Brazil for sale*

Por Afonso Costa.

Opinião / 21:58 - 23 de jan de 2020

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O Fórum Econômico Mundial de Davos é um shopping às avessas: em vez das lojas e vendedores esperarem os compradores, são os compradores que esperam os vendedores. Os compradores são as multinacionais e o capital financeiro, enquanto os vendedores são os governos dos países subservientes ao capital internacional.

Os governos subservientes vendem as riquezas naturais de seus países, empresas públicas, direitos trabalhistas, a força de trabalho das suas populações, sem que tenham sido eleitos para tanto, já que no geral os processos eleitorais são antidemocráticos, beneficiando aqueles que têm mais recursos, que mentem descaradamente para os eleitores, que escondem suas verdadeiras ideias de submissão.

Estão presentes em Davos, na Suíça, representantes de cerca de 140 das maiores empresas do planeta, das quais muitos têm interesses diretos no Brasil, segundo relatos da imprensa.

Guedes apresentou PPI, financiamento

público para multis ‘comprarem’ estatais

Representando o Brasil nessa verdade feira estão o ministro da Economia, Paulo Guedes, e alguns dos seus assessores, já que o presidente da República se mostrou absolutamente incapaz no ano passado. Não que o ministro seja alguma sumidade, mas ele sabe quais são os interesses do capital e como viabilizá-los.

Em seus pronunciamentos o ministro colocou o Brasil à venda. Primeiro, capitalizou a reforma da Previdência, que contribui para a destruição do SUS, prejudica diretamente os trabalhadores, aposentados e pensionistas, além de auxiliar os regimes de previdência privada e garantir recursos para o pagamento da falsa dívida pública, de interesse do capital financeiro.

A privatização dos Correios foi um dos temas abordados nas reuniões, com interesse da estadunidense UPS. Já a chinesa Huawei está de olho na telefonia. A energia e o saneamento, com destaque para a Cedae do Rio de Janeiro, também foram destacadas e objetos de interesse por parte das multinacionais, além da Eletrobras, Telebras, Casa da Moeda, ferrovias, rodovias e aeroportos.

O ministro apresentou o Programa de Parcerias de Investimentos, sigla que representa financiamento público para as multinacionais “comprarem” as empresas estatais, abordando mais de 100 projetos em curso. Em suma, colocou o país à venda em condições mais que facilitadas.

Entre as preocupações das empresas estrangeiras estão a reforma tributária brasileira – eles querem mais isenções de impostos e créditos subsidiados; assim como a reforma administrativa, a fim de sucatear ainda mais as empresas públicas, tentar calar quaisquer manifestações em sua defesa, e reduzir seus preços.

Para as negociatas não ficarem escancaradas, o meio ambiente é um dos temas em destaque no fórum. Foi cobrado dos representantes do atual governo brasileiro compromissos com a sua defesa, em especial da Amazônia.

O ministro Paulo Guedes, tentando responder ao tema, pagou vexame até mesmo para os representantes das multinacionais: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque elas precisam comer. Elas têm outras preocupações, as quais não são as mesmas preocupações das pessoas que já destruíram as florestas, que já combateram as minorias étnicas e todas essas coisas. É um problema muito complexo, não tem uma solução simples, mas o primeiro passo é tentar acabar com todos esses obstáculos, e é algo que nós estamos tentando fazer agora”, disse ele.

Ao contrário do presidente, ele admite que existe fome no Brasil, mas culpa quem luta contra ela como os agressores ao meio ambiente, não os verdadeiros destruidores, os ruralistas e grandes empresas que destroem cada vez a floresta e o meio ambiente como um todo.

Medidas similares a essas defendidas pelo ministro foram adotadas em outros países, com imensos prejuízos para seus povos. Não deram certo lá nem darão aqui, pois não visam o bem-estar da população, muitos menos o fortalecimento do país, mas apenas garantir as benesses do capital.

Essas iniciativas são as verdadeiras inimigas do povo brasileiro. São elas que devemos combater prioritariamente, sem esquecer um possível totalitarismo, manifestado abertamente por integrantes e simpatizantes do governo.

*Apesar de ser adepto do mestre Ariano Suassuna e ser contra a utilização de expressões em outra língua que não a nossa, abri uma exceção para deixar claro o que está acontecendo.

Afonso Costa

Jornalista

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