Brasil  paga dívida externa e não gasta com educação

“Na França também temos uma grande dívida pública, mas a prioridade é a educação. No Brasil o primeiro destino da despesa é o serviço da dívida. A taxa de juros alta significa necessariamente menos dinheiro para a área social, saúde, educação, etc.” O alerta é do economista francês Pierre Salama, professor da Universidade de Paris e diretor científico da revista Tiers Monde, que escreveu, na época da posse do presidente Lula, artigo intitulado “O Brasil na encruzilhada”, criticando “a submissão das economias periféricas na divisão internacional do trabalho, tal como foi imposta pelas economias do centro”.
Nesta entrevista ao repórter Rogério Lessa, do MONITOR MERCANTIL, após lamentar que “aparentemente, Kirchner (presidente da Argentina) tenha vindo para fazer o que esperávamos de Lula”, disse que “Fundamentalista”, o atual governo dos EUA segue pressionando os países em desenvolvimento a assimilarem idéias como a do Estado mínimo, que não adotam internamente e se valem do poderio do dólar para financiar seu déficit comercial e fiscal.

Para Salama, sem endurecer (não romper) as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), controlar capitais e renegociar dívidas não há saída para países em desenvolvimento. O momento político para uma mudança de rumos seria este. “Além de fundamentalistas, os norte-americanos também são pragmáticos e não seriam loucos de permitir uma recessão demasiado forte. Se acontecer a radicalização política num país do porte do Brasil será um perigo para os EUA. Isso já aconteceu na Venezuela e no México: o tratamento político da questão da dívida”, apregoa.

Muitos analistas consideram que os EUA impõe a hegemonia por deterem a moeda internacional. Por trás da moeda não estaria uma economia também hegemônica?

Os EUA têm uma moeda importante e podem continuar apresentando enorme déficit fiscal e comercial exatamente por isso. Mas o fato é que agora essa capacidade de financiamento dos EUA se enfraqueceu. Porém, essa crise se refletiu de forma negativa para praticamente todos os países do mundo, exceto a China. No Brasil, embora os investimentos externos também tenham caído, foi em menor proporção que nos demais. Mas estamos numa situação extremamente difícil, pois quando os EUA usam a força de sua moeda diminui a capacidade de países como o Brasil de atrair investimentos.

O chamado “Eixo do Mal” tinha em comum fazer as reservas em euros. Acredita que os EUA vão continuar tentando manter a hegemonia à força?

A hegemonia é sempre relativa, nunca absoluta. Agora há possibilidade para um país como um Brasil de jogar um pouco mais com a Europa e com a Ásia, por exemplo. É uma maneira de relativizar o peso dos EUA. No caso da invasão do Iraque, há dois problemas: o petróleo e o partido Republicano, que tem concepção e postura fundamentalista. Me parece interessante que a Europa tenha ficado dividida no episódio da invasão. Foi a primeira vez que a Europa (França e Alemanha) faz uma ameaça de dizer não. Houve também movimentos de massa contra a política republicana, mesmo na Inglaterra, Espanha e Itália. O movimento “não à guerra” é o mais forte hoje na Espanha, na Inglaterra. As manifestações de massa podem mudar a postura dos governos.

Venderam aos países do Terceiro Mundo a idéia de “Estado mínimo”. O que pensa disso?

Isso é jogar para a platéia. Falam de Estado mínimo, mas Bush adota o Estado keynesiano. Quando existe um problema, o Estado intervém. São liberais na palavra, mas a ação é keyneisiana. Os países em desenvolvimento, contudo, não podem fazer o mesmo para sair da recessão. As pressões sobre o sistema de previdência social ou sobre a poupança mostram bem isso: o que se diz para os outros e o que se pratica para si.

Aqui convivemos com altas taxas de juros, com crises cambiais recorrentes e ainda temos que produzir enormes superávits fiscais. Como poderemos escapar dessa armadilha sem desestabilizar a economia?

Na França também temos uma grande dívida pública, mas a prioridade é a educação. No Brasil o primeiro destino da despesa é o serviço da dívida. A taxa de juros alta significa necessariamente menos dinheiro para a área social, saúde, educação, etc. Tem conseqüências sérias. Há um segundo problema, ainda que a economia brasileira seja comercialmente bastante fechada, mais até que a francesa ou asiática, é completamente aberta em nível financeiro. Esse é um alto custo sobre a atividade econômica. As altas taxas de juros provocam, necessariamente, uma economia média numa recessão. E com recessão não há como desenvolver políticas sociais e reduzir a pobreza. Uma política de impulsos ao gasto público não é apenas para melhorar o social, mas também as perspectivas do setor privado, que terá seu capital próprio valorizado. Penso que Lula apostou em atenuar a especulação internacional que me parece semelhante à política de Fernando Henrique Cardoso.

Mas Lula está tentando unir a América do Sul em projetos de infra-estrutura regional para pressionar o FMI a alterar o conceito de déficit das empresas estatais, cujos investimentos são classificados como despesa. A união regional não seria a melhor saída?

O mundo não é preto ou branco. É possível melhorar, mas com a receita do Fundo Monetário Internacional é impossível. É impossível viver em um mundo quando existe outro dominante. Se os EUA detêm a hegemonia, é preciso levá-la em consideração, mas combatendo-a e não para aceitá-la. A partir desse momento, o processo de construção do Mercosul, por exemplo, pode ajudar a negociação com o FMI. Tanto que os EUA estão priorizando a negociação bi-lateral para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A questão é política. Não se pode entender o processo de regionalização sem observar o que se passa na Ásia, por exemplo, na Malásia, que não quis o apoio do FMI e nem seguiu sua política econômica. Existe, ainda, a possibilidade de países em desenvolvimento atuarem em bloco junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Argentina renegociou sua dívida externa e está tentando controlar a volatilidade dos capitais financeiros. O Brasil deveria fazer o mesmo?

Aparentemente, Kirchner veio para fazer o que esperávamos de Lula. É uma surpresa da história. A política da Argentina é bem mais dura que a do Brasil porque o país pagou caro a adoção da política do FMI com Menen, De La Rua e também com Duhalde. Hoje, a recuperação da economia legitima a exigência de uma política mais suave do FMI.

Em janeiro, época da posse do novo governo, o senhor escreveu um texto de título “O Brasil na encruzilhada”. Quais são os principais desafios do país?

É preciso saber o que o Brasil vai fazer. Seguir a política do FMI e não poder fazer nada, tal como fez Fernando Henrique Cardoso, significa que há risco de acontecer com Lula o mesmo que se passou com De La Rua, na Argentina. Mas existe a possibilidade de se criar uma política diferente, que não se trata de romper com o FMI, mas de discutir de outra maneira a situação econômica. Há necessidade de aumentar o gasto público e controlar os capitais de modo a permitir baixa nas taxas de juros. Existe agora o Mercosul e outros países da Ásia que podem pressionar de outra forma como tratar a economia. Mas o Brasil é diferente da Argentina. Os EUA tem uma posição completamente fundamentalista, por um lado, e por outro extremamente pragmática. Se tratam com um pequeno país, como a Bolívia, não farão nada. Mas um país como o Brasil, que é o mais importante da América Latina, não pode ter uma recessão demasiado forte. Pois se acontecer a radicalização política será um perigo para os EUA. Eles não são completamente loucos. Isso já aconteceu na Venezuela e no México: o tratamento político da questão da dívida. Mais vale fazer um bom acordo do que insistir na ditadura do FMI.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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