com prazer, pela coluna. A ser mantida de pé esta versão, essa isenção teria nascido no Governo Conde, mas o atual secretário de Fazenda a desconhece, embora seu chefe tenha anunciado a intenção de pôr fim ao privilégio.
Amnésia
A Federação Brasileira da Associação de Bancos (Febraban) também parece acometida de amnésia. Além de se fechar em copas sobre a decisão anunciada por César Maia, a Febraban, alegando que o país tem cerca de 5.500 municípios, diz ignorar se a banca atualmente recolhe ISS no Rio. Já o Sindicato dos Bancos se recusa a comentar o assunto.

Repercussão
A aproximação da África do Sul e do Mercosul mereceu matéria no The New York Times. O jornal norte-americano diz que o país mais rico da África quer reduzir a dependência dos mercados dos EUA e da Europa e por isso elegeu a América do Sul como parceiro preferencial. O movimento da África do Sul, não só reduz a importância do afastamento do Chile do Mercosul, como possibilitará – se concretizado – a viabilidade do bloco regional como um dos mais importantes do mundo. A preocupação dos EUA ficou estampada na matéria do Times.

Plim-plim
A luta pela hegemonia no mundo globalizado não se limita aos campos político e financeiro. Na disputa por corações e mentes, o cinema é um dos principais propagadores do jeito norte-americano de ser. Para ajudar a divulgar a visão dos Estados Unidos sobre o mundo, o Congresso norte-americano aprovou financiamento para construção de salas de cinema no exterior, a juros de 1% ao ano. Não por acaso, hoje dois terços da imagens do mundo audiovisual têm sua matriz nos EUA.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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