Bolsonaro acena constantemente com a vontade de aumentar gastos

Após o abandono do Renda Brasil surge no Congresso a saraivada de necessidade de aumento dos gastos, via mais taxação.

Opinião do Analista / 17:14 - 18 de set de 2020

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Curva de juros steepando fortemente em consequência da absoluta incerteza fiscal. É bem verdade que o teto está, por enquanto mantido, mas a necessidade de um anteparo de defesa contra medidas heterodoxas (leia-se: Rodrigo Maia) aumenta a cada dia. Basta lembrar que na sequência do pseudo-abandono do Renda Brasil (o que a valor de face deveria ser positivo) já surgiu no Congresso a saraivada tradicional de necessidade de aumento dos gastos, financiados via mais taxação.

Ainda assim, a realidade é que o teto não está seguro. Jair Bolsonaro acena constantemente com a vontade de aumentar os gastos. Algumas formas de financiar podem ser positivas, mas pergunta-se obviamente a real possibilidade de que isto seja implementado. Logo, para a frente, a probabilidade de maior pressão no teto é maior do que maior pressão no piso (usando a expressão que PG tanto gosta).

Soma-se ainda a piora no perfil da dívida e a perspectiva de que o próprio endividamento retira PIB ao longo do tempo. Assim, a DBGG/PIB piora tanto pelo nominador como pelo denominador.

Os juros baixos são necessários, mas a capacidade de sustenta-los ao longo do tempo é absolutamente questionável.

Assim, a curva inclinada aperta as condições financeiras no Brasil, tira força da bolsa e enfraquece o real.

Chamamos atenção ao longo dos últimos meses para situação de cointegração entre Dívida/PIB e incerteza econômica. Parece que é isso que está em jogo: incerteza econômica impacta na decisão dos agentes e reduz consumo e investimento. Ou seja, coeteris paribus, menos PIB.

Esperamos um equacionamento da situação fiscal do Brasil, mas ela não é inequívoca nem ocorrerá amanhã. Ou seja, o cenário de incerteza persistirá e aumentará ainda mais a necessidade de um parachoque político contra medidas heterodoxas, pois, a julgar pelas notícias, Bolsonaro converteu Paulo Guedes e não o contrário.

A âncora do Brasil no momento se chama setor externo. Tanto o monetário do Fed como real desvalorizado deveriam contribuir para maior estabilização, mas o Fed essa semana comunicou mal o que pretende fazer e a recuperação dos dados na economia americana (que até o Fed reconhece no SEP) levam a crer que poderia há, ao menos teoricamente, a chance de uma reversão no futuro deste referencial (vide Kaplan dissenter). Point in case da dificuldade de comunicação: 5Y5Y fecha desde quarta-feira.

Neste cenário, a realização de tech nos EUA, a incerteza do cenário eleitoral (que não se resolve no dia 3 de novembro) e o aumento de contaminações na Europa (com risco de novo lockdown no UK) somente atiçam mais a situação.

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Felipe Sichel

Estrategista-chefe do Banco Digital Modalmais

Fonte: www.modalmais.com.br

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