Brasil, de luto, ultrapassa 500 mil mortes, mas e daí?

Por Paulo Alonso.

O Brasil está perto de ultrapassar os Estados Unidos em número de óbitos por causa da pandemia do coronavírus. Mas, mesmo diante desses números absolutamente terríveis e trágicos, o presidente Bolsonaro, negacionista de primeira hora, continua a desdenhar dessa gravíssima situação sanitária que se abateu sobre o mundo e que, em nosso país, tem deixado um rastro de revolta e profunda tristeza no povo. Já são mais de 500 mil mortes, mas e daí?

As últimas manifestações ocorridas em todos os estados da Federação e no Distrito Federal exibem o quanto o brasileiro está descrente com o atual governo. É chegado o momento de se abrir um processo de impeachment do presidente da República. E cabe ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), desengavetar pelo menos um dos mais de cem pedidos que estão em suas gavetas e dar início a esse processo, por mais doloroso que seja à nação, uma vez que há bem pouco tempo a então presidente Dilma Rousseff foi impedida de continuar a exercer suas funções presidenciais.

Diante dessa instabilidade governamental, e com a saúde, educação, cultura, meio ambiente, infraestrutura e economia precisando de socorro, não há uma alternativa.

Desde o início da pandemia, o Brasil poderia ter feito muito mais para cuidar dos seus cidadãos e muito dos gravíssimos problemas pelos quais passa o país estão atrelados diretamente à péssima performance do chefe de estado e da nação, atualmente sem partido, que minimizou, ridicularizou e desprezou a pandemia em muitas ocasiões, além de dar péssimos exemplos de conduta, comprometendo a liturgia do cargo, para o qual foi eleito. Não é à toa que as pesquisas indicam uma rejeição de 54% ao seu (des)governo.

Por causa das falas presidenciais, desajustadas e desrespeitosas, o Brasil virou chacota internacional quando o assunto é a pandemia. Importante lembrar algumas delas e verificarmos o quão grave é o momento vivido:

“Se você virar um chi… virar um jacaré, é problema de você, pô”, ao comentar sobre possíveis efeitos colaterais da vacina da Pfizer. Essa frase foi parar nos cinco continentes e foi destaque nos principais veículos de comunicação.

Mas não foi somente essa frase infeliz:

“Estamos preocupados, obviamente, mas não é uma situação alarmante”;

“Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus”;

“Durante o ano que se passou, obviamente, tivemos momentos de crise. Muito do que tem ali é muito mais fantasia. A questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”;

“Vou ligar para o Mandetta agora pouco. O que eu acho, eu não sou médico, eu não sou infectologista, o que eu vi até o momento, outras gripes mataram mais do que essa”.

“Com toda certeza, muitos pegarão isso, independentemente dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Devemos respeitar, tomar as medidas sanitárias cabíveis, mas não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo”;

“Tivemos vírus muito mais graves que não provocaram essa histeria. Certamente tem um interesse econômico nisso. Em 2009 teve um vírus também e não chegou nem perto disso. Mas era o PT no governo aqui e os democratas nos Estados Unidos”;

“Você cancelar jogos de futebol contribui para o histerismo. A CBF poderia pensar em vender uma carga de ingressos de acordo com a capacidade dos estádios. Porque cancelar não vai conter o vírus. A economia não pode parar. Vai gerar desemprego”.

Suas frases ganham as manchetes dos jornais diariamente, mas mesmo se expondo ao ridículo e não adotando uma política sanitária eficiente e eficaz e com a dança das cadeiras no Ministério da Saúde, apesar dos alertas dos pesquisadores brasileiros e internacionais, Bolsonaro continua a criar frases simplesmente impiedosas e fora do contexto social e sanitário pelo qual o Brasil passa:

“Foi surpreendente o que aconteceu na rua até com esse superdimensionamento. Que vai ter problema vai ter, quem é idoso, (quem) está com problema, (quem tem) alguma deficiência, mas não é tudo isso que dizem. Até que a China já praticamente está acabando”;

“O que está em jogo? É uma disputa política por parte desses caras, eu estou sozinho em um canto, apanhando de todo mundo. Grande parte da mídia, não são todos, muitos governadores, os chefes do Poder Legislativo, que é o da Câmara e o do Senado, batendo o tempo todo, é uma luta de poder”;

“Você vai acabar com o comércio do Brasil, que em grande parte é feito na informalidade. Vai ter um caos muito maior do que pode ocasionar esse vírus aqui no Brasil”;

“Essa é a preocupação que eu tenho. Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse, em parte, com toda certeza, dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder”;

“Não vou viver preso dentro do Alvorada. Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Tenho obrigação de saudar o povo.”

De forma absolutamente cruel e até mesmo criminosa, ele não entende, ou não quer entender, a gravidade da situação e receita milagres com o uso de remédios que cientificamente não são indicados para o tratamento da Covid-19:

“É grave, é preocupante, mas não chega ao campo da histeria ou de uma comoção nacional. E é dessa forma que nós encararemos essa questão”;

“Não se surpreenda se você me ver, nos próximos dias, entrando no metrô lotado, em São Paulo, entrando numa barcaça, na travessia Rio-Niterói, em horário de pico, ou dentro de um ônibus em Belo Horizonte. Isso, longe de demagogia ou populismo”;

“Há um alarmismo muito grande por parte da mídia. Alguns dizem que estou na contramão. Estou naquilo que acho que tem que ser feito. Posso estar errado, mas acho que deve ser tratado dessa maneira.”

“Existe a possibilidade, sim, de que o Reuquinol seja eficaz para tratar os portadores da Covid-19”;

“Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”;

“Não posso afirmar porque não sou médico nem pesquisador, mas pelas informações que eu tenho, as informações é que a hidroxicloroquina já deu certo. Nós vamos vencer essa onda e o Brasil vai crescer”;

“Mas acreditamos nos médicos, enfermeiros, pesquisadores, e esse Reuquinol [nome comercial da hidroxicloroquina no Brasil], se Deus quiser, vai ser confirmado como remédio para curar a Covid-19. E com o remédio, vai embora essa histeria implantada pelo Brasil. Que não foi implantada pela imprensa, foi o Papai Noel, o Saci Pererê”;

“O [brasileiro] não pega nada. Você vê o cara pulando esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele”;

“Se o vírus pegar em mim, não vou sentir quase nada. Fui atleta e levei facada”;

“Eu desconheço qualquer hospital que esteja lotado. Não é isso tudo que estão pintando”;

“Fui tomar sorvete e fazer teste de gravidez”, ao ser perguntado sobre ida ao HFA.

E, diante dessa catástrofe, e com meio milhão de óbitos, o presidente da Câmara dos Deputados declara que a CPI da Covid é um erro e não trará benefício ao país e crê que o Governo Bolsonaro não teria resolvido o problema da pandemia se tivesse comprado vacinas antes. O parlamentar ainda pensa que faltam “circunstâncias” para o impeachment de Bolsonaro. “Vai resolver o quê?”, indaga o ilustre alagoano.

Os tempos são de um horror sem fim, e a agressividade do presidente aumenta a cada dia, sobretudo no contato com a imprensa e quando o assunto é a Covid-19. Na última terça-feira, irritado com a repórter de televisão Laurene Santos, da TV Vanguarda, ele simplesmente mandou-lhe calar a boca. Mas e daí? Ele age assim sempre… Ora, esse destempero, mais um dentre tantos, mostra toda sua falta de educação e dá o tom perfeito do quanto é despreparado para o exercício do cargo maior da República, mas e daí?

O Brasil vive uma das suas piores fases políticas. Faz-se mister que a sociedade civil grite e exija mudanças profundas e imediatas; que os parlamentares acordem para a defesa do Brasil; que os magistrados se empenhem no seu papel constitucional, exercendo-o com vigor; e que as Forças Armadas estejam atentas ao que acontece e não continuem submissas ao “rei”.

Não dá mais para se conviver com o caos instalado e nem muito menos com tanta irresponsabilidade e falta de comprometimento com a vida do povo brasileiro.

 

Paulo Alonso é jornalista.

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