Brasil é o maior gerador de resíduo eletrônico da América do Sul

País contribui com 2,4 milhões de toneladas para o total global; por outro lado, obsolescência de smartphones faz com que preços de novos caiam mais rapidamente

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Lixo eletrônico (Foto: Pixabay)
Lixo eletrônico (Foto: Pixabay)

O relatório recente da Organização das Nações Unidas), intitulado “The Global E-waste Monitor 2024” revela uma realidade alarmante que demanda nossa atenção imediata. Os números apresentados são mais do que estatísticas frias, eles refletem um problema crescente que afeta diretamente nossa qualidade de vida e o ambiente que compartilhamos. Com uma geração mundial de resíduos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos excedendo dramaticamente nossa capacidade de reciclagem realizada, é imperativo que abordemos esse desafio de frente.

Segundo Helen Brito, gerente de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree), “a escalada vertiginosa desses resíduos, aumentando a uma taxa cinco vezes mais rápida do que nossa capacidade de reciclagem, deve ser um alerta para todos. Em 2022, atingimos a marca de 62 milhões de toneladas desses materiais descartados, representando um aumento significativo de 82% desde 2010. Para ilustrar a magnitude desse problema, pense em 1,55 milhão de caminhões de 40 toneladas alinhados, formando uma fila que circunda o globo na linha do Equador. Este é o volume de resíduos que o mundo produz em apenas um ano.”

De acordo com ela, “ao examinarmos os principais produtores per capita de resíduos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, constatamos que a Europa lidera, com 17,6 kg por pessoa, seguida pela Oceania, com 16,1 kg, e pela América, com 14,1 kg. Esses números ressaltam a magnitude do desafio que enfrentamos em todas as partes do mundo, independentemente do desenvolvimento econômico ou do tamanho da população. Uma observação notável é o papel do Brasil como o principal gerador de resíduos na América do Sul, contribuindo com 2,4 milhões de toneladas para o total global.”

A falta de uma cultura de descarte adequado é um dos principais responsáveis por essa crise. Muitas vezes, os consumidores simplesmente descartam seus dispositivos eletroeletrônicos e eletrodomésticos antigos de forma irresponsável, sem considerar o impacto ambiental ou a possibilidade de reciclagem. Esse comportamento não apenas desperdiça recursos valiosos, mas também coloca em risco nossa saúde e o meio ambiente. Os materiais tóxicos presentes nesses dispositivos podem contaminar o solo, a água e o ar, contribuindo para uma série de problemas ambientais e de saúde pública.

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O estudo sugere que podemos esperar um aumento anual de 2,6 milhões de toneladas na geração de resíduos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, com a possibilidade de atingir 82 milhões de toneladas até 2030. Esses números não devem ser ignorados, pois têm implicações econômicas, ambientais e sociais significativas.

O relatório, entretanto, também destaca uma oportunidade para uma mudança positiva. Se os países conseguirem aumentar as taxas de recolhimento e reciclagem para 60% até 2030, os benefícios econômicos e ambientais superarão os custos em mais de US$ 38 bilhões. Isso não é apenas viável, mas também essencial para garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.

“Para alcançar esse objetivo, é fundamental que todos os setores da sociedade se unam em prol da causa. Governos, fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos eletroeletrônicos e eletrodomésticos têm um papel fundamental a desempenhar na implementação de políticas e iniciativas que incentivem a reciclagem responsável. Além disso, é importante educar e capacitar os consumidores para que possam fazer escolhas informadas e adotar práticas de descarte sustentáveis. A transição para uma economia circular, na qual os recursos são reutilizados e reciclados de forma eficiente, é essencial para enfrentar os desafios apresentados pelo aumento dos resíduos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. Ao adotarmos uma abordagem holística e colaborativa, podemos transformar essa crise em uma oportunidade para promover um futuro mais sustentável e próspero para todos”, diz Helen.

Por outro lado, de acordo com o Índice de Preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)/Buscapé, os preços dos produtos eletroeletrônicos oferecidos por meio da internet tiveram uma queda anual de 7,4% em março. A pesquisa, que monitora 47 categorias de eletroeletrônicos e mais de 2 milhões de preços continuamente com informações do principal comparador de preços do país, mostra que a variação de março é semelhante à média das variações anuais dos últimos seis meses, com pequenas diferenças entre eles, indicando estabilidade do índice no período.

Os preços dos eletroeletrônicos tiveram queda anual em todos os meses desde janeiro de 2023, ao contrário do que vem ocorrendo com os preços em geral. A queda mensal de -1,29% nos preços de eletroeletrônicos vista em março vem logo após as quedas de -0,05% em janeiro, e de -0,56% em fevereiro, e reforça o cenário de deflação do segmento que, de acordo com a série de 27 meses do Índice Fipe/Buscapé, teve aumentos de preços somente em cinco meses.

Para Sergio Crispim, pesquisador da fundação, o movimento de queda de preços é global e pode ser considerado normal para o setor.

“Fatores estruturais e a inovação no setor de tecnologia fazem com que haja uma sistemática redução nos preços dos produtos ao longo do tempo. Cenários de alta em determinadas categorias são influenciados por fatores externos pontuais, como é o caso do ar-condicionado”, explica o pesquisador.

Apenas duas categorias tiveram aumento de preço no período anual de março deste ano comparativamente a março de 2023: ar-condicionado (16,7%) e ventilador e circulador (1,6%). Ambos foram pressionados principalmente pelo desequilíbrio entre demanda e oferta, derivado do calor atípico e de problemas logísticos, que resultaram em expressivos aumentos mensais no último quadrimestre de 2023, com um pico de 7,4% em dezembro.

A categoria de smartphones é sempre a principal no cenário de quedas de preço. Em março, o produto ficou, em média, 14,9% mais barato, seguindo a tendência de meses anteriores. Além dos celulares, destacam-se monitores (-13,9%), notebooks (-12,5%) e pc-computadores (-12,0%).

Para Francisco Donato, superintendente da Mosaico, empresa detentora das marcas Buscapé e Zoom e operadora do Shopping PAN, os smartphones são os que mais passam pelo processo de inovação.

“Por serem uma ferramenta essencial para o dia a dia da população, diversas marcas estão constantemente implantando novas features e tecnologias nos aparelhos. Esse processo acelera a obsolescência do celular e, consequentemente, faz com que os preços dos modelos disponíveis caiam em um ritmo mais acelerado que em outras categorias”, explica o executivo.

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