Brasil sem rumo e à beira do caos sanitário

Por Paulo Alonso.

O Brasil continua sem rumo. E o povo continua esperando ações efetivas do Governo Federal em relação às políticas públicas relativas ao Plano Nacional de Imunização. Enquanto nada acontece, ao colapso do atendimento hospitalar, soma-se a falta de oxigênio em diversas regiões do país, e, agora, o risco iminente de falta de anestésicos e de kits para intubação, algo que vem sendo alertado às autoridades federais desde meados do ano passado, sem que nenhuma atitude fosse devidamente pensada ou alguma ação efetivamente executada.

Nas duas últimas semanas, o brasileiro assistiu incrédulo a dois fantoches no comando do Ministério da Saúde. Um de saída, o general-ministro Pazuello, que nada fez à frente da Pasta a não ser concordar com os desmandos do presidente da República; e o outro, entrante, que seguia os passos do militar, a que tudo assistia e concordava, sem nada fazer, sem um pronunciamento digno e esperançoso ao povo e à altura nessa situação de tragédia.

A existência de dois “ministros” em um mesmo ministério era tão vergonhosa que os parlamentares, à frente os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, colocaram pressão em Bolsonaro, assim como outras autoridades, exigindo dele a troca imediata na Saúde.

E, pressionado, vejam só o absurdo em que vivemos, Bolsonaro resolveu de repente, na última terça-feira, dar posse ao médico Marcelo Queiroga como novo ministro de Estado da Saúde. A cerimônia foi discreta, sem holofotes, longe da imprensa, no Palácio do Planalto, e sequer constava da agenda oficial do presidente. Tudo feito às escondidas. Somente a partir da publicação no DO, o Brasil ficou sabendo, pelos veículos de comunicação, da novidade. Surreal, nem Dali, em seus delírios, faria algo assim.

Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Queiroga substitui Pazuello no mais dramático momento da pandemia do coronavírus, Covid-19, com recordes sucessivos de mortes e contaminações, dia após dia. E assim o Brasil caminha para chegar às quase 300 mil mortes pela Covid.

Na terça-feira, dia 16, um dia após ser indicado para suceder o então general-ministro, Queiroga afirmou que era necessária a união da nação para o enfrentamento da nova onda da pandemia da Covid-19. Ora, bolas, que bela manifestação! Obviamente, todos sabemos, homens e mulheres de bem e responsáveis, comprometidos com a educação, com a saúde, que esse momento já passou e há meses… e somente agora o médico, sendo investido de ministro, pensou nisso. Chega a ser ridículo. E é!

Ele também, na oportunidade, defendeu o Sistema Único de Saúde, o SUS, e citou a importância das “evidências científicas” em futuras ações da pasta, mas estragou tudo, quando sinalizou que fará uma gestão de continuidade. Como assim? Parece-me que gestão de continuidade é permitir que mais mortes aconteçam, que não seja implementada uma ação nacional de combate ao vírus, que seja negada a eficácia das vacinas e por aí vamos… Convenhamos, que médico e ministro é esse?

Demonstrando estar afinado com as “preocupações” de Bolsonaro, Queiroga se mostrou igualmente preocupado com o impacto da pandemia da Covid-19 na economia. E ingenuamente disparou: “É preciso unir esforços do enfrentamento da pandemia com a preservação da atividade econômica.” Ora, ora, senhor Queiroga… isso é claro e evidente, mas uma política sanitária eficaz e efetiva precisa ser imediatamente implementada.

Marcelo Queiroga é o quarto ministro da Saúde desde o começo da pandemia de Covid, há pouco mais de um ano. Antes de Queiroga, comandaram o ministério o médico e ex-deputado federal Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), o médico Nelson Teich, e o general do caos Eduardo Pazuello, de triste lembrança que, para ser resguardado da imunidade, deverá ganhar novo cargo no Planalto…

Natural de João Pessoa e formado, em Medicina, pela Universidade Federal da Paraíba, Queiroga fez residência em cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, e possui especialização em cardiologia, na área de hemodinâmica e em cardiologia intervencionista.

Em dezembro do ano passado, Queiroga foi indicado por Bolsonaro para ser um dos diretores da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A indicação não chegou sequer a ser votada pelo Senado Federal, mas agora, por suas ligações com o senador das rachadinhas, abocanhou o cargo máximo da Saúde brasileira.

E assim vai caminhando o Brasil, sem vacinas e sem qualquer plano federal de combate ao novo coronavírus e suas novas variantes. O Brasil está, na realidade, entregue à própria sorte, ops, azar mesmo, pois não dá para enxergarmos saída desse labirinto que nos enfiaram nem a curto e nem a médio prazos.

Bolsonaro fez um curto discurso televisionado à Nação brasileira na noite de terça, dia 23. Discurso surpreendente, diga-se de passagem. Isso se fosse sério. As palavras utilizadas, lamentavelmente, não traduzem a verdade dos fatos que têm acontecido no Brasil. Se ele, na realidade, tivesse tomado todas as providências que descreveu, a situação dos brasileiros seria outra. E centenas de mortes poderiam ter sido naturalmente evitadas. Um discurso para inglês ver, como se diz popularmente.

Até porque todos sabemos e acompanhamos, com asco, indignação e vergonha, a lista dos malfeitos de Bolsonaro: negacionismo; contrário ao uso de máscaras; contrário à vacinação; incentivador de aglomerações; devoto fervoroso da cloroquina; recomendações de tratamentos fictícios e de remédios sem comprovações eficazes; desprezo pela vida, quando menciona ser a Covid19 uma simples gripezinha; descaso total pela doença e seu trato, em consequência e mais e mais…

A política do Governo Federal é mais do que omissa ou incapaz, é sim, verdadeiramente, homicida. Mais do que desrespeitar a Organização Mundial de Saúde; desrespeitar os médicos e sanitaristas brasileiros; criar confusão com os governadores e ir ao STF para barrar a ação de três deles (o ministro Marco Aurélio de Mello votou contra o pedido de Bolsonaro); e fazer troça com a vida dos brasileiros, Bolsonaro e seus assessores e comandados renovam, e diariamente, um pacto do Brasil com a inércia e com o despreparo de governar uma Nação.

Tristíssima realidade vive o Brasil.

 

Paulo Alonso é jornalista.

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