Brasil voluntário

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2001 vai ser o Ano Internacional do Voluntariado, ou algo parecido – pelo menos, é o que me informa a televisão, todos os dias. Se fosse uma disputa de medalhas, na minha opinião, o Brasil conquistaria uma tranqüilamente; não importa se prata, ouro ou bronze.
Não conheço o mundo e portanto desconheço outro povo tão voluntário quanto o meu. Sei que se tem incêndio numa favela, algumas horas depois começam a chegar alimentos, cobertores, roupas e remédios; a mesma coisa quando de enchentes e demais tragédias. De Brasília me vem a notícia de um motorista e uma cobradora de ônibus que recolheram R$ 850, entre colegas e passageiros, para comprar uma cadeira de rodas para uma senhora que carregava quase todos os dias, no colo, a filha de 12 anos com paralisia cerebral. De uma favela (não sei onde), tomo conhecimento de cinco meninos que vendem pirulitos feitos por uma velhinha, professora abandonada pela aposentadoria, que mal pode caminhar pelas próprias pernas, mas a bordo de um andador, doado pelos vizinhos, ainda dá conta de pilotar um fogão a gás.
De outra favela, desta do Rio, me contam de um menino da praia que está ensinando os meninos e meninas dos morros a mexer com computadores, arrumou espaço para a escola funcionar e descola equipamentos-entulhos, que reforma e “turbina”, com os bambambãs do empresariado da beira do mar. E os pais e mães, por este Brasil inteiro, que fazem mágica pelas escolas de seus filhos, pintando, consertando, remendando, eletrificando, encanando, cozinhando, bancando às vezes de enfermeiras, alimentando na boca dos menores, conversando. E os milhares de anônimos cidadãos que periodicamente vão aos hospitais e asilos, para contar histórias para crianças enfermas, acarinhá-las em esperança de cura, e conversar com velhinhos largados pela vida, ouvindo-os, dando-lhes um tantinho de atenção. E a legião abnegada, que separa uma parte de seu contato dinheirinho para compor uma cesta básica, e que luta por mais cestas básicas.
Alguém me diz que confundo voluntariado com solidariedade, será mesmo? São conceitos distintos, eu sei. Como sei também que se compõem e se confundem, na realização do objetivo maior – que são muitos. Ajudar, consolar, ensinar, amparar, amenizar dores e sofrimentos, doar, confiar, mostrar, explicar, e ter paciência e, por abnegação, jamais esperar qualquer recompensa ou retribuição. Algo que o povo brasileiro faz com a categoria da seleção de futebol da Era Pelé.
Na minha seara (livros, educação), as atitudes também são elogiáveis, comoventes. A Fundação Abrinq “recrutou” meninas e meninos bem-nascidos para contar histórias (e até ensinar a ler e a gostar de ler) a crianças carentes; pensem, reflitam, na profundidade desta ação, no significado para os dois lados. Um jovem, morador de uma favela daqui de São Paulo, organizou uma biblioteca comunitária muito bem servida em volumes, inclusive gibis, rendeu até reportagem de televisão, isto é cidadania. No final do ano passado, vi uma propaganda institucional do Sesc/Senac, com a apresentadora Angélica pedindo livros usados para um programa de leitura nas férias. Reuni uns 50 exemplares de livros repetidos ou cuja leitura não me haviam cativado, juntei em duas sacolas de feira e lá fui eu para uma unidade próxima de casa – pois acreditem, tinha fila para fazer a doação! Não sei quantos volumes foram arrecadados, mas com certeza não foram poucos. Será que este ano Sesc/Senac vão repetir a dose? Deveriam.
Sei que o Leia Brasil, programa de leitura da Petrobrás, sem muita divulgação conseguiu arrecadar para a formação de bibliotecas comunitárias mais de 30mil livros usados, somente no último final de semana de outubro, no Parque da Água Branca, em São Paulo. Dá para começar pelo menos sessenta pequenas bibliotecas, o que não é pouco, registre-se. (Imaginem se essas louras apresentadoras de programas infantis dedicassem dois ou três minutos semanais para incentivar a molecadinha ainda de dedinho na boca a ler, hein…?!) Sonhos, sonhos, sonhos…
Meu desejo real (e possível, viável) é que neste Ano Internacional do Voluntariado, aqui no Brasil o livro e a leitura obtenham também um pouquinho de atenção. Programas, projetos e ações cidadãs isoladas já existem muitas, mas para democratizar o Conhecimento, e dar maior amplitude ao Saber – armas inalienáveis da Cidadania -, sempre haverá uma coisinha ou outra ainda a ser feita. Será um tempo de mãos às páginas…?

Diorindo Lopes Júnior
Jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (Atual Editora, São Paulo) e Cesta de 3 (Alis Editora, Belo Horizonte), este indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para compor sua relação anual de Leitura Altamente Recomendável, em 1999. Correio eletrônico: [email protected]

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